Mai Saad está a escrever um livro. Ela garante que o seu miolo não tem conexão com a epifania empática que testemunhou (e registrou) nas localizações cercadas de perigos de «One More Show». Este foi o primeiro dos 14 concorrentes à Pirâmide de Ouro do Festival do Cairo a ser exibido no Egito, em 2025. Ela é prata da casa. É egípcia e fez carreira como assistente de direção. Rodou a produção escalada para competir no seu país numa parceria com Ahmed Al Danaf, cineasta e diretor de fotografia de Gaza, cuja curta-metragem «School Day» ganhou o Prémio Youssef Chahine ali mesmo, no Cairo International Film Festival, em 2024. Ao lado dele, a realizadora criou um estudo comovente sobre os aspectos analgésicos da arte em tempos de guerra.
  
«One More Show» se passa em meio da devastação e ao genocídio perpetrado por Israel em Gaza, onde um grupo de artistas circenses se recusa a deixar o desespero tomar conta do palco. Vemos a trupe The Free Gaza — formada por Youssef, Batout, Ismail, Mohamed e Just — depois de serem deslocados de um extremo norte para o sul da cidade, enquanto transformam sua arte num ato de resistência, resiliência e esperança. Com a morte pairando em seu redor, a trupe apresenta-se para crianças em abrigos e nas ruas, a oferecer momentos de alegria a quem batalha para escapar da brutalidade.
Na conversa a seguir, Saad explica à METROPOLIS o que vivenciou.

Existe um título de Hollywood, «O Maior Espetáculo da Terra», de 1952, que associou o circo a uma ideia de grandiosidade e de espetáculo. Ideia essa que o seu filme, mesmo com baixíssimo orçamento, confirma… por vias éticas. De que maneira esse senso do “espetacular” aplica-se ao universo circense da trupe The Free Gaza?
Mai Saad: 
Essa noção de espetáculo se faz notar no valor que eles têm, ao trabalharem com quase nada para fazerem o que fazem. Eu não me preocupo se consideram o nosso filme mau ou bom, nem me importo com a honra da presença dele em festivais. O que conta é ver os artistas desse grupo que filmamos aparecerem online, para as pessoas conhecerem o que eles fazem. O apoio de que eles precisam não é necessariamente dinheiro, é visibilidade.

Você tem um interesse pessoal nestes artistas do circo, os palhaços. O que aprendeu com eles sobre essa arte?
Mai Saad: 
Aprendi que não sou muito boa nisso.

Como se deu a sua aproximação com o universo de Gaza?
Mai Saad: 
Eu já havia estado na Palestina antes, duas vezes. Uma vez, fui para uma excursão com um grande grupo, apenas por uma madrugada, e, na outra vez, estive numa feira literária. O caso é que, como milhões de pessoas, eu acompanho o genocídio pela TV e, a certo ponto, eu pensei: “Preciso fazer alguma coisa”. Por uma fonte no Jornalismo, eu descobri o contacto móvel da trupe, mandei uma mensagem. Eles viram uma foto minha com um nariz de palhaço e perguntaram-me o que eu fazia com ele. Disse que tenho muito interesse por essa arte e falei que queria experimentar esse trabalho. A resposta deles: “Você é uma de nós”.

A captação de som de «One More Show» é impressionante. Como vocês estruturam o design sonoro da longa-metragem?
Mai Saad: 
Tudo o que tínhamos era um único microfone, e nos viramos com ele. Na edição, o nosso design de som propôs que usássemos vozes diferentes, da cidade. Por sorte, o pessoal do The Free Gaza tinha registros em vídeo e registros de som.

Qual é o papel simbólico de um palhaço de circo em Gaza, hoje?
Mai Saad: 
Émostrar que o mundo é mais do que o ruído de drones e de aviões e de tiros. O papel do palhaço é estimular a imaginação.   

Mai Saad

Foto: Rodrigo Fonseca

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