Quando, no início dos anos 1990, assisti a «Les Roseaux Sauvages/Juncos Silvestres» de André Téchiné senti um imenso desconforto. Não pelas cenas que o filme mostrava, de um pueril amor homossexual, mas sim pela reacção do público presente. Entre risos e impropérios dirigidos ao grande ecrã, a sala transformou momentos intensos e emotivos num espetáculo degradante. O amor entre dois rapazes era visto como algo ridículo e risível. E esse tem sido o sentimento geral da sociedade que ainda hoje permanece. Talvez haja mais compreensão pelas relações entre adultos, mas torna-se incómodo quando se trata de jovens. Já muitos escreveram sobre como a educação sentimental da população gay é negada e posta em suspenso até a maioridade. Por muito inocentes que possam ser, os primeiros amores são ainda recebidos com grande resistência pelos pais, educadores e sociedade no geral. Esses adolescentes, para além de lidarem com todas as ansiedades naturais desse período da vida, são obrigados a enfrentar o peso do estigma social.
Em «Young Hearts – O Primeiro Amor», Anthony Schatteman constrói um conto redentor. Quis oferecer ao Mundo, um filme sobre o despontar de uma relação cândida e casta entre dois rapazes de catorze anos, que acontece e é resolvida sem grandes dramas. Segundo o realizador, este é o filme que gostaria de ter visto quando ele próprio passou pelos mesmos sentimentos e num ambiente de ruralidade muito semelhante ao que aqui serve de cenário. Encontramos então Elias (Lou Goossens), um rapaz que tem uma existência protegida numa pitoresca aldeia belga-flamenga. O pai (Geert Van Rampelberg) é uma pequena celebridade da região e a mãe (Emilie De Roo), uma dona de casa afectuosa e presente. Conta ainda com o apoio de um grupo de amigos chegados e um muito terno avô (Dirk Van Dijck), recentemente enviuvado, que se dedica à agro-pecuária. Há pastos, vaquinhas, mergulhos nos rios, passeios de bicicleta e um (estranho) eterno Verão. Para a casa em frente, muda-se uma família vinda da capital, com um filho da mesma idade que o protagonista. Alexander (Marius De Saeger) é um rapaz com ar um pouco mais rebelde, de cabelos longos e unhas pintadas, que vive já confortavelmente com a sua orientação sexual. Os dois depressa se tornam amigos e, aos poucos, vai despontando um sentimento maior. Porém, para o moço da província, estas novas emoções não são tão fáceis, e só se sente plenamente seguro quando ambos estão sozinhos.

Os seus medos são mais imaginados do que reais. Colegas, amigos e família revelam-se todos muito compreensivos, desdobrando-se em cuidados e afetos. E é aqui que o filme fraqueja um pouco. O argumento parece mais adequado a integrar a série de livros “Anita” (dos também belgas Marcel Marlier e Gilbert Delahaye) ou do anime «Heidi» (dir. Isao Takahata, 1974). À força de querer fazer uma história edificante e romântica, num ambiente idílico, acabou por resvalar para algo demasiado melífluo e longe da realidade. Mais do que fazer sonhar, o filme parece querer alienar. Há um constante deslocamento do real: desde o já falado eterno verão, mesmo em período escolar, num país onde raramente brilha o sol; às referências culturais e tecnológicas. Os miúdos usam os telefones apenas para comunicar e não para se demorarem nas redes sociais ou fazerem fotos. Quando fazem uma festa temática em que propõem ir vestidos de pares conhecidos, as referências culturais são do imaginário Millenial e da Geração X. Talvez ainda se consiga acreditar que conheçam o filme «Romeo+Juliet» (Baz Luhrmann, 1996), mas que miúdo hoje sabe da existência do epifenómeno musical Salt-N-Pepa? Onde estão as estrelas do TikTok e do Bedroom Pop, os memes ou o BrainRot? Temo que o realizador terá projectado demasiado da sua própria adolescência num filme pensado para os adolescentes de hoje.
Centremo-nos agora nos atores. Schatteman afirma ter feito casting a 1500 rapazes até encontrar os seus dois protagonistas. Esta exaustiva procura revelou-se frutífera. Lou Goossens demonstra uma imensa maturidade no papel de Elias, conseguindo transmitir as subtis inflexões emocionais exigidas pelo personagem. Já Marius De Saeger, como Alexander, irradia o natural à-vontade de quem parece ter nascido para o palco. A parte mais exigente dos seus papéis terá sido, com certeza, a demonstração do amor partilhado. O realizador nada nos diz sobre a orientação sexual dos rapazes, mas confessa que, durante os castings, apenas mencionou tratar-se de uma história de amor, sem referência à sua natureza. O adentrar na história foi cuidadosamente guiado pelo realizador em conversas com os actores, com os pais destes e com a ajuda profissional de Oliver Roels, psicólogo e terapeuta infantil. Assim, as eventuais dificuldades das cenas mais ternas (sobretudo o beijo) não transparecem no resultado final. Enquanto espectadores, assistimos a momentos puros, delicados e naturais, que só mentes homofóbicas poderiam julgar irregulares.

Existe já um vasto conjunto de filmes que abordam o despertar do amor gay na adolescência. E as comparações serão inevitáveis. Sem querer cansar o leitor com uma lista exaustiva, penso ser imperativo mencionar alguns exemplos. O primeiro filme do género terá sido «Du er ikke alene» [lit. Não estás sozinho.](dir. Ernst Johansen e Lasse Nielsen,1978). Imbuído do espírito hippie, o filme apresenta o desenvolvimento de uma relação entre dois rapazes de forma muito natural mas com cenas de nudez e sexo que hoje são problemáticas. Dos anos 1990 temos «Beautiful Thing/Uma Bela Atração» (dir. Hettie MacDonald, 1996) onde um casal consegue ultrapassar os preconceitos e os impedimentos sociais e o já citado «Juncos Selvagens» com um final menos feliz mas, ainda assim, de superação. Da mesma veia, encontramos «Sommersturm/ Tempestade de Verão» (Marco Kreuzpaintner, 2004) e ainda o primeiro filme islandês a competir no Festival de Veneza: «Hjartasteinn/ Coração de Pedra» (Guðmundur Arnar Guðmundsson, 2016). Mas, em especial, «Noordzee, Texas/Pelo Caminho das Dunas» (Bavo Defurne, 2011): uma produção também belga que apresenta uma cultura e um ambiente semelhantes ao de «Young Hearts» mas com maior densidade emocional e um realismo que inclui as gradações de negro da vida.
Schatteman foi claro na determinação dos seus objectivos: queria um filme inocente, sem menções a sexo e sem sofrimento trágico. E nisto diferencia-se de todos os outros. Porém ao expurgar o filme destas características acabou por o isolar do que constitui a experiência de vida dos jovens, em geral, e dos homossexuais, em particular. O que levanta a questão: a quem realmente se dirige o filme e com que público consegue dialogar? Apesar da solidez das interpretações e da delicadeza com que aborda o primeiro amor, o filme parece falar sobretudo a um público adulto e nostálgico. Aquece o coração e a alma dos que são mais velhos e, talvez ainda mais, daqueles que sonham ter podido viver uma relação assim na sua adolescência. Mas receio que não tenha o mesmo eco entre os mais jovens. Um filme como este é necessário e urgente para a geração Z; contudo, para cumprir plenamente essa missão, teria de ser um filme capaz de falar a sua língua, de reconhecer as suas referências e de refletir as suas formas actuais de viver o afecto e a descoberta de si.
Título original: Young Hearts Realização: Anthony Schatteman Elenco: Lou Goossens, Marius De Saeger, Geert Van Rampelberg Duração: 99 min. Bélgica/Países Baixos, 2024

