Há dois momentos chave para decifrar o núcleo duro dos pressupostos ficcionais do projecto «Springsteen: Deliver Me From Nowhere», 2025, de Scott Cooper, e não estão necessariamente relacionados com a personagem de Bruce Springsteen, interpretada por Jeremy Allen White, mas com a persona do próprio realizador. Para aqueles que sofrem do mal de hemorroidas nervosas e se levantam da cadeira assim que surge o genérico final, se ficarem até ao fim vão ler, mesmo no finalzinho do dito genérico, que o cineasta dedicou o filme ao seu pai, algo que faz o maior sentido depois do que vimos e ouvimos ao longo dos seus velozes cento e vinte minutos de duração. Mas vamos por partes. Primeiro dado importante a reter: durante a escrita dos versos da canção que ficaria para a história como “Nebraska”, uma das mais emblemáticas da carreira do cantor e compositor com poema inspirado na visão do clássico «Badlands» («Os Noivos Sangrentos»), 1973, de um grande individualista do cinema americano, Terrence Malick, Bruce Springsteen muda o “ele” pelo “eu”, ou seja, assume como suas as angústias existenciais que antes colocara na boca e no pensamento de outra pessoa num exercício de pura abstracção. Terceira pessoa do singular que ao ser substituída pela primeira pessoa veio concretizar e clarificar o que o autor da obra fílmica queria dizer e salientar como depoimento e memória de problemáticas vidas passadas. Segundo dado, provavelmente até mais importante que o precedente: numa conversa com o seu manager, Jon Landau (interpretado por Jeremy Strong), o amigo, confidente e produtor, com o objectivo de apaziguar os demónios que atormentavam o “boss”, confronta-o com uma frase serena mas incisiva: mais palavra menos palavra, diz-lhe que o lugar de onde ele viera já não existe e aquele para onde ele queria ir nunca lá esteve. No fundo, sabe ele, na verdade sabem eles, e sabemos nós desde o início, que o rapazinho que vivera numa pequena localidade do bastardo New Jersey, se quisesse voltar para casa não iria encontrar senão as ruínas do que fora a sua infância, assim como os caminhos cruzados que o separavam do vizinho e parente mais rico, New York. Estamos a falar dos Estados, não das cidades. Para quem conheça bem os dois não será difícil perceber as diferenças, os preconceitos e as razões para as reais, e não raras vezes, artificiais divisões identitárias e de classe. Na verdade, nem a antiga relação sentimental com a “Jersey Girl” (Odessa Young), na complexa simplicidade das relações entre parceiros de uma certa working class, podia sobreviver desde que a abertura a novos horizontes se delineara com a deslocação do intérprete, músico e compositor para um retiro estratégico em Los Angeles, na Califórnia.

Entretanto, outros referentes acrescentam mais valor emocional ao protagonista, como a luz e as sombras de outro magistral filme que aparentemente impressionou o ainda jovem Bruce Springsteen, o poético, onírico e aterrador «The Night of the Hunter» («A Sombra do Caçador»), 1955, de Charles Laughton, e já na idade adulta o desafio lançado pelo realizador e argumentista Paul Schrader, cujo guião intitulado “Born in the USA” deveria ser rodado com Robert de Niro e Bruce Springsteen, que deveria assinar igualmente a banda sonora musical.

Baseado no livro homónimo de Warren Zane, o argumento de “Springsteen: Deliver Me From Nowhere” não investiu, e bem, na hagiografia, que seria a mais fácil e redutora abordagem da vida e obra de Bruce Springsteen, preferindo apostar num mergulho de cabeça no exorcismo dos seus fantasmas pessoais, a maioria recalcados desde a infância, onde pelo que vemos a mãe ocupa um papel presente/ausente na equação narrativa em detrimento da maior comparência do pai, um operário e motorista cuja personalidade controversa e com altos e baixos de humor constituía para o filho um referente de que ele não se orgulhava a cem por cento mas que no final das contas não rejeitava. Diga-se que essa relação plena de dor e ambiguidade, mas também de solidariedade e compreensão pelos abismos emocionais do progenitor, pontua diversas sequências do filme e, pouco a pouco, somos convidados a julgar pelos nossos próprios critérios a dinâmica que realmente existia no seio de uma família em que o sucesso acabou por beneficiar quem nela vivera as agruras de uma vida no limite dos limites e nas franjas mais desfavorecidas da sociedade. Decerto por essas e por outras, nas composições de Bruce Springsteen não se fala em geral de amores fúteis e aventuras descabeladas. Pelo contrário, canções como “The River”, “Born in the USA”, “Born to Run”, e o emblemático álbum “Nebraska”, gravado em condições precárias mas com muita garra e determinação, só para ficar na época coberta pelo filme, são peças que acabam por expressar de forma exemplar o que ia na alma do compositor. “Nebraska” acabou mesmo por ser lançado como Bruce Springsteen queria, contra as expectactivas da indústria e do mercado e contra a corrente do êxito fácil (editado sem singles, sem o concurso da imprensa ou digressões promocionais). Podemos considerá-lo o retrato sem retoques ou filtros desnecessários das pessoas que nos EUA se posicionam no lado B e não no lado A da sociedade, e muito menos algo equivalente ao multimilionário negócio a qualquer preço do rock,do heartland rock,do folk rock e do rock’roll. Todavia, aleluia, neste caso a diferença foi reconhecida e a sua obra distinguida com os favores da crítica e do público. Mesmo com algumas variações, nunca sucumbiu ao comercialismo bacoco nem aos esquemas manhosos onde impera a falta de bom gosto e onde prevalece uma grande fragilidade do ponto de vista ideológico. De facto, Bruce Springsteen foi e continua a ser porta-voz dos que encontram dificuldade em manifestar-se, ou então dos que não costumam reivindicar mais do que as migalhas que o capitalismo lhes atribui. Ele sabe do que fala quando canta: Born down in a dead man’s town / The first kick I took was when I hit the ground / You end up like a dog that’s been beat too much / Till you spend half your life just covering up. E o refrão sublinha: Born in the USA / I was born in the USA.

Felizmente, «Springsteen: Deliver Me From Nowhere» não se perfila como um mero biopic. Na sua componente de ficção, porque não sei nem me interessa muito saber se metade do que vemos corresponde ao que se passou, existem motivos de sobra para reflectir sobre os caminhos partilhados por um homem confiante da sua arte naquele quase início de carreira onde os impulsos da criatividade se cruzaram com as barreiras erguidas pela depressão. A mistura do emocional com os apontamentos biográficos está muito bem estruturada, e a sua articulação no contexto narrativo dá a esta obra uma dimensão que supera as normais armadilhas dos filmes que querem simplesmente acompanhar a crista da onda sem procurar nas profundezas do oceano a razão para a formação das vagas e a eventual posterior força das mesmas na rebentação. Numa palavra, neste filme podemos ver e ouvir a reinterpretação dialéctica da figura de Bruce Springsteen como ele foi ou podia ser, e não a do génio indiscutível contaminado pelos lugares comuns do marketing musical.

Por fim, uma pergunta: porque não se baptizou este filme com designação portuguesa? Faria algum mal chamar-lhe, por exemplo, “Springsteen: Livrai-me do Desconhecido” ou “Springsteen: Livrai-me do Vazio”? Não é grave, mas dá que pensar…!

Título original: Springsteen: Deliver Me From Nowhere Realização: Scott Cooper Elenco: Jeremy Allen White, Jeremy Strong, Paul Walter Hauser, Stephen Graham Duração: 120 min. EUA, 2025

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