Depois de salvar Hollywood pendurado em aviões, chega ao futebol com uma missão ainda mais impossível: entrar num estádio sem roubar o espectáculo e sair de lá parecido com um ser humano normal. Tom Cruise vai de facto à bola. Não sabemos se entrará de fato escuro, óculos de sol e aquele sorriso de quem descobriu que a gravidade é apenas uma sugestão, ou se descerá de paraquedas sobre a grande área, entregará a bola ao árbitro e desarmará uma bomba escondida dentro da Taça do Mundo enquanto Robbie Williams chega ao refrão. A FIFA limita-se a anunciar uma «aparição especial» do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de 2026, noventa minutos antes da final de domingo, em Nova Jérsia. Quando se trata de Cruise, «aparição especial» é uma expressão perigosamente vaga. Para qualquer outro convidado significa acenar e dizer que o futebol une os povos. Para ele pode significar atravessar o relvado em sprint e evacuar o estádio antes do intervalo.
A final será entre a Argentina e a Espanha, isto é, entre Messi, que joga contra o relógio, e Lamine Yamal, que ainda parece ter idade para pedir autorização aos pais para sair à noite, para comprar um gelado. É uma belíssima oposição dramática: o último capítulo de uma lenda contra o primeiro grande plano de outra. Mas a FIFA, convencida de que noventa minutos de futebol constituem uma perigosa ausência de entretenimento, cercou o jogo de música, celebridades e um intervalo transformado em Super Bowl. Jennifer Hudson cantará o hino americano, Robbie Williams, Laura Pausini e Nicole Scherzinger passarão pelo palco, e Cruise fará certamente aquilo que costuma fazer: aparecer como se a sobrevivência do planeta dependesse da sua pontualidade.
A escolha faz sentido. O futebol de elite e Tom Cruise falam a mesma língua. Ambos vivem de velocidade, risco, repetição obsessiva e homens milionários convencidos de que as leis da física foram escritas para os outros. Cruise corre há quarenta anos com a intensidade de um lateral-direito aos 92 minutos. Não corre como um actor: corre como alguém que deixou o forno ligado em casa, o apocalipse começou na cozinha e a única chave está no bolso de um vilão russo. Num Mundial de calor, bilhetes caríssimos e pausas publicitárias, ele é convidado, metáfora e departamento de efeitos especiais. Nos Jogos Olímpicos de Paris, desceu do tecto do estádio, saiu de mota e acabou a saltar de um avião. Um homem normal teria ficado satisfeito com um lugar na tribuna e uma sanduíche.
Há, porém, outra razão para esta aparição estar tão bem cronometrada. Cruise prepara-se para apresentar ao mundo um novo corpo, uma nova cara e uma coisa que Hollywood quase se esqueceu de lhe pedir: uma personagem. Em Digger, o novo filme de Alejandro González Iñárritu, surge como Digger Rockwell, barão do petróleo, homem poderosíssimo, grisalho, barrigudo, de cabelo penteado sobre a derrota e sotaque sulista suficientemente espesso para barrar uma auto-estrada. A sua empresa terá desencadeado uma catástrofe ecológica capaz de conduzir o mundo à guerra nuclear, e ele lança-se numa missão frenética para provar que é o salvador da humanidade antes que a humanidade descubra quem começou o incêndio. É um magnata que destrói o planeta e depois se candidata ao cargo de bombeiro. Uma fantasia, evidentemente. Nada que reconheçamos na vida pública contemporânea.
O trailer mostra um Cruise quase irreconhecível, escondido sob maquilhagem, próteses, dentes falsos, barriga, entradas e uma vaidade colossal. O homem que passou décadas a conservar o rosto como património mundial da bilheteira aceita finalmente parecer alguém que pode ficar sem fôlego a subir dois lanços de escadas. Durante anos, foi a sua própria marca de alta precisão: cabelo impecável, maxilar funcional, camisa justa, avião disponível. Mesmo quando a personagem tinha nome, profissão e traumas, acabava por se tornar Tom Cruise a resolver uma crise com os dentes cerrados. Digger parece fazer o contrário: engole a estrela e devolve-nos um monstro cómico, ridículo, perigoso e talvez desesperado.
Iñárritu teve a ideia depois de The Revenant: O Renascido e passou uma década à procura da forma certa de a contar. Descreve o filme como absurdo, perigoso e cómico, porque a grande comédia nasce da tragédia; Cruise garante que nunca tinha sido desafiado desta maneira. Convém ouvi-lo com cautela: este é um homem que já se pendurou num arranha-céus, prendeu a respiração debaixo de água, pilotou helicópteros e se amarrou ao exterior de um avião. Quando diz que uma comédia satírica foi mais difícil, talvez tenha descoberto o verdadeiro medo de qualquer estrela de acção: ficar quieta e representar.
Rodado em VistaVision, Digger junta John Goodman, Riz Ahmed, Jesse Plemons, Sandra Hüller, Sophie Wilde e Michael Stuhlbarg. Goodman interpreta um presidente americano debilitado, demasiado disponível para lançar mísseis e com tendência para adormecer nos piores momentos. Digger ocupa-se ainda de um gato doente, porque até os homens que ameaçam a civilização precisam de uma criatura inocente para provar que têm coração. É Dr. Estranhoamor (Dr. Strangelove) atravessado pelo capitalismo fóssil, pela masculinidade em decomposição e por um felino que provavelmente tem melhor juízo do que todos os humanos do filme.
A transformação já cheira a Óscar. A Academia sempre teve uma fraqueza comovente por actores bonitos que permitem que lhes colem um nariz, uma papada ou vinte anos de infelicidade na cara. Cruise foi nomeado por Nascido a 4 de Julho, Jerry Maguire e Magnolia, além da nomeação como produtor de Top Gun: Maverick, mas nunca ganhou uma estatueta competitiva. Talvez o truque fosse simples: para receber o Óscar, tinha primeiro de deixar de parecer Tom Cruise. Em Hollywood, o sofrimento conta, mas a prótese ajuda a contá-lo.
E assim chegamos a domingo: Argentina e Espanha disputarão o mundo, Messi tentará vencer o tempo, Yamal tentará antecipá-lo e Tom Cruise estará algures nas imediações, provavelmente a perguntar onde fica a saída de emergência e se pode atravessá-la de mota. A sua presença é promoção, claro, mas também uma síntese perfeita da época: o futebol quer ser cinema, o cinema quer ser evento, as cerimónias querem ser filmes de acção e as estrelas já não entram em campo, são lançadas.
Talvez Cruise apareça durante alguns segundos, sorria para a câmara e desapareça sem partir um único osso, o que seria a maior reviravolta da noite. Mas não apostaria nisso. Tom Cruise não vai simplesmente à bola. Vai à bola como quem vai salvar a bola, o estádio, a transmissão televisiva, a indústria cinematográfica e, já agora, o planeta que Digger Rockwell quase destruiu. Resta saber se, no fim, levantará a Taça do Mundo, uma pá ou finalmente o Óscar.



