Nada interessa mais ao filme-saga do que assistir à passagem do tempo. E é notável, logo desde o seu início, que é aí que a ambição de Huo Meng reside. Quer que o espectador faça parte daquele espaço, e que o tempo se venha a tornar invisível. Por essa mesma razão, «Living the Land – O Vento é Imparável», estreado na competição do Festival de Berlim o ano passado, teria beneficiado de sequências longas, que se estendem até assentar no ritmo daquele lugar.

Nascido a partir da biografia do próprio realizador, que cresceu na China rural, este é um filme que existe sob o pano de fundo de um enorme desenvolvimento económico no país durante a década de 1990. Mas pelos olhos do pequeno Chuang (Wang Shang), um rapaz de apenas 10 anos, deixado com os avós depois dos pais se estabelecerem em Shenzhen, a cidade a sul, a percepção dos tempos idos reflecte-se apenas na morte ou casamento de entes queridos, idas para a escola de onde vêm os livros e com eles o conhecimento, a evolução dos instrumentos e métodos agrícolas, e o tempo que passa com a bisavó, o maior marco do tempo esvaído.

Ainda que sensível ao toque e filmicamente elegante, o filme de Huo Meng só se move tonal e emocionalmente nos breves momentos em que cai no melodrama. Momentos estes que coincidem com uma maior aproximação ao crescimento de Chuang, e de como este começa a reconhecer a falência da condição humana, a crueldade à qual as mulheres da sua família não conseguem escapar, e uma incapacidade por parte de toda a comunidade em deixar a mágoa ser sentida. Nada se arrasta, o que confunde o jovem rapaz, que vive rodeado pela falta de agência dos que dele cuidam. E tal como eles, o filme também não se consegue assentar ou afirmar. Parece recusar-se em o fazer, aliás. Não há silêncio que lhe dê densidade. Não há contemplação que lhe dê fôlego. Toda e qualquer sequência tem um propósito claro de se interligar à anterior. E assim andam, de mãos dadas, sempre em frente. É um filme controlado, demasiado afinado até, sem o peso ou a convicção do seu possível formalismo.

Aliado a isto está uma fraqueza em decidir estilisticamente que filme quer ser. Permanece aceso sob a leveza da luz socio-realista, mas sempre com vestígios tonais que destoam e parecem até pertencer a outro lugar. A grandiosidade que «Living the Land – O Vento é Imparável» expressa em postura falta-lhe em execução. A sua espinha dorsal permanece por desenvolver e o filme revela-se achatado e seco, em busca de um sentimento só seu.

Na cabeça ficam pequenos diálogos que aceleram o coração. Um deles é profético e dá o título português ao filme. Quando a bisavó de Chuang confessa nunca ter saído daquele lugar em vida, o bisneto diz-lhe que o corpo é só “um monte de células” que viajam com o vento. Podemos não vê-lo, mas sentimos a sua passagem.

TÍTULO ORIGINAL: Shengxi zhidì REALIZAÇÃO: Huo Meng ELENCO: Wang Shang, Zhang Chuwen, Zhang Yanrong, Zhang Caixia ORIGEM: China DURAÇÃO: 132 min. ANO: 2025

ARTIGOS RELACIONADOS
Lavagante

Há filmes que chegam tarde e ainda assim parecem nascer no tempo certo. «Lavagante», de Mário Barroso, é um deles: Ler +

A Cronologia da Água

«A Cronologia da Água» não começa devagar. Pelo contrário, atira-se logo de cabeça para um mergulho como numa competição de Ler +

Miroirs No. 3

No panorama do cinema alemão, ou melhor, do cinema europeu contemporâneo, Christian Petzold continua a ser um dos realizadores mais Ler +

Verdades Difíceis

Sai-se de «Verdades Difíceis» com uma sensação turva. Que trauma esconde Pansy, a personagem tempestuosa de Marianne Jean-Baptiste? Será que Ler +

A Cronologia da Água – trailer

Criada num ambiente marcado pela violência e pelo álcool, Lidia Yuknavitch parecia destinada à autodestruição e ao fracasso, não fossem Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.