Erro 404

Erro 404: quando os algoritmos comandam a vida

Erro 404: quando os algoritmos comandam a vida

Em momentos de dor, não há nada mais tentador do que viver uma vida que não é a nossa. Que o diga a “Rita” de Inês Aires Pereira. A atriz, mais conhecida pela comédia e pelas tropelias no «Taskmaster», é, pela primeira vez, protagonista, e logo com um papel dramático. O primeiro episódio de «Erro 404» estreia hoje, pelas 21 horas, na RTP1.

Toda a gente sabe que os outros estão sempre melhor e mais felizes… Já cantava Miguel Araújo que todos os homens eram maus, menos os maridos das amigas: “Porque os maridos das outras são / O arquétipo da perfeição / O pináculo da criação / Dóceis criaturas, de outra espécie qualquer“. Em «Erro 404», uma ideia original de Patrícia Sequeira (que divide o argumento com Tota Alves e Guilherme Vital), também Rita (Inês Aires Pereira) acredita que as respostas para todos os seus problemas residem na vida dos outros. São vidas melhores, mais livres e têm uma grande vantagem: não são a sua.

Erro 404

Quando Rita perde alguém muito importante – e a sua casa parece, de repente, grande demais –, cai num desgosto profundo que se alastra a todos os momentos da sua vida. Na agência onde é copywriter, mostra uma incapacidade incontornável de produzir e, no dia a dia, demonstra muita apatia e tristeza. É nesses momentos que uma misteriosa aplicação de telemóvel, a Appy, a vai tentando com a oportunidade única de experimentar novas sensações. A certa altura, sem nada a perder, Rita não resiste e, à boa tradição de uma sociedade apressada e acrítica, acede à app sem sequer ler com atenção os “termos e condições”. É o algoritmo a funcionar… e a tentação das soluções fáceis a vencer.

Ao entrar na aplicação, Rita é transportada para o corpo de um mulher a entrar em trabalho de parto. Perdida e confusa, é a primeira vez que a protagonista se consegue desligar da sua mágoa permanente. Como se, ao clicar num botão, todos os seus problemas desaparecessem… até voltarem de novo. Apesar de a Appy ser o centro de tudo, o que poderá aproximar a série de outras apostas mais tecnológicas, como «Black Mirror», a verdade é que a aplicação é apenas um veículo para concretizar o conceito de Patrícia Sequeira [não perca, na próxima Metropolis, a entrevista com a criadora].

Uma das estratégias de execução que beneficia, e muito, a série, é o facto de os atores que interpretam as personagens que Rita incorpora imitarem Inês Aires Pereira. Além de muito divertido, torna-se, assim, mais credível para o espectador o truque a que está a assistir. Também a personagem de Valerie Braddell, a avó de Rita, funciona um pouco como “paraquedas” da protagonista, trazendo-a de volta à realidade, de uma forma muito humana; sem ter medo, ainda assim, de testar os limites da previsibilidade.

Com uma intensa crítica social, «Erro 404» ilustra uma sociedade adormecida, frágil e facilmente manipulável, sendo também uma alegoria do sofrimento, que coloca em perspetiva a forma como o ser humano tenta adormecer a dor e qualquer sentimento negativo. A série, de oito episódios, é complexa na sua aparente simplicidade e vai adicionando camadas à sua história base, seja através de diálogos, seja através de momentos determinantes (alguns bastante caricatos). A atenção ao detalhe ajudará o público a antecipar algumas surpresas.

A nova série da RTP1 conta no elenco, além dos nomes já mencionados, com Rui Maria Pêgo, Dinarte de Freitas, Tomás Taborda, Márcia Breia, Ana Padrão e Rodrigo Tomás, entre outros.  Participam ainda Marisa Liz e Dino D’Santiago, que fazem deles próprios.