Ernst Lubitsch (n. Berlim, 1892; m. Los Angeles, 1947), veio do teatro berlinense, onde foi actor com a oposição do pai, para pouco depois chegar ao cinema. Atravessou o mudo e o sonoro, e mudou a linguagem cinematográfica. Como disse Renoir, era de tal modo forte, “que quando Hollywood lhe pediu para lá trabalhar, não só não perdeu o seu estilo berlinense, como converteu a indústria de Hollywood à sua própria forma de expressão”. Hitchcock chamou-lhe “um homem de puro cinema”, e os admiradores e devedores da sua arte multiplicaram-se, de Cukor e Preminger, que com ele trabalharam, a Orson Welles, Ozu ou Douglas Sirk. Foi um mestre da mise-en-scène, da sugestão, do intangível. Com uma inventividade constante. Os seus filmes tinham diálogos portentosos, desafiando a censura, o código Hays de má fama, que chegou com os anos 30. E, como referiu Truffaut, sempre com o público [“o público não está para lá da criação, está com ela, faz parte do filme”].
Neste ciclo de 15 filmes, 3 deles são do período alemão, cada vez mais valorizado no conjunto da sua obra: Carmen (1918), o primeiro a trazer-lhe fama internacional; A Princesa das Ostras (1919), que nos dá já a ver o seu estilo cinematográfico, o seu famoso e insuperável touch [Lubitsch: “A câmara deve comentar, insinuar, criar um epigrama… Estamos a contar histórias através de imagens, por isso temos de tentar tornar essas imagens o mais expressivas possível”]; e Madame DuBarry (1919), que foi o seu primeiro filme a estrear-se, com grande sucesso, na América. Partirá para os EUA no início dos anos 20, a convite de Hollywood para fazer um filme com Mary Pickford, e aí começa uma nova fase da sua carreira, trabalhando com os grandes estúdios, que, como hoje com os jogadores de futebol, pagavam uns aos outros pela sua cedência, e foi também produtor, afirmando-se como o cineasta mais célebre no mundo até à sua morte prematura [“morrerá vinte anos antes do tempo”, escreveu Truffaut], aos 55 anos.
Os outros 12 Lubitsch films que veremos [“I do not make German or American films, but rather Lubitsch films”], vão de 32 a 47, quando dá início a uma estonteante série de obras-primas, os seus anos dourados nos anos dourados de Hollywood.
É conhecida a história de que, quando Billy Wilder, que com ele colaborou e tinha na sua secretária uma placa onde se lia “How would Lubitsch do it?” informou William Wyler sobre a sua morte com uma frase incisiva: “Perdemos o Lubitsch”, Wyler retorquiu sagazmente: “Pior do que isso, perdemos os filmes do Lubitsch”.
Perdemos os que ainda iria fazer, mas continuamos com o tesouro dos que fez. Que agora reabrimos para os redescobrir, com grande prazer, no grande écran da sala de cinema, bigger than life. Como diria Jean Douchet, Lubitsch acreditava no prazer, porque a vida é como que um quebra-cabeças epicuriano, onde cada momento é roubado à morte. Por isso, é preciso viver, sorrir e aceitar o que vier. Um prazer imediato, físico, mas também um prazer social. E não há prazer senão na instabilidade permanente.
CARMEN
com Pola Negri, Harry Liedtke, Leopold von Ledebur
Alemanha, 1918 – 1h20 | M/12
Foi eleito o melhor filme alemão do ano e catapultou Lubitsch para a fama internacional.
A PRINCESA DAS OSTRAS
Die Austernprinzessin
com Victor Janson, Ossi Oswalda, Harry Liedtke
Alemanha, 1919 – 1h | M/12
“Foi a primeira das minhas comédias a mostrar o esboço de um estilo pessoal.” – Ernst Lubitsch
MADAME DUBARRY
com Pola Negri, Emil Jannings, Harry Liedtke, Reinhold Schünzel
Alemanha, 1919 – 1h54 | M/12
“É dos primeiros filmes com a sua assinatura inconfundível e é certamente um dos mais significativos na obra futura do cineasta. […] Abriu as portas de Hollywood a Lubitsch.” – Frederico Lourenço
O HOMEM QUE EU MATEI
The Man I Killed / Broken Lullaby
com Phillips Holmes, Lionel Barrymore, Frank Sheridan
EUA, 1932 – 1h16 | M/12
“Para subverter tudo, é só preciso não subverter nada. Foi a grande lição de Lubitsch, e nunca foi dada, talvez, com maior concisão e crueza do que neste prodigioso filme.” – João Bénard da Costa
UMA HORA CONTIGO
One Hour with You
com Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald, Genevieve Tobin
EUA, 1932 – 1h20 | M/12 | 4K
Uma nova versão, sonora, do primeiro grande êxito de Lubitsch nos EUA, uma comédia de enganos de casais trocados, e um dos seus filmes favoritos do período mudo, The Marriage Circle. Co-realizado com o jovem George Cukor, é por inteiro um Lubitsch film, que nele impôs a sua inconfundível marca, a provocar o código Hays que já começava a incomodar os cineastas.
LADRÃO DE ALCOVA
Trouble in Paradise
com Miriam Hopkins, Kay Francis, Herbert Marshall
EUA, 1932 – 1h23 | M/12 | 4K
“Do ponto de vista estético, penso não ter feito nada melhor, ou tão bom, como Ladrão de Alcova.” – Ernst Lubitsch
UMA MULHER PARA DOIS
Design for Living
Com Miriam Hopkins, Fredric March, Gary Cooper
EUA, 1933 – 1h31 | M/12
“[…] a perfeição do gosto e da técnica, do saber, um domínio absoluto, a discrição na ousadia. Ernst Lubitsch é, na nossa memória, o homem cuja obra simbolizará um dia essa perfeição, esse estilo sem falhas que foi próprio desta arte.” – Henri Langlois
O ANJO
Angel
com Marlene Dietrich, Herbert Marshall, Melvyn Douglas
EUA, 1937 – 1h31 | M/12
“Angel é uma das obras maiores de Lubitsch [em que] começa o Lubitsch final, muito mais depurado, muito mais interiorizado, muito mais sombrio também. Nada se perdeu do touch ou da sátira. Mas o ritmo começou a ser mais de andante do que de allegro.” – João Bénard da Costa
A OITAVA MULHER DO BARBA AZUL
Bluebeard’s Eighth Wife
de Ernst Lubitsch
com Claudette Colbert, Gary Cooper, Edward Everett Horton
EUA, 1938 – 1h25 | M/12
Começa com um puro gag, uma aparentemente insólita história de pijamas, e continua, magistral, com uma energia contagiante, numa sucessão de toques lubtschianos polvilhados de diálogos mordazes e cenas inesquecíveis.
NINOTCHKA
com Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire, Bela Lugosi
EUA, 1939 – 1h50 | M/6
“How wonderful Greta and I would be together. What a wonderful picture we could make together”, suspirava Lubitsch, até que a MGM lhe põe no colo este filme onde a Garbo é a barbaric, divinal Ninotchka, que nele começou a rir, ela que até à data sempre fizera papéis “sérios” [“Garbo laughs” foi o slogan usado no seu lançamento], como espia soviética que, depois de aterrar em Paris, sucumbe ao riso e ao prazer.
A LOJA DA ESQUINA
The Shop around the Corner
com Frank Morgan, James Stewart, Margaret Sullavan
EUA, 1940 – 1h39 | M/12
“No que diz respeito à comédia humana. Nunca fiz nada tão bom. Nunca fiz um filme em que o ambiente e as personagens sejam tão verdadeiros como neste são.” – Ernst Lubitsch
SER OU NÃO SER
To Be or Not To Be
com Jack Benny, Carole Lombard, Robert Stack
EUA, 1942 – 1h39 | M/12
19 Jun, 21h30. Apresentação por Leonor Pinhão
“Esta incessante mudança de aparências e reviravoltas dramáticas, no verdadeiro sentido da palavra, fazem do actor a figura central da comédia e, paradoxalmente, tornam a comédia a chave do drama. […] Por se centrar no actor, a mise-en-scène destaca-se acima de tudo na forma como os actores são dirigidos. A sua linguagem corporal, a sua maneira de falar e de se movimentar no plano confirmam Lubitsch como um dos maiores directors.” – Jean Eustache
O CÉU PODE ESPERAR
Heaven Can Wait
com Gene Tierney, Don Ameche, Charles Coburn
EUA, 1943 – 1h52 | M/12 | 4K
“Penso que é um dos meus filmes mais importantes, porque tentei, sob vários pontos de vista, sair das convenções então vigentes do cinema.” – Ernst Lubitsch
O PECADO DE CLUNY BROWN
Cluny Brown
de Ernst Lubitsch
com Charles Boyer, Jennifer Jones, Peter Lawford
EUA, 1946 – 1h40 | M/12 | 4K
“Cluny Brown fala, de facto, do prazer, mas de um prazer que já se foi ou que ainda está por vir; fala-se, de facto, de disponibilidade, mas transformada em vaguear e em vagos cruzamentos.” – Serge Daney
A DAMA DE ARMINHO
That Lady in Ermine
com Betty Grable, Douglas Fairbanks Jr., Cesar Romero
EUA, 1948 – 1h29 | M/12
Estreou-se depois da morte de Lubitsch, que já rodara mais de metade do filme. Otto Preminger, que muito o admirava, foi chamado para o acabar e concordou com a Fox que seria apenas o nome de Lubitsch a figurar no genérico. Mas não se pense que é um filme-testamento. Como disse Bénard da Costa, “o último filme de Lubitsch talvez não feche nada, mas abre para muita coisa futura”.
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