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Actualizado às 11:18 PM, Jul 17, 2018

Black Mirror: o melhor da TV continua a mostrar o pior de nós

Destaque Black Mirror: o melhor da TV continua a mostrar o pior de nós

A quarta temporada de «Black Mirror» chega à Netflix na sexta-feira, 29, bem a tempo de estragar as contas das melhores séries do ano. Com argumentos sólidos e pungentes, a série, que até já esteve condenada ao cancelamento no passado, regressa mais forte do que nunca. A METROPOLIS teve acesso à nova temporada em primeira mão e traz o kit de sobrevivência para mais uma aventura hipertecnológica.

“E a tecnologia?”. Esta pergunta ecoa, persistentemente, a cada nova incursão no universo de «Black Mirror», cujos episódios, independentes entre si, são unidos pela tecnologia, qual omnipresença invisível, e pela inevitabilidade de esta assumir novas formas (e perigos) no futuro. A tecnologia, sempre ela, mesmo quando o espectador não a alcança imediatamente à vista desarmada; mas será sempre ela a vilã desta história? Longe disso. Nada em «Black Mirror» escapa ao futuro – utópico mas perigosamente próximo –, que mascara com a sua espectacularidade o que de menos agradável há no ser humano.

Este futuro, distante mas próximo o suficiente para nos deixar assustados, volta em força com seis mini-filmes que têm como protagonista a tecnologia e, sobretudo, as suas potencialidades. Neste sem-fim de histórias assombradas pelo ser humano, e pelo que ele é capaz de fazer para sobreviver, há uma presença constante das dicotomias do certo e errado, ainda que nem sempre seja fácil, para o espectador, colocar uma ação numa ou noutra categoria. Assim como aconteceu com os episódios “The Entire History of You” ou “San Junipero”, por exemplo, a empatia não é uma relação literal e é particularmente difícil encaixar as decisões das diferentes personagens, de forma pacífica, na forma como percebemos a realidade.

blackmirror crocodile

Continua a existir uma preocupação do argumento, fortalecida ou desafiada pela realização, em tornar a narrativa exequível no tempo presente. Só assim esta relação conflituosa entre o espectador e os acontecimentos do pequeno ecrã é possível: embora haja uma perceção plena de que aquela tecnologia ainda está longe de ser global e banalizada, a verdade é que a conseguimos enquadrar na sociedade atual. Veja-se a mãe que instala uma vigilância constante na filha em “Arkangel”, ou a persistência em filmes com a temática da inteligência humana artificial, como é o caso de “Black Museum”. E até eventos menos prováveis, pelo menos a curto prazo, como “Metalhead” trazem consigo o fantasma da possibilidade, pois não deixam de ser uma ameaça do futuro.

«Black Mirror» não é apenas uma série, mas sim uma experiência. Perante a tecnologia fornecida às personagens deste imaginário tecnológico, o espectador acaba a indagar o que faria caso aquela tecnologia fosse atual. Embora se trate de ficção científica, a série da Netflix acaba a ser discutida quase como um documentário, na medida em que espelha as debilidades da instrumentalização do quotidiano, mas também o papel que o ser humano tem no decorrer da ação. Não estamos na presença de um elemento passivo, e a quarta temporada é sublime neste aspeto: coloca o homem e a mulher na sua zona de conforto para, desafiando esta aparente normalidade, deixar o espectador desconfortável.

blackmirror blackmuseum

A sobrevivência da individualidade numa era de massas

“Arkangel” vai dar que falar, e que terá, provavelmente, entrada direta para o top de melhores episódios de «Black Mirror». Realizado por Jodie Foster e com história da responsabilidade do criador Charlie Brooker, “Arkangel” instala-se numa sociedade familiar, sem grandes truques tecnológicos, e coloca uma mãe aparentemente banal (Rosemarie DeWitt) no centro da ação. Depois de perder momentaneamente a filha, deixa-se controlar pelo medo e instala um serviço permanente de vigilância e localização na criança, a fim de se proteger de novo susto. Como seria de esperar, esta história não tem um final feliz.

Mais uma vez, esta história é tecnológica à superfície, mas é essencialmente humana. A preocupação individual (e familiar) da personagem de DeWitt toca um tema muito sensível aos pais, a segurança dos filhos, pelo que é fácil encontrar lógica e justificações para as suas motivações. Além disso, e atendendo ao foco de «Black Mirror», continua a ser importante perceber de que forma o individual choca com as outras individualidades, bem como a tecnologia pode ser uma forma de controlo e manipulação, mesmo que não exista essa permissão clara. Há uma leitura diferente desta relação entre o indivíduo e o interesse geral em “Crocodile”, um episódio mais frio – não apenas categoricamente mas também porque se passa na Islândia.

Novamente com argumento de Brooker, o episódio toma outras liberdades no universo que já antes inspirou “The Entire History of You”, na primeira temporada, nomeadamente a possibilidade de revisitar memórias de forma clara. Um thriller improvável e que se torna cada vez mais complexo, “Crocodile” é um twist e desafio permanente às interpretações que vamos fazendo às personagens e acontecimentos. Algo que atinge um nível ainda mais assertivo em “USS Callister”, uma homenagem fora do comum ao legado deixado por «Star Trek», pela lente de um realizador acostumado a «Doctor Who». A combinação ganha forças nas palavras de Brooker e William Bridges, que repetem a dupla de “Shut Up and Dance”, de 2016, e que voltam a explorar os limites da individualidade. E nem o espectador se livra de alinhar nesta viagem.

blackmirror arkangel

O homem e a máquina: a efemeridade do ‘eu’

Se “Arkangel” se destaca pela proximidade ao presente, “Black Museum” evidencia-se pela capacidade de explorar aspetos totalmente ficcionais, ainda que esta suposta distância seja uma ilusão – atenuada pela construção da narrativa num ambiente próximo. Tem diversos ingredientes, desde uma partilha demasiado viciante a uma existência artificial que se torna exigente, mas assenta na interação banal entre o dono de um museu (Douglas Hodge) e uma visita que tem de gastar tempo (Letitia Wright). Esta relação quase rotineira serve de fio condutor à viagem pela tecnologia e, em último caso, pela sua efemeridade – que é também a efemeridade de quem a cria.

A série da Netflix encurta, por diversas vezes, a barreira de separação entre o indivíduo e a tecnologia, e este episódio não é exceção. Esta linha é ainda mais reduzida em “Hang the DJ”, onde, ao jeito de um Tinder do futuro, uma máquina de inteligência artificial reúne um conjunto de indivíduos num resort, sendo o objetivo final que estes encontrem a sua alma gémea. O conceito é algo confuso, de forma intencional e fortalecida pelo argumento de Brooker, colocando a decisão maquinal à frente da individual. Desta forma, há um jogo constante entre aquilo que é a tecnologia super avançada, por um lado, e a incapacidade de voltar ao básico do relacionamento humano, por outro. Ironicamente, dá vontade de pedir uma TARDIS para o presente a fim de resolver o conflito inerente à ação, que é bastante simples.

Por sua vez, e ainda com «Stranger Things» bem presente na memória, uma vez que a segunda temporada foi lançada recentemente, “Metalhead” lembra o drama da outra série da Netflix. Os personagens humanos são perseguidos por máquinas, numa realidade futurista e pós-apolítica, a preto e branco, naquela que é uma luta literal entre a tecnologia e a homem. Realizado por David Slade («American Gods» e «Hannibal»), este episódio sombrio destoa da restante temporada a vários níveis, levando ao extremo o entendimento usualmente subjectivo daquilo que é o confronto entre a personagem e a tecnologia em que esta vive mergulhada.

Mídia

Modificado emquinta, 28 dezembro 2017 20:28

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