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O Professor de Inglês

Todos os críticos têm as suas fraquezas e limitações. No meu caso, não posso ver filmes com animais que, inevitavelmente, sei que me vão deixar em pranto. Não vou dizer se «O Professor de Inglês» confirmou a regra — prefiro não revelar demasiado — mas posso dizer que o filme me deixou dividida, não pela emoção, mas pelas escolhas narrativas que faz.

Baseado no livro de Tom Michell, o filme conta a história verídica do professor britânico que, enquanto dava aulas num colégio privado na Argentina dos anos 70, resgata um pinguim encharcado em petróleo e cria com ele uma relação improvável. Steve Coogan encarna este homem solitário com a sua habitual atitude blasé, entre a excentricidade e uma verdadeira ternura contida. E o pinguim é, evidentemente, irresistível.

O problema surge quando o filme tenta jogar em duas frentes: a violenta ditadura argentina dos anos 70 e a história íntima de um homem que encontra num pinguim uma espécie de âncora emocional. Como escreveu Peter Bradshaw, no The Guardian, «O Professor de Inglês» teria sido bem mais interessante se fosse só sobre um homem solitário e um pinguim — sem a referência à ditadura — ou só sobre esse mesmo homem e o peso histórico da repressão militar — sem o pinguim. A combinação, tal como está, é bastante desajustada.

Sempre que o filme se concentra no quotidiano improvável da dupla — os gestos pequenos, as rotinas, o humor discreto na sala de aula — há uma empatia real que o torna comovente. Mas quando tenta explorar essa relação ligando-a ao contexto político, as transições parecem forçadas, como se o filme temesse ser “pequeno demais” e precisasse de um grande tema para justificar a sua existência. O resultado é uma narrativa que perde foco, saltando entre intimismo e alegoria sem criar uma verdadeira ligação entre as personagens. Talvez o filme que realmente queríamos ver pudesse ser mais singelo, mais contido, mais seguro de que, às vezes, uma boa história não precisa de carregar o peso do mundo para ser grande.

Título Nacional: O Professor de Inglês Título Original: The Penguin Lessons Realização: Peter Cattaneo Actores: Steve Coogan, Jonathan Pryce, Bruno Blas Duração: 111 min. Ano: 2024 Origem: UK, Espanha

Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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