Com uma brutalidade de 10 nomeações, «O Brutalista» (2024) apresenta-se como um dos principais candidatos a ser feliz nos Óscares 2025. Destacam-se sobretudo as indicações de Melhor Filme, Melhor Ator (Adrien Brody), Melhor Realizador (Brady Corbet), Melhor Atriz Secundária (Felicity Jones), Melhor Ator Secundário (Guy Pearce), Melhor Argumento Original e Melhor Banda Sonora. O filme, aclamado pela sua sensibilidade e densidade emocional, retrata a luta de um homem, László Tóth (Brody), marcado pelo trauma do passado recente, enquanto tenta reconstruir a sua vida e carreira nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

O Brutalista

Arquiteto e judeu, László segue atrás do sonho americano, depois do Nazismo ter destruído tudo o que tinha e conhecia. Ao mesmo tempo que se tenta reencontrar com a mulher, Erzsébet (Felicity Jones), o homem enfrenta as dificuldades da imigração e os desafios de se estabelecer como arquiteto num país estranho e que também o vê como estranho, até que uma grande oportunidade, com um cliente influente (interpretado por Guy Pearce), altera o seu destino. No entanto, essa esperança traz dilemas éticos e emocionais, que desafiam os seus princípios e o forçam a confrontar as feridas ainda abertas, enquanto vai atrás de um futuro incerto.

À medida que László tenta equilibrar as expectativas profissionais e pessoais, vê-se numa luta constante para provar o seu valor neste “novo mundo”, ao mesmo tempo que tenta recuperar a ligação com Erzsébet, que também carrega as suas próprias cicatrizes. A pressão para se afirmar como arquiteto num país que o encara como um estrangeiro, e estabelece essa barreira, numa cultura que valoriza a adaptação rápida e a conquista imediata. Como não tem essa capacidade sobre-humana, László sente-se constantemente deslocado. As oportunidades profissionais surgem, mas nem sempre são as que ele ambiciona, levando-o a fazer concessões que entram em conflito com os ideais que tem e a sua visão do que espera do futuro.

A realização de Brady Corbet n’«O Brutalista» (2024) é uma das suas forças, não apenas pela sua abordagem visual, mas também pela profundidade com que explora temas complexos e emocionalmente carregados, como o pós-Holocausto, a luta pela identidade e a adaptação a uma nova vida. O acompanhamento que a câmara faz de László, sem pressas (que o diga quem assistiu as quase 3h30 de filme) e de muito perto, mostra a tensão interna da personagem, que luta para encontrar o seu lugar num mundo que já não é o mesmo, na sequência da destruição física e psicológica causada pela guerra. A maneira como combina esta intensidade emocional com uma narrativa focada na reconstrução pessoal é uma das mais-valias do filme, transmitindo sensações simultâneas de total desespero e esperança.

Ao abordar o pós-Holocausto, Brady Corbet não se limita a retratar o trauma das suas personagens, mas também a complexa jornada de sobrevivência, que vai além de conseguir escapar fisicamente. O filme explora como o peso do passado impacta as relações e decisões atuais, procurando evitar clichés e representações superficiais. A adaptação à nova vida nos Estados Unidos, longe da Europa devastada, é tratada de forma visceral, mostrando como a alienação e a procura por um novo começo estão interligadas com a (re)descoberta da identidade. É uma viagem pessoal repleta de nuances, não só devido à questão cultural ou geográfica, mas também como uma busca interna por significado.

«O Brutalista» (2024) é uma obra cinematográfica complexa e com profundidade, que analisa e esmiúça as cicatrizes do passado, mas também a luta constante pela reinvenção pessoal, juntando peças que se julgam perdidas ou irremediavelmente partidas. A realização, cinematografia e argumento, aliados às atuações excecionais de Adrien Brody, Felicity Jones e Guy Pearce, criam um retrato poderoso de resiliência, identidade e adaptação. O filme deixa uma impressão duradoura ao mostrar como, mesmo diante das adversidades, é possível encontrar um caminho de redenção e, quem sabe, de cura.

OSCARS 2025

VENCEDOR Oscar Melhor Ator

VENCEDOR Oscar Melhor Fotografia

VENCEDOR Oscar Melhor Banda Sonora

ARTIGOS RELACIONADOS
Sonhos e Comboios

Ainda nem às dez páginas tinha o conto de Denis Johnson chegado e já Robert Grainier (Joel Edgerton), um madeireiro Ler +

Crítica The Shrouds – As Mortalhas – estreia TVCine

Há sete anos, enquanto desfrutava de uma pausa na sua carreira cinematográfica para se dedicar a um projeto literário, o canadiano Ler +

Memento

Digamos, para simplificar, que se trata de um «thriller» psicológico construído... ao contrário. Como o protagonista (Guy Pearce) não consegue Ler +

Escolha Mortal

Um inesperado e bem interessante retorno a algumas componentes do western, neste caso em paisagens australianas. Aliás, importa dizer que Ler +

Emilia Pérez
Crítica Emilia Pérez – estreia TVCine

Ver «Emilia Pérez» (2024) após o anúncio das suas 13 nomeações aos Óscares de 2025, ficando a apenas uma indicação Ler +

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.