No alvorecer de 2026, o público brasileiro foi brindado com a transmissão de «Bar Esperança» (1983), obra-prima de Hugo Carvana de Hollanda (1937-2014) na televisão, em broadcast, na emissora pública chamada TV Brasil. Brilhante também em cena, como ator, Carvana se reversa no protagonismo com Marília Pêra (1943-2015). Ela ganhou o troféu Kikito de Melhor Atriz, no Festival de Gramado, por sua atuação nessa boêmia produção, que tem ainda Denise Bandeira e Anselmo Vasconcelos em atuações encantadoras.
O tal “Bar Esperança”, um restaurante onde a cerveja gelada é a vedeta mais aclamada, funciona como ponto de encontro de todos os que circundam pela noite do Rio. Flanam por lá os mais criativos artistas do Brasil, inclusive a atriz de teatro e telenovelas Ana (Marília), parceira de vida, de trabalho e de amor do dramaturgo Zeca (Carvana), um autor de peças que se demite da televisão por não aguentar mais o esquema imposto. O “atleta de garrafas” Cabelinho (que é vivido pelo titã Paulo César Pereio) está sempre entre eles, a nadar em litros de álcool. No tal Bar Esperança, o amor de Ana e de Zeca vai pedir bis.
É tocante essa narrativa. Porém, igualmente tocante, é ver uma joia dessa na TV. Isso foi possível graça ao empenho da escritora e argumentista Antonia Pellegrino. Ela é a diretora de Conteúdo e Programação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que cuida da TV Brasil. O canal ostenta hoje uma programação invejável de filmes. Muito streaming de prestígio mesmo não tem as joias que ela tem levado ao ambiente da TV aberta. Embora prestigie títulos estrangeiros premiados em Cannes (como «Drive», de Nicolas Winding Refn) e os vencedores de Oscars (como «Blue Jasmine», com Cate Blanchett à luz de Woody Allen), a atual grade cinéfila que Antonia arquitetou celebra em destaque a autoralidade do cinema de sua pátria dia após dia, em horário nobre. Tem lugar sazonal lá para «Silêncio» (2016), de Scorsese, mas haverá sempre ribalta para os Carvanas da América do Sul.
Filmes de culto como «Redentor» (2004), «Rânia» (2011), «Hoje Eu Quero Voltar Sozinho» (2014), «Arábia» (2017) estão sempre na grelha de Antonia Pellegrino. Ela defende que o papel do cinema numa TV pública é formar plateia e isso, a partir de uma estratégia de diversidade, ela investe nas múltiplas autoralidades da sua nação.
Paralelamente ao empenho como gestora público, ela marcou seu nome da prosa brasileira com o livro “Cem Ideias Que Deram Em Nada”, onde monta um puzzle do quotidiano em flashes das angústias nossas de todo dia. Posicionada num posto de liderança numa emissora voltada para todas pessoas do Brasil (mas especialmente impactante entre as classes C, D e E, numa faixa etária 60+), Pellegrino apaixonou-se pelo cinema brasileiro depois de ver «Vidas Secas» (1963) numa mostra e não largou mais o osso.




