Real e ficção cruzam-se num só filme, «An Unfinished Film» («Crónicas Chinesas»), 2024, de Lou Ye, na realidade um docudrama inicialmente estruturado a partir da montagem de segmentos combinados de outros filmes do mesmo realizador («Sozhou River» («Os Amantes do Rio»), 1999, «Spring Fever» («Febre de Primavera»), 2009, «Mistery», 2012, e «The Shadow Play», 2019) assim como de materiais supostamente registados por alguns dos seus habituais cúmplices nas mais diversas áreas da produção cinematográfica.

Logo a abrir (a acção decorre no ano de 2019 e prolonga-se por 2020) vemos o realizador Xiaorui (Mao Xiaorui) com a sua equipa a recuperar de um computador já ultrapassado pela voragem da evolução informática os ficheiros áudio e vídeo de um filme que dez anos antes dirigira mas ficara incompleto. De acordo com o seu depoimento, a rodagem fora interrompida por falta de financiamento. Mas adivinhamos outras dificuldades. Era a sua primeira-obra e a matéria ficcional mostrava que ele não andava alinhado pelo conformismo mais ou menos dominante da época. Havia mesmo uma relação homossexual que, segundo um dos actores protagonistas, Jiang Cheng (Qin Hao), dificilmente passaria na censura. Dez anos depois será, aliás, este mesmo actor que dirá a Xiaorui que a intenção de completar o dito filme para dar “actualidade” ao filme passado já não corresponde ao contexto do que eles agora são enquanto profissionais instalados, quer no seio da indústria de cinema, quer sobretudo no quadro mais pessoal da vida familiar. Todos eles casaram, organizaram as suas carreiras, e sobre os seus ombros cai a responsabilidade de criar e educar os filhos. Por outras palavras, ele está a dizer que a existência de cada um seguiu rumos diversos mas convergentes num ponto: o fulgor da juventude fora interrompido, e não apenas a energia patente no filme que ficou por concluir. Por fim, ele está a contrariar a vontade expressa do realizador de renovar e prolongar o corpo e a alma de um antigo projecto, denunciando aquilo que sente ser hoje uma perspectiva muito mais pessoal do que aquela que vigorara outrora num colectivo de artistas e criativos. Mais, se calhar, essa ideia de regresso deveria ser enterrada a favor de um projecto completamente novo. Todavia, a nostalgia dos dias passados sobressai, muita memória recalcada vem ao de cima e por fim aceita o desafio e, com ele, as regras do jogo propostas.

Tudo parecia correr sobre rodas para o realizador Xiaorui quando de repente se dá uma gigantesca reviravolta cujos contornos se pressentiram antes num ou outro episódio onde, primeiro em surdina e depois abertamente, se falava de contágios e de um vírus que afectava a saúde pública com especial incidência na cidade de Wuhan, não muito longe do local da rodagem. Entretanto, a situação pandémica agravou-se de forma galopante, não só na República Popular da China como no resto do mundo. Numa obra cuja designação original sublinha a interrupção de um projecto fílmico, concebido como reflexo militante de uma geração, assistimos agora aos desaires quotidianos da produção de uma nova obra de cinema que se arriscava, mais uma vez, a ficar inacabada. No hotel onde se instalara a equipa de produção, as consequências da pandemia de Covid-19 começam por se fazer sentir no confinamento obrigatório que empurra cada um dos profissionais para uma quarentena forçada. Este facto acaba por deteriorar a relativa normalidade das relações entre eles, mas provoca igualmente fissuras com o comum dos cidadãos, e ainda esporádicos mas violentos confrontos com as autoridades que procuravam manter a ordem no meio da desordem causada pelo perigo iminente de uma contaminação global e mortal.

Nesta altura, Lou Ye inicia um outro ciclo estrutural nas «Crónicas Chinesas» ao mudar a agulha da ficção para uma espécie de proto-ficção documental. E aqui abrem-se as portas da solução maior para que o filme incompleto se complete numa visão particular, num ponto de vista que concentra a atenção no actor Jiang Cheng que iremos acompanhar por bons minutos no interior do seu quarto. Telemóveis serão a partir dali o instrumento de comunicação entre ele e a mulher, oportunidade ainda para acompanhar o filho bebé, mas igualmente a arma avançada para estabelecer uma união virtual com os restantes confinados, cada qual com as suas preocupações específicas. E o filme ganha uma dimensão única que o distingue de outras obras que se debruçaram sobre o confinamento. Estamos neste caso no domínio de uma experiência cujo relato foi concebido por quem realmente sabe do que está a falar. Parece muito claro que aqueles actores, alguns não profissionais, estão a reviver algo que não lhes sabe a estranho. Há uma verdade subjacente que dá força a momentos de pura e dura intimidade, sem que o espectador se sinta um voyeur, ou seja, alguém que não foi convidado para aquela construção narrativa baseada em acontecimentos reais ou miméticos do real. No fundo, cada um de nós viveu momentos similares (não necessariamente de igual intensidade dramática). Logo, a identificação com a matéria não podia ser mais directa e pontuada por um sentimento de verdade. Mas o melhor estava guardado para o fim, quando «Crónicas Chinesas» nos mostra, finalmente, o real do real. E nas sequências do desconfinamento de Wuhan poucos serão os que não sentem um nó na garganta com a catarse da “libertação”. Só quem for absolutamente insensível não sente a alma cheia com a visão dessas imagens e sons do renascimento de uma cidade.

Dito isto, Lou Ye não acabou o filme do que fora o seu sonho passado, mas soube concluir a partir do pesadelo presente a exposição conturbada, mas de certo modo redentora, dos marcos limiares de vidas interrompidas por uma pandemia que, ao contrário do que nos querem fazer crer, ainda está por aí. Só com uma diferença: agora estamos muito mais bem preparados para a enfrentar.

Título original: An Unfinished Film Realização: Lou Ye Elenco: Qin Hao, Mao Xiaorui, Qi Xi Duração: 105 min. Singapura/Alemanha/EUA, 2024

Fotos: © Yingfilms Pte. Ltd., Essential Filmproduktion GmbH

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