Muitas podem ser as perspectivas de leitura relativas a um filme, ou melhor, a um projecto previsto até ao momento para albergar cinco partes das quais as primeiras foram já estreadas, a saber, «Avatar», 2009, «Avatar: The Way of the Water» («Avatar: O Caminho da Água»), 2022, e «Avatar: Fire and Ash» («Avatar: Fogo e Cinzas»), 2025, qualquer delas assinadas por James Cameron. Todas estão intrinsecamente ligadas entre si por uma componente visual e sonora que excede os parâmetros habituais de produção relativos a épicos que cruzam o fantástico com a ficção científica. Todas estão inseridas e, por vezes, literalmente mergulhadas numa atmosfera de parábola sobre mundos paralelos que se digladiam por razões de natureza plutocrática e existencial, salientando-se o valor das riquezas a partir da exploração e da conquista a qualquer custo dos recursos naturais de um espaço que, no melhor dos cenários, lembra as geografias habitadas pelos povos para quem os recifes de coral do Oceano Pacífico fazem parte do quotidiano, um mundo chamado Pandora. Riquezas, sejam elas quais forem, que a ganância dos homens e outros seres, incluindo avatares, cobiçam para o pior e quase nunca para o melhor.
Naturalmente, se as coisas corressem de feição para o domínio das boas intenções, lá se ia a aventura por água abaixo, lá se comprometia a dinâmica dos conflitos dramáticos necessários para manter as receitas de bilheteira e ainda o interesse do espectador pela continuidade ficcional destas sagas de mundos imaginários e de múltiplas histórias inventadas que só sobressaem de forma exuberante num grande, mas mesmo muito grande ecrã perto de si. E quem não for a um IMAX nem sabe o que está a perder. Resta saber como interpreta estas palavras o público, por exemplo, de Bragança e de muitas localidades afastadas da oferta que os grandes centros urbanos proporcionam, mesmo num clima dito de crise. Estarei sempre solidário com o vernáculo que alto e bom som possam enunciar…!

Dito isto, neste novo capítulo regressamos aos mil e um espaços de Pandora, mas somos agora introduzidos a uma parcela específica desse universo que se perfila mais sombria e onde a luz se projecta filtrada através das chamas e do fogo que o “Povo das Cinzas” aprendeu a dominar. Lugar que contrasta com o pseudo paraíso dos Na’vi. Por entre as labaredas vive esse povo agreste com ar de poucos amigos, liderado por uma muito vulcânica guerreira, Varang (Oona Chaplin) que, por ser aguerrida e por vezes má como as cobras, constitui a personagem com maior poder de sedução (não por acaso ocupa um lugar central na iconografia oficial do filme, nomeadamente no cartaz). Não obstante a sua atitude belicosa ser a de uma lutadora arrogante e impiedosa, quando quer a sua personalidade nunca excede os limites do que se pode considerar a atitude razoável e credível de uma estratega e de uma manipuladora de imponderáveis. Trata-se, aliás, de uma personagem feminina que usa e abusa dos seus dotes de “mulher” fatal. E a propósito, será que podemos designá-la por mulher, mesmo de um ponto de vista simbólico? De facto, aos compromissos e alianças que irá estabelecer para atingir os seus fins nem sequer escapa um militar muito convencido de si próprio e algo duro de roer, avatar igualmente agreste na sua maneira de ser e estar, o Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang, que no seu disfarce digital parece aqui e além o sósia de Cristiano Ronaldo). Para os devidos efeitos, a personagem que ele representa será enredada no feitiço da senhora do fogo, mas está lá sobretudo para espalhar as brasas da pirotecnia reinante e, pelo meio, servir como uma espécie de pé-de-cabra para abrir e fechar as portas narrativas que os argumentistas quiseram fazer prevalecer. Por isso, quando assistimos ao seu aparente sacrifício, misto de desafio e desespero, será que assistimos mesmo ao seu definitivo e inevitável ponto final?
Dúvida que podemos estender ao quadro geral das restantes personagens que vão a custo sobrevivendo, ao contrário dos soldados de muitos exércitos que morrem uns atrás dos outros. Entretanto, o contexto mais sólido que o filme nos propõe reside na excelência dos efeitos especiais e visuais (o state of the art do que o cinema nos pode oferecer hoje em dia) e são inúmeras as batalhas no ar, no mar e nas florestas luxuriantes de Pandora que se servem da sua intensidade e vertigem digital que, aliás, desde o início se consolidou como padrão e imagem de marca do franchise. Seja como for, a exuberância dos meios disponíveis e o fascínio pelo “brinquedo” de vanguarda pesa em demasia e, quanto a mim, uma maior economia de combates e menos ziguezagues não fazia mal a ninguém. Porque a sensação de se repetirem os movimentos da bicharada alada, assim como os de alguns monstros marinhos, e ainda os meios e armas utilizadas para fustigar os diferentes adversários, acaba por não ser muito diversa. Seja como for, repito, a excessiva coreografia dos confrontos e alguns dos seus mais ou menos previsíveis resultados geram alguma fadiga, evitável se em vez de se multiplicar a dispersão do campo, ou melhor, dos espaços de batalha, a produção e a informática concentrassem o foco sobre um núcleo duro de protagonistas, proporcionando a oportunidade de os acompanhar com maior proximidade e “materialidade” numa base de olhar subjectivo cuja progressão fosse verdadeiramente imersiva. Tudo isto, acredito, podia reforçar o impacto dessas pelejas que são do melhor que se pode observar em matéria de CGI, de Performance Capture e de 3D.

Escusado será dizer que Jake Sully (Sam Worthington), a companheira Neytiri (Zoe Saldaña), mais a família e seu natural protagonismo, estão lá para fazer valer o preço do bilhete, sem esquecer as circunvoluções propostas no guião, com incidência generosa no presente e futuro do clã a que pertencem. Não estão sozinhos, há personagens próximas que emergem para nos conduzir a caminhos por desbravar, na prática, seguramente aos próximos dois episódios (previstos para 2029 e 2031) onde a simbiose do humano e do humanoide se farão notar com mais força. Enfim, por agora, nada mais do que um pressentimento e uma aposta minha.
Em suma, podia acrescentar mil e uma ideias a esta análise do «Avatar: Fogo e Cinzas», mas penso que por muito que dissesse ficava sempre de fora uma quantidade infinita de pormenores. Filmes como este devem ser vistos e revistos no seu esplendor visual e criativo, sequência após sequência. São também aqueles que de certa maneira podiam vir acompanhados de um manual de instruções e, porque não, um ou outro conselho, a saber: não faz mal nenhum se, antes de o verem, derem uma voltinha pelos dois anteriores, nem que seja para recordarem algumas nomenclaturas utilizadas. Garanto que vos irá facilitar a atenção nos primeiros minutos quando começarem a ouvir falar de conceitos, objectos e palavras que não são exactamente as que usamos no nosso dia-a-dia. De facto, parece indispensável ao mais cabal usufruto das qualidades de «Avatar: Fogo e Cinzas» que o espectador se concentre desde cedo na acção e nas interacções das personagens protagonistas sem perder o fio da meada do que já foi dito e revelado no passado com possível ou real incidência no presente. Caso contrário, arrisca-se a navegar nas águas revoltas de exercícios desgarrados de memória que podem muito bem não aguentar de forma airosa os 195 minutos que o filme dura.
James Cameron sempre foi o realizador certo para levar a bom porto um inovador mega projecto como este, mas isso não me impediu ao longo do visionamento de recordar um dos melhores filmes da sua filmografia, «The Abyss» («O Abismo»), 1989. Nostalgia? Não, nada disso! Sucede que me veio ao pensamento esta interrogação: qual seria o impacto desse filme visionário, incluindo hoje, se pudesse na época contar com a parafernália de engenharia informática que na altura já existia mas estava longe de conquistar as cinco estrelas que este «Avatar: Fogo e Cinzas» alcança nesse domínio? Provavelmente o mesmo ou maior, porque contava com um pressuposto ficcional e um argumento cujas qualidades se harmonizavam de forma certeira no magnífico articulado das suas imagens e sons, no poder de composição e desempenho dos actores, no contexto avançado dos efeitos visuais, nos pressupostos materiais e espirituais do argumento, ou seja, no seu milimetricamente delineado plano estrutural. Tecnologia e dimensão humana de mãos dadas, alguma margem de manobra para a emoção, aquilo que de certo modo, não sendo decisivo, faz alguma falta aos argumentos dos “Avatar”.
Título original: Avatar: Fire and Ash Realização: James Cameron Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Oona Chaplin, Britain Dalton, Jack Champion Trinity, Kate Winslet, Cliff Curtis, Edie Falco, Jo-Li Bliss Duração: 195 min. EUA, 2025
Fotos: © 2025 20th Century Studios




