Quatro anos depois de vencer o prémio de Melhor Realização da secção Un Certain Regard no festival de cinema de Cannes, a primeira longa-metragem do romeno Alexandru Belc chega finalmente às salas de cinema portuguesas. Movido pela resistência própria da juventude, «Rádio Metronom» abre-se à experiência crescentemente claustrofóbica de testemunhar o condenar de uma qualquer ideia de crescimento sob a ditadura política de Nicolae Ceaușescu em 1972. E vive entre o idealismo de um beijo apaixonado numa praça citadina e o terror de um interrogatório a portas fechadas com um virulento agente da Securitate, a polícia secreta romena.
Aterramos em Bucareste pelo olhar de Ana (Mara Bugarin), a destroçada jovem de 17 anos que está a tentar lidar com a partida iminente do namorado Sorin (Serban Lazarovici) para a Alemanha com a família. É assim que Belc nos agarra e engana. Esta não será uma história de amor tanto quanto um acordar para a duplicidade humana que a alienação de Ana, tão bem encorpada pela jovem actriz, não deixa exactificar. A paleta de cores monótonas e dessaturadas, os mesmos apagados cinzentos, beges e castanhos, figuram essa mesma desorientação. Mas este estado nebuloso não se dá à mesma crueza da nova onda do cinema romeno. O filme provar-se-á inconstante, frequentemente caindo na sua própria exaustão emocional, mas isso não invalida o seu realismo confiante, a tocar num registo mais documental do que o esperado.
Em direcção ao gesto que calibrará a percepção e resultará na perda da inocência de Ana, «Rádio Metronom» apoia-se numa estrutura que se faz fechando sobre si mesma, deitando o filme ora no habitável ora no inabitável através de composições cuidadas, mas não excessivamente meticulosas. Ao som da dissidência ocidental de Jim Morrison e dos The Doors, Janis Joplin e Jimi Hendrix, que Ana e os seus amigos ouvem pelo programa de rádio pirata Metronom na Radio Free Europe, as personagens imaginam novas formas de viver no mundo. Quando Ana é levada para ser interrogada, é tão clara a sua paralisação. Nunca ela teria imaginado que aqueles homens teriam controlo e poder sobre a esfera mais íntima da sua vida, dos seus estudos à sua relação com os outros.
Assim sendo, o conceito de liberdade enquanto purga existencial, tal como é experienciado em casa da amiga, com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra, e os sonhos a brotar enquanto se canta, pedindo, “Come on Baby, Light My Fire”, prova-se impossível. Ao colocar o filme no contexto opressivo que justifica e dialoga com aquele silêncio aterrador que de Ana sentimos desde o início, dá-se o encaixe necessário para «Rádio Metronom» conseguir regressar àquela mesma praça na cidade, e nesse lugar de partida deixar claro que, tal como Ana, Alexandru Belc consegue vislumbrar o futuro. Este é só o início.
TÍTULO NACIONAL: Rádio Metronom
TÍTULO ORIGINAL: Metronom
REALIZAÇÃO: Alexandru Belc
ELENCO: Mara Bugarin, Serban Lazarovici, Vlad Ivanov
ORIGEM: Alemanha
DURAÇÃO: 102 min.
ANO: 2022



