Nomeado ao Urso de Ouro da Berlinale por «Sometimes In April» (2005), Raoul Peck constrói seu cinema a partir de um fundamento ético e decolonial, entendendo a arte como necessidade política e instrumento de recuperação da História. Ele não faz cinema para se posicionar na arte como um contador de histórias. Ele filma porque as causas nas quais milita exigem. A sua noção de tempo rompe a fronteira rígida entre ontem e hoje, revelando a memória como campo de disputa de poder. As suas longas, entre as quais «Ernest Cole: Achados e Perdidos» [«Ernest Cole: Lost and Found»], de 2024, atracam no pensamento de Michel Foucault ao expor como dispositivos de comunicação que operam como mecanismos de vigilância e controlo. Essa lógica já estava presente em «I Am Not Your Negro» (nomeado ao Oscar em 2017), no qual mapeou o racismo a partir da obra de James Baldwin (1924-1987). Ela se faz ainda mais forte em «Orwell: 2+2=5», lançado no Festival de Cannes em 2025. Peck se volta para a literatura a fim de desmontar os sistemas de manipulação da verdade.

O filme não é uma biografia tradicional, mas um diálogo crítico com George Orwell (1903-1950) mediado pelo romance “Nineteen Eighty-Four” (1949), numa extrapolação das suas páginas. Uma série de releituras dessa trama se espalha na atualidade por diferentes campos de criação.

Numa fricção com essa prosa, Orwell utiliza arquivos, infográficos e cenas de filmes para analisar a construção do mito do “Grande Irmão”.


Num espelho da manipulação mediática de “1984”, os documentários hoje passam por uma nova cilada com o streaming. É verdade que a demanda pelo formato documental aumentou, mas as plataformas impõem um processo de seleção que se pauta por critérios comerciais. Peck tentou fugir de demandas prévias, radicalizando a sua forma de narrar a partir de um veio investigativo, no qual relaciona a distopia orwelliana às estratégias contemporâneas dos media e do capital.

A leitura é atravessada por reflexões de teóricos como Stuart Hall sobre o colonialismo, o racismo e a representação. A partir de Hall, ele captura o colapso das metanarrativas no pós-guerra e o quanto essa clivagem simbólica abriu espaço para lutas identitárias políticas de emancipação. Para isso, o cineasta mostra como a Europa instaurou hierarquias que depois foram reproduzidas e ampliadas pelos EUA.

Para defender seus argumentos, «Orwell: 2+2=5» recorre a versões cinematográficas de “1984” filmadas por Michael Anderson (1920-2018) e Michael Redford, de modo a entender como a ideia do “Grande Irmão” (personagem que encarna o olhar do Sistema) transformou-se em mito, de forma a encobrir os processos de exploração. A montagem frenética (e autocrítica) feita por Alexandra Strauss assegura um dinamismo ímpar à viagem filosófica de Peck.

Título original: Orwell: 2+2=5 Realização: Raoul Peck  Duração: 119 min. França/EUA, 2025

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