Estranho lugar em que vivemos. Apetece-me escrever que este é um grande filme português sobre uma realidade eminentemente portuguesa. Mas hesito em fazê-lo tal e qual, receando que semelhantes palavras sejam lidas (ou atraiçoadas) como um discurso panfletário de exaltação da «pureza» do «mítico» cinema português. Confesso o meu profundo menosprezo por todo esse proteccionismo beato que quer fazer do cinema português um bezerro de ouro adorado em alguns altares da intelectualidade francesa… além do mais, os pensadores franceses merecem-me um pouco mais de respeito do que isso…

Dito isto, acrescentarei, tentando simplificar, que não é muito frequente deparar com um filme que, como este, consiga participar da verdade mais íntima de um lugar — o bairro das Fontainhas à beira da demolição —, um tempo, suas personagens, suas vidas, suas mortes, seus sobreviventes.

Pedro Costa filmou literalmente no quarto da Vanda (e, por alguma razão, o título diz «No quarto…» e não «O Quarto») com o espírito — cinematográfico e ético — de quem quer aceder à intensidade indizível do que ali acontece. Há nessa atitude uma fúria documental que não tem nada de passivo, antes passa por um elaboradíssimo trabalho de registo & manipulação de imagens e sons, cores e ambientes.

Que «No Quarto da Vanda» tenha sido filmado com uma câmara de video digital, eis o que está longe de ser inconsequente. Pela revolução tecnológica? Sim, sem dúvida, mas também pelo facto de estarmos perante uma tecnologia que altera, de forma significativa e fascinante, os próprios métodos, porventura os conceitos, de estar cinematograficamente num lugar, de o registar, enfim, de o manipular formalmente.

Filme, por isso, à frente do seu tempo? Apetece dizer que sim, mas a frase está demasiado gasta. Antes um filme obsessivamente ligado ao seu presente, essa dimensão onde todo o cinema se decide. E nos implica.

[Crítica originalmente publicada a 2 de Março de 2001 no site Cinema2000]

Título original: No Quarto da Vanda Realizador: Pedro Costa Intérpretes: Vanda Duarte, Zita Duarte, Lena Duarte Portugal, 2000 Estreia: 2 de Março de 2001

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