Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

The Salt Path – O Caminho do Amor

«The Salt Path – O Caminho do Amor» verte para a tela o livro autobiográfico homónimo de Raynor Winn. O texto é uma narrativa de perda, resiliência e redescoberta, já o filme é uma meditação visual sobre a fragilidade humana e a força regeneradora da natureza. O enredo, algo simples, aborda um tema profundamente humano: após perderem a casa e todos os meios de subsistência, Raynor (Gillian Anderson) e o marido Moth (Jason Isaacs) decidem percorrer a pé o South West Coast Path, uma rota costeira de cerca de 1000 km, no sudoeste de Inglaterra. Mas mais do que por prazer ou hobbie, fazem-no empurrados por nefastas circunstâncias da vida. Numa altura em que estariam já a pensar na reforma, perdem tudo o que têm: dos bens à saúde. A sua propriedade é confiscada no mesmo momento em que é diagnosticada uma doença neuro-degenerativa ao pai de dois filhos. Não fora o caso ter sido real poderia ser a premissa de um conto de cordel tamanho o desfiar de desgraças. Mas acontecendo a alguém tal fado, o que fazer? Neste caso optaram pela sua caminhada num modo envergonhado de disfarçar estarem sem abrigo. Viver em tendas, por opção, é socialmente mais aceitável.

          Marianne Elliott, renomada e premiada directora de teatro, faz aqui a sua estreia na longa-metragem; e a sua sensibilidade cénica é visível desde os primeiros planos: privilegia o gesto, o silêncio e a paisagem como prolongamentos da interioridade das personagens acossadas de preocupação e dúvida. A sua direcção é discreta, contida, mais interessada nas emoções do que na construção de grandes momentos dramáticos. Uma muito des-glamourizada Gillian Anderson oferece uma interpretação notável pela subtileza: o sofrimento, a vergonha, o medo e a coragem aparecem-lhe gravados no rosto, nos movimentos cansados, no olhar que alterna entre a exaustão e a determinação.  Por seu turno, Jason Isaacs contracena com uma vulnerabilidade que lhe é rara, transformando a fragilidade física num espelho de ternura e dignidade. Soma-se a fotografia de Hélène Louvart que será talvez o elemento mais memorável da obra. A câmara acompanha os protagonistas como se fosse uma testemunha silenciosa, alternando entre planos amplos que revelam a acritude imponente das falésias e os planos fechados que captam a intimidade do sofrimento humano. A paisagem ganha título de personagem: a um tempo consoladora, ameaçadora e indiferente. Os elementos naturais (inclementes mesmo no Verão) criam um ambiente quase físico, em que o espectador sente o peso da caminhada e a precariedade da existência.

        

  No entanto, apesar da força visual e das interpretações, o filme revela fragilidades narrativas. O argumento de Rebecca Lenkiewicz, embora fiel ao espírito do livro, simplifica em demasia alguns aspectos da história. Ficou por explorar a dimensão social e política da queda do casal: as falhas do sistema, a ausência de protecção social, a invisibilidade dos sem-abrigo, o estigma da pobreza. A viagem converte-se, por vezes, num percurso quase místico, desligado do realismo que a premissa prometia. O filme concentra-se no caminho literal e simbólico, mas negligencia as causas e consequências estruturais que o motivam. Há também uma tendência para a repetição: a alternância entre caminhada, exaustão, pernoita e reencontro torna-se previsível; e o ritmo irregular (salpicado de flash-backs) oscila entre o contemplativo e o arrastado. Esta estrutura episódica, pese embora coerente com o formato da peregrinação, retira (de forma mais ou menos intencional) tensão dramática. Os diálogos resvalam ora para a artificialidade, ora para um simplismo comezinho de trivialidades e platitudes (que não se espere um caminhada peripatética!); e as personagens secundárias – quase planas – surgem somente para quebrar o tédio narrativo. Temos ainda que algumas passagens se tornam excessivamente sentimentais (a raiar o patético), onde o filme parece ceder à tentação da lição edificante a querer impor uma moral inspiracional de conforto fácil a lembrar o pior de «Eat Pray Love» (2010, dir. Ryan Murphy) e demais chic flicks de consumo rápido e espiritualidade instantânea que o título em português – «O Caminho do Amor» – parece acentuar.

         A direcção de Elliott, contudo, merece reconhecimento pela coerência estética e pela coragem de apostar num cinema lento, introspectivo, num tempo em que a velocidade narrativa domina. Em entrevistas, a realizadora assumiu que filmar em exteriores adversos, com orçamento limitado e sob condições meteorológicas imprevisíveis, foi uma prova de resistência. Essa limitação técnica reflecte-se na linguagem visual, que privilegia a intimidade, o improviso e o contacto directo com os elementos. É de louvar que Elliot não tenha caído na tentação de estetizar a pobreza, nem de transformar a adversidade em espectáculo. Mas, ainda assim, a história de fundo tem algo de inautêntico e de forçado. Este ponto, aliás, já tinha sido notado aquando da publicação do livro original. Questionou-se até que ponto a dita história verídica seria, efectivamente, uma representação fiel dos factos autobiográficos ou uma dramatização construída com demasiada liberdade poética ou (pior) com intuitos meramente comerciais. Polémicas à parte, concentremo-nos no filme. À laia de conclusão:  «The Salt Path» sustenta-se mais na emoção (algo fácil) do que na estrutura e mais no sentimento do que na acção. Contudo, a sua lentidão, a previsibilidade narrativa e a tendência para um sentimentalismo edulcorado impedem-no de atingir o pleno vigor dramático a que aspira. Resta, ainda assim, a impressão de uma experiência cinematográfica que resiste à pressa e aposta na fragilidade como força. Em suma, é um primeiro filme que ainda tacteia para encontrar a sua voz. Esperemos que, em futuras produções, a realizadora consiga trazer para o cinema a excelência que tem demonstrado no teatro.

Título original: The Salt Path
Realização: Marianne Elliott
Elenco: Gillian Anderson, Jason Isaacs, Denis Lill
Duração: 115 min.
Reino Unido, 2024

Também Poderá Gostar de