Na realização de «Nome», 2023, encontramos um veterano de muitas lutas, o guineense Sana Na N’hada, um dos mais importantes cineastas de origem africana. Três longas-metragens e um bom número de curtas constituem a sua relevante filmografia, que só peca por escassa numa carreira iniciada há já várias décadas. Podemos dizer que as portas do cinema se abriram para este homem, possuidor de um olhar muito especial sobre a realidade do seu país e do seu povo, na sequência de uma histórica decisão de Amílcar Cabral (1924-1973), um dos mais destacados combatentes pela independência da Guiné e Cabo Verde, fundador em 1959, junto com outros patriotas na clandestinidade, do PAIGC. Seguramente consciente de que o cinema podia ser uma arma de grande eficácia na luta que se previa difícil contra o colonialismo português, assim como um instrumento decisivo para perpetuar a memória dos combates revolucionários antes e após a libertação da antiga colónia, Amílcar Cabral enviou em 1967 para o Instituto de Artes e Indústrias Cinematográficas de Cuba um grupo de estudantes nascidos na então designada Guiné Portuguesa. Para além de Sana Na N’hada, foram Flora Gomes, Josefina Lopes Crato e José Bolama.

No dia 24 de Setembro de 1973, o cineasta documentou a proclamação do Estado da Guiné-Bissau, rude golpe na presença colonial portuguesa antes do 25 de Abril de 1974. Posteriormente continuou com os seus colegas a missão de registar a História do novo país que nascera dos sacrifícios e da luta, assumindo assim a sua plena identidade nacional e cultural. Todavia, as recentes palavras do realizador reportam uma visível angústia em relação ao rumo seguido pelos que hoje dominam a vida política e social na Guiné-Bissau. De facto, Sana Na N’hada não disfarça os sinais de desencanto quando afirma: “É revoltante. Tudo o que está a acontecer na Guiné-Bissau. (…) Antes, o desígnio era a edificação da Guiné-Bissau. Hoje, existe a Guiné e a minha pergunta para este filme é a que faço todos os dias: será que a Guiné-Bissau que estou a sentir, que estou a ver e a ouvir, é aquela pela qual lutámos?” De que forma esta consciência atormentada por acontecimentos de diversa natureza (a que podemos acrescentar alguma impotência em conquistar um espaço que era suposto ocupar numa outra realidade histórica que foi intensamente desejada e pela qual muitos deram a vida) se cruza com a matéria primordial de «Nome»? De certo modo, devemos começar por analisar o que significa «Nome». Não se refere apenas a um nome próprio, constituindo antes a abstracção e síntese de muitos nomes. Para usar uma referência militante, será uma espécie de “nome de guerra”, porque será na guerra contra o colonialismo que a personalidade de Nome, protagonista do filme «Nome», se irá distinguir e crescer, dando por fim ao seu portador o quase estatuto de herói. «Nome» será assim a identificação de uma personagem comum atirada para circunstâncias extraordinárias, como a luta pela independência e o fim do jugo colonial, conflito onde aprendeu a possibilidade de ultrapassar as fronteiras e as relações algo limitadas da sua aldeia natal. Por outro lado, o seu recrutamento evitou que um rapaz habitualmente reservado e discreto enfrentasse as responsabilidades inerentes ao facto de deixar junto da sua mãe a noiva que engravidara. No filme, Nome foi interpretado e bem por Marcelino António Ingira, mas não podemos omitir a forte presença da actriz Marta Dabo, no papel da mãe, e de Binete Undonque no da namorada/mulher.

Prosseguindo o que já se prefigurava na sua primeira longa-metragem de ficção, «Xime», 1994, Sana Na N’hada aborda as relações e as forças vitais da existência, quer no interior do círculo familiar quer nas margens desse núcleo central ao desenvolvimento da acção. No presente filme as diferentes sequências estão organizadas como peças de um quadro mais vasto que engloba a questão da materialidade física de cada ser, aliada a uma constante presença do espiritual sublinhada pela vontade do cineasta e consubstanciada pelo olhar do espectador no deambular atento de um ser mágico da floresta, um espírito que no fim acompanha Nome até ao espaço urbano da cidade capital, Bissau. Testemunha visível e invisível, mas incisiva na pontuação moral do que se perfila como determinante no contexto dos principais conflitos dramáticos. Ele, o espírito que vagueia numa espécie de limbo, está onde deve estar, e a sua figura de rosto branco desdobra-se entre passado e presente numa articulação que comporta paralelismos muito peculiares. Numa das direcções seguidas vemos o jovem Raci, construtor de bombolons (instrumento de percussão), personagem que nos remete para a infância (provavelmente para memórias do próprio Sana Na N’hada). Mas há também a história de Nambú, que a certa altura perde a voz e cuja filha vai ser separada da mãe. Tudo sempre moldado pelo pensamento mágico e, mais do que a religião, pela filosofia animista que se manifesta no culto da Natureza, na crença de que não existe separação entre o mundo físico e o espiritual, a crença de que a alma existe nos seres humanos assim como, entre outros, nos animais, nas plantas, nas rochas, no vento, nas sombras. De forma exemplar, Sana Na N’hada introduziu este universo antes de fazer de «Nome» um filme sobre Nome enquanto guerrilheiro do PAIGC. Deste modo, Nome será sempre o que pertence a um contexto de luta concreta, porque a ela aderiu, mas o seu percurso apresenta contradições de carácter existencial que o afastam do perfil normalizador dos seus camaradas de armas. Será, aliás, no combate que ele vai forjar e perspectivar o seu futuro. Desgraçadamente, ao contrário de outros que se mantiveram fiéis aos princípios libertadores, uma vez alcançada a independência Nome será corrompido pela ganância de uma sociedade que virou as costas ao colectivo e aos sonhos de outrora para viver o presente mergulhado no rolo compressor dos que preferem navegar nas águas geladas do cálculo egoísta. Na Guiné-Bissau independente, Nome comporta-se como aqueles contra os quais lutara, renega o seu passado rural e acaba inclusivamente a desviar do bom caminho alguns dos seus antigos companheiros de guerrilha. Mas há sempre alguém que resiste e há sempre alguém que diz NÃO e, no final, a coragem maior e a arguta consciência de Sana Na N’hada engendra a mais violenta das imagens para denunciar a descida aos infernos de Nome num filme que até ali não fizera uma única vez a apologia da violência material apesar da sua matéria ficcional o permitir. No entanto, enquadra esse momento num inteligente fora de campo que prova a mestria das suas aptidões como realizador. Porque aquilo que não vemos, mas podemos adivinhar, pode ser muito mais forte do que mil imagens escancaradas. Melhor complemento das palavras desencantadas de Sana Na N’hada que acima reproduzimos, não podia haver. Trágico destino de Nome, vítima e carrasco dos abismos do país que o viu nascer.

Filme para ser visto com olhos e mente de quem sabe estar vigilante, obra imprescindível para conhecer um realizador que merecia ser dono de uma filmografia bem mais vasta.
Destaque ainda para a fotografia de João Ribeiro, a montagem de Sarah Salem (que cruza material original com materiais de arquivo, alguns oriundos de documentários realizados no passado por Sana Na N’hada), o argumento de Virgílio Almeida e Olivier Marboeuf, e a música original de Remna Schwarz.

“Nome”, 2023, co-produção entre Luís Correia da LX Filmes (Portugal), Olivier Marboeuf da Spectre Productions (França), Geba Films (Guiné-Bissau), Geração 80 (Angola) e The Dark (França).

Título original: Nome Realização: Sana Na N’Hada Elenco: Marcelino António Ingira, Binete Undonque, Marta Dabo Duração: 118 min. Guiné-Bissau/França/Portugal/Angola, 2023

ARTIGOS RELACIONADOS
Louca-Mente – trailer

LOUCA-MENTE evoca o universo de DIVERTIDA-MENTE ao dar corpo ao que se passa “cá dentro”, mas, em vez das emoções, Ler +

Sessão Especial DE BICICLETA com Conversa sobre o Luto

A Risi Film apresenta uma sessão especial do filme DE BICICLETA, de Mathias Mlekuz, dedicada a uma reflexão aberta sobre Ler +

O Natal dos Animais – trailer

E se o Natal fosse, acima de tudo, uma celebração da Natureza? Dos céus do Extremo Norte às paisagens do Ler +

A Grande Ambição – estreia TVCine

Como queremos o cinema político? Bem-passado, mal-passado ou em meio-termo? Andrea Segre, realizador que desembarcou no nosso litoral embalado pelo Ler +

Partir, Um Dia

Começamos com um teste de gravidez que se revela positivo para grande surpresa de Cécile (Juliette Armanet), uma chef de Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.