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Edgar Morin (1921 – 2026)

João Lopes, Crítico de Cinema

Edgar Morin morreu na sua cidade natal, Paris, no passado dia 29 de maio — contava 104 anos. A sua obra ensaística e filosófica, enraizada num obstinado humanismo, é demasiado vasta e complexa para tentarmos qualquer resumo “temático”. Digamos apenas que não é possível evocar Morin sem nomear o cinema como um território fulcral da sua herança.

O livro “O Cinema ou o Homem Imaginário”, cuja primeira edição surgiu em 1956, bastaria para o colocar num lugar muito especial na história crítica e antropológica do cinema — o seu subtítulo é, aliás, “Ensaio de Antropologia”. Recordemos, a propósito, que tal livro surgiu num contexto em que o território do cinema passava por convulsões eminentemente criativas motivadas pela decomposição (industrial e formal) das estruturas daquilo que tinha sido a sua “idade clássica”.

Desde logo em França, como é óbvio. Era o tempo de afirmação de uma nova geração de críticos e cineastas (Nouvelle Vague, justamente) que encontrou nos “Cahiers du Cinéma”, fundados em 1951, o seu palco universal — André Bazin, um dos fundadores dessa lendária revista, publicaria a sua obra “O Que É o Cinema?”, em quatro volumes, entre 1958 e 1962. As muitas transfigurações temáticas e formais, éticas e estéticas, que se estavam a viver apelavam a novos conceitos para lidar com as muitas experimentações que marcavam os filmes das mais diferentes geografias e culturas.

No prefácio que escreveu para a reedição do seu livro, em 1977, Morin recordava que tinha sido “inspirado pela ideia, complexa e infinita, de compreender a sociedade através do cinema, ao mesmo tempo compreendendo o cinema através da sociedade”. O que, afinal, decorria de uma evolução social que não podia deixar de envolver uma muito especial dinâmica cultural: “Sim, pertenço a uma das primeiras gerações cuja formação é inseparável do cinema.”

Um ano depois de “O Cinema ou o Homem Imaginário”, Morin publicou “Les Stars”, por certo uma das análises mais subtis que já se fizeram sobre o “star system” como modelo particular de universo mitológico. A sua contribuição para a história do cinema teria ainda uma expressão exemplar no filme Chronique d’un Été (1960), co-realizado com Jean Rouch, referência fundamental na história do documentário. Mais do que isso, essa “crónica” partilhada com amigos como Marceline Loridan e Régis Debray, traz-nos a vibração de um tempo em que o diálogo era uma componente essencial das trocas sociais, sempre na procura de um princípio de comunidade — uma comunidade feita de ideias, sustentada por afectos.

[Crónica publicada originalmente na Metropolis nº131, Junho 2026]

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