Nasceu em Beirute, mas começou a fazer filmes na Suécia. Conhecemo-lo por exemplo em «00:30 – A Hora Negra». Amigo pessoal do realizador Tarik Saleh, um egípcio exilado na Suécia, termina com «As Águias da República» a chamada Trilogia do Cairo, que inclui também «The Nilo Hilton Conspiracy» e «A Conspiração do Nilo». No filme, Fares Fares interpreta a personagem de George Fahmy, o ator egípcio mais popular que, no entanto, cai em desgraça face às autoridades do seu país.
Se olharmos para o filme, para a sua personagem, e para si enquanto artista, onde está o momento em que uma vítima se transforma num colaborador?
Fares Fares: Talvez involuntariamente. É assim que eu vejo a personagem, a começar a carreira com aquela ideia de «sou intocável, ninguém me consegue atingir». Depois, lentamente, lentamente, lentamente… E isso começa ainda antes de ele perceber que está preso dentro do sistema. E no final do filme torna-se apenas uma casca vazia, um homem que perdeu a alma, porque já não lhe resta nada para proteger. Perde tudo. Já tinha perdido a família e as pessoas à sua volta, e agora perde também aquilo que mais estimava: a sua arte, o seu ofício.
Mas ele também é alguém que, apesar de ser uma grande estrela, mantém contacto com as pessoas comuns.
Fares Fares: Exatamente. Isso era muito importante. Quando li o argumento pela primeira vez, disse ao Tarik: “«Esta personagem é muito interessante, mas também muito difícil. Temos de o acompanhar durante todo o filme.» Mas ele mente às pessoas mais próximas. E não tem uma boa relação com o filho. Então a questão era: como fazemos para que o público goste dele? A solução foi mostrar que, de certa forma, ele continua a ser um homem decente. É simpático com os vizinhos, com as pessoas da rua. Isso tornava-o mais humano e mais credível. Também era muito importante que fosse alguém que realmente protege a sua arte. Caso contrário, o público não sentiria tanta empatia por ele.

Quão diferente é para si interpretar um ator?
Fares Fares: Queria fazer do George aquele tipo de estrela clássica do cinema. Baseei o visual e o comportamento dele em figuras como Marcello Mastroianni ou Alain Delon, homens intocáveis.
Há também aquela ideia de ele ser chamado «o faraó do ecrã». É uma figura quase mítica.
Fares Fares: Sim, eu também sou ator, mas não tenho aquela postura de estrela inacessível. Por isso, para mim, foi divertido interpretar esse tipo de figura.
Esta é mais uma colaboração com Tarik. Como se conheceram e como evoluiu essa relação ao longo dos anos?
Fares Fares: Conhecemo-nos porque ele foi assistir a uma peça em que eu participava. Ele tinha feito um documentário sobre o mesmo tema da peça, sobre o campo de detenção de Guantánamo Bay. Na peça, eu interpretava o irmão de um homem preso e enviado para Guantánamo, e tentava libertá-lo. Foi assim que nos conhecemos. Seis meses mais tarde, eu estava em Los Angeles, fui ao cinema e vi o Tarik. Ficámos os dois surpreendidos. Convidei-o para passar o Natal connosco duas semanas depois e, a partir daí, tornámo-nos melhores amigos. Hoje é realmente o meu melhor amigo.
E em termos profissionais?
Fares Fares: A nossa colaboração começou quando fui a casa dele e vi várias fotografias penduradas na parede. Ele disse-me: «Este é o meu próximo filme e tu tens de entrar nele.» E eu respondi: «Vamos a isso.» Desde então, comecei sempre a envolver-me muito cedo nos projetos dele. Este filme, por exemplo, começou quando estávamos em Cannes com «A Conspiração do Cairo». Jantámos no dia seguinte e ele contou-me apenas uma cena: aquela em que estou cheio de próteses. Comecei logo a rir. Três meses depois, já tinha escrito a primeira versão do argumento.
Até que ponto ajuda fazer filmes com o seu melhor amigo?
Fares Fares: Na verdade, acabamos sempre por nos tornar muito próximos das pessoas com quem fazemos filmes. A melhor parte de sermos melhores amigos não é propriamente a rodagem. É o antes e o depois. E também o facto de podermos simplesmente estar juntos. Normalmente, depois das filmagens, gosto mais de me isolar. Não sou muito social. Mas com o Tarik é muito confortável. Vamos sempre almoçar juntos, passamos muito tempo juntos. E isso é a melhor parte. Agora ambos temos família e filhos, por isso naturalmente já não temos tanto tempo livre. Fazer filmes juntos tornou-se também uma forma de continuarmos próximos.
Depois de «A Conspiração do Cairo», o que queria explorar neste filme? E como se relaciona com a trilogia?
Fares Fares: Há uma linha comum entre os filmes: seguimos sempre uma personagem que perde gradualmente o controlo sobre si própria e sobre o mundo à sua volta. No primeiro filme, era o Nuruddin, a personagem que interpretei. No segundo, era o rapaz. E neste é o George Fahmy. Esse é o fio condutor.
E o que queria explorar aqui de forma diferente?
Fares Fares: O mais importante era retratar o mundo do cinema egípcio. Antes de a minha família se mudar para a Suécia, vivíamos no Líbano. Cresci rodeado pelo cinema egípcio e por todas aquelas estrelas. Portanto, há muito amor por esse cinema e por aquelas figuras. Para mim, isso era o essencial.
E crescendo na Suécia e no Líbano, o que significava para si o cinema egípcio?
Fares Fares: Assim que chegámos à Suécia, toda a cultura do Médio Oriente praticamente desapareceu da minha vida. Durante uns dois anos perdi completamente essa ligação porque me adaptei totalmente ao novo país. Hoje sinto-me 100% sueco, na forma de pensar, de agir, na mentalidade. O sueco é a minha língua mais forte, depois o inglês, depois o árabe e talvez o dinamarquês. Por isso, o cinema egípcio representa sobretudo a minha infância. E confesso que hoje já não acompanho muito. Estou preso àquele velho modelo de estrela de cinema. Mas o cinema egípcio foi, e talvez ainda seja, a Hollywood do Médio Oriente.
Sente pena que tenha sido substituído por novelas turcas, como dizem no filme?
Fares Fares: (Risos) Sim. Quer dizer, eu não as vejo, mas quando vou visitar os meus pais, às vezes estão a passar em fundo.

O Tarik não vive no Cairo há dez anos. E no seu caso? Voltou ao Líbano depois da infância? E o que sente em relação à situação atual?
Fares Fares: Só quero paz no mundo inteiro. Precisamos disso para podermos viver em paz connosco próprios. Voltei ao Líbano apenas uma vez, em 2006. E aconteceu precisamente durante a guerra. No próprio dia em que aterrei começou um mês inteiro de conflito. Passei a semana toda a tentar fugir do país outra vez. Desde então… não sei. Quero simplesmente paz total. Só assim conseguirei voltar algum dia. Esperemos que os seres humanos ganhem algum bom senso.
É otimista, como a personagem do filme?
Fares Fares: Sou otimista, sim. Temos de ser. Tenho filhos pequenos. Eles é que nos vão salvar.
Este filme aborda propaganda e censura na arte. Que reflexão faz sobre o papel dos atores, dos realizadores e dos artistas em sociedades governadas por regimes autoritários?
Fares Fares: Essa é uma questão importante. E acho que os próprios egípcios poderiam responder melhor do que eu. Mesmo assim, eles continuam a fazer filmes, continuam a proteger a sua arte. Claro que têm de ter mais cuidado. Mas hoje as pessoas também são presas nas ruas dos Estados Unidos praticamente sem razão nenhuma. Qual é então a diferença entre essas pessoas e o filho do meu vizinho que é preso no filme? Mesmo sendo otimista, vejo o mundo inteiro, a Europa incluída, a deslocar-se cada vez mais para governos de direita. E são precisamente esses governos que controlam os financiamentos públicos de que dependemos para fazer cinema. Por isso, quem sabe que tipo de filmes nos pedirão para fazer no futuro?




