Na alvorada do novo milénio, a minha amiga e interlocutora na área do cinema e da distribuição audiovisual ao longo de muitos e bons anos, a mais portuguesa das canadianas que conheço, a empresária e artista plástica Renée Gagnon, sabendo que eu ia passar uns dias no país que a viu nascer, com a missão de participar e fazer a cobertura mediática de dois festivais de seguida, o Festival des Films du Monde (Montreal) e o Toronto International Film Festival, lembrou-se de me pedir (para alguém que já não me recordo) que lhe comprasse um CD, na altura acabado de lançar, intitulado “The Teaches of Peaches”. Já no Canadá, lá subi a Rue Sainte-Catherine até encontrar a esquina onde na época se situava a entrada de um poiso certo dos amantes de música e das novidades acabadinhas de sair para o mercado, o mítico e saudoso “Sam, The Record Man”. E este que vos escreve e que lá deixou muitos dólares, mas que era conhecido por comprar sobretudo no andar reservado ao jazz, blues, folk e música clássica, sem descurar outras vertentes musicais de gente como Bruce Springsteen, Lou Reed, Joni Mitchell, Laurie Anderson e muitos outros, de repente estava a comprar um álbum de uma fulana meia louca, segundo me disseram uma crazy bitch, cuja fama não vinha de longe mas começava a afirmar-se a partir de performances plenas de vigor e de provocação. Todavia, porque ouvi o que havia para ouvir da dita Peaches (Merrill Nisker para os mais íntimos), não digo que estivesse nos antípodas, mas estava algo afastado do ambiente sonoro que me levaria a gastar dinheiro num projecto musical, no caso relativamente marado e muito, mas mesmo muito ruidoso.
Mas sabem como as coisas são, quando se começa a ouvir e não se rejeita imediatamente, um dia damos por nós a inserir de memória um sem número de referências no caderno ou nas listas das matérias e das pessoas que nos merecem alguma atenção, nem que seja para realizar um saudável exercício de análise retrospectiva a partir dos ecos que ficaram no passado e realizar a sua recuperação num processo de pesquisa necessária e suficiente para saber mais sobre a vida e obra, no caso presente, de uma figura do meio musical que, melhor ou pior, se destacou no arco alternativo, procurando na medida dos nossos gostos e disponibilidade compreender as suas reais ou até surreais motivações. Não, não pensem que fiquei fã da senhora, nem comprei mais nenhum disco dela para mim ou para quem quer que fosse.

Todavia, quando a produtora e distribuidora Zero em Comportamento anunciou a estreia em Portugal do documentário «Teaches of Peaches» («As Lições da Peaches»), 2024, de Philipp Fussenegger e Judy Landkammer, essa notícia despertou em mim uma súbita vontade de o visionar para saber o que a canadiana electro-punker com nome de guerra Peaches andaria a fazer nos dias de hoje, e se mantinha passados alguns anos a sua lendária irreverência. A minha curiosidade acabou por ser premiada com a visão de uma obra segura e que, sem querer ser exaustiva, recorda as origens da compositora e cantora, fazendo dela o retrato que aqui e agora se pode fazer de alguém com uma marca existencial deveras complexa e controversa. Fala ainda da génese do referido álbum homónimo durante a pretérita passagem de Peaches pelos dias e noites loucas de Berlim, cidade onde viveu e aparentemente continua a encontrar um confortável espaço de eleição.
Rodado em 2022 durante a digressão “The Teaches of Peaches Anniversary Tour”, o filme usa materiais gravados dos seus diversos shows, autênticos happenings onde os fantasmas se libertam e os desafios da sua equipa de colaboradores são levados ao limite num permanente remoinho de sexo e música face a um público que a segue religiosamente, num contexto mais do que profano. Turbilhão que se manifesta de igual modo face a eles próprios, os performers de danças, acrobacias e os músicos, na sua constante interacção no palco. Tudo encenado para que o ritmo cardíaco não desacelere e onde frases como “não se pode ir por aí” não fazem parte do léxico das opções criativas. Entretanto, nos bastidores somos convidados a partilhar uma intimidade que muitas vezes parece construída, mas outras parece bem sincera. Essa componente mais calma e até relativamente estranha, por contraste com a vertigem dos espectáculos, permite-nos de facto avaliar melhor as qualidades do grupo no quadro da(s) pessoa(s) em si, assim como no campo do activismo feminista onde sobressai a exposição das ideias da leader com o propósito de destruir os estereótipos do patriarcado e das estruturas de poder que o sistema alegadamente representa e defende.

Para quem siga agendas LGBTQIA+, a produtora de espectáculos Peaches, nas suas diversas personas, seguramente revelou desde cedo uma figura cuja identidade sexual ajudou a criar consensos, por muito bizarras que sejam as suas objectivas estratégias de comportamento e o quadro subjectivo do seu perfil ideológico. No fundo, soube construir “plataformas de sustentação” em que se apoia para continuar a dar o máximo, mesmo com um corpo que já não é o de uma rapariga jovem, atraindo para si, qual força magnética, multidões que olham para ela como uma diva intemporal, numa relação cúmplice que Peaches não dispensa na sua arte de gerar, consolidar e organizar o caos. Na prática, o que a faz estar um passo adiantada em relação ao conformismo de outras vozes rebeldes que se deixaram seduzir pelo mero conforto material do sucesso.
Curiosamente, no mesmo ano em que o documentário “The Teaches of Peaches” foi lançado, surgiu um outro, “Peaches Goes Bananas”, 2024, de Marie Losier, que se encontra disponível nos canais TV Cine. Porque um não anula o outro, antes pelo contrário (são projectos relativamente distintos, mas complementares no desenhar do retrato de uma estrela consolidada da electroclash, synthcore, retro-electro, tech-pop, nouveau disco e new new wave), aqui vos deixo a proposta de não perderem nenhum. Mesmo que não sejam fãs, como eu não sou, vejam-nos para se darem conta de como a unidade entre o rosto e o corpo de uma mulher e artista que não esconde o envelhecimento e assume a menopausa não resulta senão da emanação do que lhe vai na alma, sublinhando a expressão verdadeira dos sentimentos mais secretos, incluindo os que ficam por revelar.
Por fim, dou voz aos realizadores de “The Teaches of Peaches” a propósito dos pressupostos do seu documentário: “O nosso maior desafio foi criar algo que não fosse nem um clássico filme de digressão nem uma biografia convencional, mas antes uma narrativa paralela onde a história e o desenvolvimento de Peaches fossem claramente explorados, sem cair no saudosismo e mantendo, ao mesmo tempo, um olhar sobre o seu presente e o seu futuro”.
Título original: Teaches of Peaches Realização: Philipp Fussenegger, Judy Landkammer Documentário Duração: 102 min. Alemanha, 2024

