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L’Aventura

Em «L’Aventura», fala-se de férias, família e outras formas de perder a paciência. A realizadora francesa Sophie Letourneur transforma uma viagem pela Sardenha num pequeno tratado cómico sobre a vida familiar, a memória e essa mentira colectiva chamada “descanso de Verão”.

As férias são uma invenção maravilhosa até começarem. Antes, parecem uma promessa: sol, mar, comida boa, tempo livre, fotografias para recordar e aquele optimismo perigoso de quem acredita que uma família fechada num carro alugado pode transformar-se numa experiência espiritual. Depois vem a realidade: malas, calor, fome, sono, birras e adultos a tentar manter a compostura com a dignidade de um gelado a derreter.

«L’Aventura», de Sophie Letourneur, é sobre esse instante em que o postal turístico revela a legenda escondida: cuidado, isto afinal é a vida. Sophie, interpretada pela própria realizadora, viaja pela Sardenha com Jean-Phi, vivido por Philippe Katerine, e com duas crianças. Claudine, quase adolescente, grava tudo no telemóvel como uma pequena historiadora da catástrofe familiar. Raoul, três anos, comporta-se como se tivesse sido contratado para testar a parentalidade contemporânea. Jean-Phi tenta desaparecer sem sair do enquadramento. Sophie tenta sobreviver sem admitir que sobreviver é vitória.

Não acontece quase nada, e acontece tudo. Letourneur não procura o grande drama, a confissão ao pôr do sol, o trauma escondido ou a cena em que todos choram abraçados. Interessa-lhe outra coisa: a matéria miúda do quotidiano. A frase interrompida, a irritação antes da resposta civilizada, a criança que reclama quando o adulto ia fingir serenidade. A família, aqui, não é apenas um grupo de pessoas que se ama. É uma central de ruído, afecto, cansaço e versões contraditórias. Cada um jura que foi assim. Ninguém se lembra igual. Portanto, uma família normal.

O título convoca inevitavelmente «A Aventura», de Michelangelo Antonioni. Falta-lhe um “v”, sobra-lhe desarrumação. Antonioni filmava a alienação, o vazio e a incomunicabilidade elegante da burguesia europeia. Letourneur filma outro tipo de abismo: o da mãe exausta, do pai que se eclipsa, da filha que observa demais e do miúdo que transforma qualquer minuto numa operação de emergência. É o existencialismo em chinelos. A crise do sentido trocada pela crise do gelado. A angústia metafísica substituída por gente que comunica demasiado, demasiado alto e quase sempre ao mesmo tempo.

Há uma inteligência cómica particular neste cinema. O filme parece solto, quase improvisado, mas respira como uma partitura. As gravações de Claudine, as cenas que regressam ligeiramente diferentes, a confusão cronológica e a repetição constroem uma ideia simples: não vivemos apenas os momentos; passamos a vida a remontá-los. Contamo-los, corrigimo-los, discutimo-los e transformamo-los em memória. As férias acabam quando regressamos a casa, mas também quando já só conseguimos lembrar-nos delas inventando metade.

Sophie Letourneur tem feito da experiência vivida uma matéria cinematográfica muito própria. Em «La Vie au ranch», «Les Coquillettes», «Gaby Baby Doll», «Énorme» ou «Voyages en Italie», trabalha a partir de materiais próximos, memórias, gravações, situações íntimas ou observadas. Mas convém não cair na condescendência de chamar “espontâneo” ao que é construção, nem “autoficção” ao que, se fosse feito por um homem, talvez se chamasse método. A vida fornece a matéria-prima; o cinema dá-lhe ritmo, forma e veneno.

«L’Aventura» pode irritar quem espera uma narrativa penteada, com princípio, meio, fim e certificado de bom comportamento. Mas as férias também raramente têm dramaturgia exemplar. Têm episódios, repetições, pequenas alegrias, grandes cansaços e aquela nostalgia estranha que começa antes de a viagem terminar. No fundo, Letourneur lembra-nos uma coisa terrível e consoladora: estar juntos é cansativo. Mas, quando passa, é disso que sentimos falta.

Título Original: L’Aventura
Realização: Sophie Letourneur
Com: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet, Esteban Melero
Origem: França
Duração: 107 minutos
Ano: 2025
Género: Comédia dramática

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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