Ficou agendada para segunda-feira uma segunda sessão de «Franz Antes De Kafka» (“Franz”) na 46ª edição do Cairo International Film Festival à boleia da calorosa recepção que a primeira projeção do novo filme da artesã autoral polaca Agnieszka Holland recebeu em telas egípcias neste domingo. Aos 76 anos, a diretora de «Eclipse de uma Paixão» (1995), com o jovem Leonardo DiCaprio no papel do poeta Rimbaud, renova o seu prestígio com uma cinebiografia de outro mito das letras, Franz Kafka (1883-1924), ao mesmo tempo em que se espalha pelas plataformas de streaming no Brasil. Concebido como um mosaico caleidoscópico, a longa-metragem tem tudo para levá-la ao Óscar – a julgar pelas críticas elogiosas recebidas em terras canadianas – no TIFF – e espanholas – depois de ter concorrido à Concha de Ouro de San Sebastián. O guião acompanha a marca que o autor de “A Metamorfose” deixou no mundo, desde seu nascimento na Praga do século XIX até à sua morte na Viena pós-Primeira Guerra Mundial.
“Quando adolescente, eu era mais intelectualizada do que sou hoje e li Kafka quando tinha uns 14, mas eu percebo que ele vem e volta, mostrando-se mais atual do que nunca em meio às trevas que se espalham pelo mundo hoje”, afirmou Agnieszka à revista METROPOLIS, em San Sebastián. “Quem tem dor não pensa em política, mas esta pensa naqueles que fazem doer.”

A proporção entre as palavras escritas por Kafka e as narrativas publicadas sobre ele é (atualmente) estimada em um para 10 milhões. Nascido em Praga, no fim do século XIX, numa família judia checa de classe média (que falava alemão e iídiche), Kafka escreveu romances e contos ao longo de seus 40 anos. “O Castelo” (1926) e “O Processo” (que completa 100 anos em 2025) estão entre os seus exercícios criativos de maior relevância. O que a cineasta tenta realizar, ao revisitar a escrita dele, é reproduzir a Europa que gerou um escritor daquela envergadura literária, contando com o talento do ator Idan Weiss no papel central.
“Não queria que alguém se parecesse com Kafka, mas, sim, alguém que captasse seu espírito”, diz Agnieszka à METROPOLIS.
É da natureza da sua filmografia promover a autopsia em corpo vivo do continente em que nasceu. Embora evoque o cinema dos anos 1950, com um classicismo um tanto incompatível com a agilidade das narrativas destes tempos de streaming, «A Sombra de Stalin» («Mr. Jones», 2019), um dos maiores sucessos recentes da artista, registra sua inquietação geopolítica. Lançado no Velho Mundo, a meio da pandemia, como um libelo de resiliência, o filme foi indicado ao Urso de Ouro de Berlim, mas demorou a estrear. A sua trama faz uma visita a um império do efêmero ideológico (disfarçado de utopia política), a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1991), registrada nos cliques e nas palavras do jornalista galês Gareth Richard Vaughan Jones (1905-1935).

Plataformas como a Prime Video e a Filmin.PT preservam os seus filmes, como «Zona de Exclusão» e «Charlatão», um drama sobre os abusos da Guerra Fria. “Existe uma dimensão de impunidade nos governos totalitários do passado, assim como nos de agora, que precisa ser revelada e escancarada. Eu regi numa Europa que institucionalizou o silêncio como legado de um sonho. É hora de falarmos”, disse a cineasta, que saiu de Berlim, em 2017, com o troféu especial dado a narrativas capazes de desbravar fronteiras da linguagem audiovisual por «Rastros» («Pokot»). “O medo encontra na negligência e na omissão dois parceiros fiéis.”
O Festival do Cairo segue até o dia 21, quando o júri presidido por Nuri Bilge Ceylan dá o veredicto dos concorrentes. Em paralelo, o Cine Ópera, centro nervoso do evento, exibe o badalado «The Voice of Hindi Rajab», da tunisiana Kaouther Ben Hania.

