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‘Funk’ fez Tribeca balançar o pop

Rodrigo Fonseca, Crítico de Cinema

Raio-X do coração de uma Nova York pé no chão (ou seja, intelectual, mas sem muita fortuna), o perímetro de Tribeca virou uma morada obrigatória do cinema mundial há um quarto de século cravado, quando o susto provocado pelos atentados ao World Trade Center gelou a espinha do planeta e deu um ultimato de alerta para a maior metrópole do planeta. Em 2001, pouco depois da tragédia do 11 de Setembro, o ator Robert De Niro mobilizou parceiros a fim de elevar o ânimo do povo nova-iorquino com a criação de um evento cinematográfico competitivo. Pois não é que aquele festival – sempre aberto ao Brasil, vide o êxito recente de «Funk», de Aly Muritiba, que passou por lá, há poucos dias – chegou aos 25 anos, numa edição que decorre de 3 a 14 de junho. A mais famosa descoberta dessa grande festa cinematográfica norte-americana foi «Deixa-me Entrar» [«Let the Right One In»] (2008), do sueco Tomas Alfredson, uma das histórias de vampiro mais invejadas das últimas três décadas. Pela sua aposta nas expressões narrativas mais indies, as suas mostras viraram marca de invenção, tendo De Niro como mecenas.

Tribeca já acolheu e embalou excepcionais filmes brasileiros na sua história, com uma série de láureas atribuídas a «Estranho Caminho», de Guto Parente, em 2023. Antes vieram «Festa de Margarette» (2002), de Renato Falcão; «Santiago» (2007), de João Moreira Salles; «Elvis & Madona» (2010), de Marcelo Laffitte; e «Califórnia» (2015), de Marina Person. Como já foi acima assinalado, marcamos presença este ano com «Funk», o novo trabalho do realizador «Para Minha Amada Morta» (2015) e «A Fábrica» (2011), selecionado para a Competição Internacional. Fez NY balançar o funk. Duas marcas de produção de peso na América do Sul, Manoel Rangel e Heitor Dhalia, estão com o cineasta (que já foi carcereiro em presídios) nessa empreitada. Apoiada na força da natureza chamada Duda Santos, a sua dramaturgia acompanha Sabrina, uma jovem da periferia carioca, do Morro dos Prazeres, determinada a conquistar espaço no universo dos bailes de “funkeiros e funkeiras”, a enfrentar desafios sociais, familiares e profissionais enquanto tenta transformar o seu talento em ascensão artística. A sua mãe, Priscilla (MC Nem), será ao mesmo tempo aríete e âncora na sua trajetória. Numa combinação de música, sensualidade e questões de mobilidade social, a produção propõe uma leitura contemporânea da juventude urbana brasileira, a explorar as expressões musicais periféricas como instrumento de afirmação cultural e sobrevivência económica. Difícil não pensar em «8 Mile» (2002). Em vez de um Eminem febril, temos Duda, a celebrar a força feminina na luta contra o sexismo e o racismo institucional.

Assinam o argumento de «Funk» Leandro Saraiva, Taísa Machado, Fernando Barcellos e o próprio Aly, que tem em seu currículo uma pérola chamada «Jesus Kid» (2021). Parte da potência que a longa tem se deve à montagem de Karen Akerman e Paulão de Barros e à potência da direção de fotografia de Inti Briones, que parece reproduzir um baile in loco, numa mescla de musical realista e documentário. 

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