Banalmente direi uma banalidade (que me parece) essencial: este é um dos grandes filmes de 2001 e, mais do que isso, uma das obras mais fabulosas do cinema americano dos últimos anos.
Porquê? Porque raras vezes assistimos, assim, a um labor narrativo que, sem renegar um imenso leque de influências (conflui aqui todo o cinema liberal de Hollywood das décadas de 50 e 60), arrisca expor, ponto por ponto, a invenção do seu próprio sistema de linguagem.
Dito de outro modo: Steven Soderbergh filma os circuitos da droga a partir de uma estratégia que combina a sedução primordial da ficção com um impulso documental que se demarca, ponto por ponto, de todas as ilusões naturalistas favorecidas pela ideologia televisiva em que vivemos.
Semelhante estratégia é sensível, em particular, no assombroso trabalho dos actores (todos, sem excepção). Deles emana uma sensação de infinito detalhe que, por uma espécie de magia figurativa, conserva uma componente quase acidental, como se estivéssemos a assistir a poses e gestos no primeiro grau.
Apetece dizer que tudo isso estava já latente no primeiro filme de Soderbergh, «Sexo, Mentiras e Video» (1989) — provavelmente é excessivo dizê-lo, mas este frondoso realismo é também uma arte de lidar com o excesso de si mesmo que o real pode conter.
[Crítica originalmente publicada no site Cinema2000 a 2 de Março de 2001]
Título original: Traffic Realizador: Steven Soderbergh Intérpretes: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Don Cheadle, Luis Guzman, Dennis Quaid, Tomas Milian, Steven Bauer EUA/Alemanha, 2000




