Última Edição

Novidades

Não Desapareças Zendaya! Ainda menos por causa do Tom Holland

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

 

Entre blockbusters, romances mediáticos e um cansaço anunciado, Zendaya quer desaparecer e nós, que não estamos preparados para viver sem ela. “O Drama” está nas salas de cinema.

 

Estamos a passar por um momento na história de Hollywood em que percebemos que o sistema de estrelas já não funciona como antigamente. Já não há aquela figura distante, inalcançável, feita de névoa e glamour. Agora há proximidade, Instagram, entrevistas com lágrimas, podcasts com revelações existenciais e, claro, aquele conceito moderno e meio assustador chamado “investimento parasocial”, que é basicamente acharmos que somos amigos íntimos de alguém que nunca nos viu na vida. E é precisamente aqui que entra Zendaya, uma das últimas estrelas globais que ainda consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo: parecer acessível e continuar absolutamente inacessível.

E agora, imagine-se o drama (com ou sem maiúscula): Zendaya quer desaparecer. Sim, desaparecer. Sumir. Evaporar. Ir ali comprar pão e nunca mais voltar, metaforicamente, claro. Depois de um 2026 que parece menos uma agenda e mais um plano de ocupação militar de Hollywood, a atriz decidiu avisar o mundo: “Se calhar vou esconder-me um bocadinho.” E o mundo, naturalmente, entrou em pânico ligeiro, como quem percebe que pode ficar sem Wi-Fi emocional durante uns meses.

 

https://www.youtube.com/watch?v=MkJYSkaygi4

Porque convém contextualizar: Zendaya não vai simplesmente trabalhar muito. Ela vai dominar o calendário cultural como se fosse uma entidade reguladora. Primeiro, temos O Drama, — agora nas salas de cinema — essa comédia romântica imprevisível onde contracena com Robert Pattinson e basicamente desmonta a ideia de amor como quem desmonta um móvel do IKEA sem instruções. Logo a seguir, entra em campo a terceira temporada de Euphoria, que é, no fundo, a série onde a adolescência deixa de ser uma fase e passa a ser uma experiência traumática com banda sonora.

Como se não bastasse, temos ainda A Odisseia, de Christopher Nolan, o homem que transforma qualquer coisa — até um relógio de pulso — numa experiência existencial com três linhas temporais e um som que parece um avião a levantar voo dentro do cérebro. Depois, claro, regressa ao universo do Spider-Man, ao lado de Tom Holland, naquela relação que começou como química de casting e acabou como uma das narrativas românticas mais acompanhadas da cultura pop contemporânea. E, para fechar o ano em modo épico, temos Dune 3, porque aparentemente Zendaya decidiu que o deserto também precisava dela. Isto não é uma carreira. Isto é um takeover.

 

https://www.youtube.com/watch?v=Mzw2ttJD2qQ

 

E é precisamente aqui que começa a parte interessante — e ligeiramente cómica — desta história. Zendaya, no meio desta avalanche de visibilidade, diz uma coisa profundamente humana: “Espero que as pessoas não se cansem de mim.” Ora, isto é fascinante. Porque se há coisa que o público contemporâneo não sabe fazer é cansar-se de alguém de forma saudável. Ou amamos obsessivamente, ou cancelamos com a mesma intensidade. Não há meio-termo. Somos emocionalmente binários, como um interruptor defeituoso.

E talvez seja por isso que a ideia de “desaparecer” faz tanto sentido. Não como capricho de estrela, mas como mecanismo de sobrevivência. Porque hoje ser famoso não é apenas ser reconhecido — é ser permanentemente observado, analisado, interpretado, discutido, projectado. É viver dentro de um espelho onde milhões de pessoas acham que te conhecem melhor do que tu próprio. Zendaya percebe isso. E, ao contrário de muitos, não está interessada em alimentar o monstro indefinidamente.

 

https://www.youtube.com/watch?v=8TZMtslA3UY

 

Claro que depois há o elefante na sala — ou melhor, o namorado na capa das revistas: Tom Holland. E aqui a coisa ganha contornos quase sociológicos. Porque o público não quer apenas ver filmes com Zendaya. Quer acompanhar a sua vida amorosa com euforia, como se fosse uma série paralela. Quer saber se vão casar, se já casaram, se há fotos, se são verdadeiras, se foram geradas por IA, se o estilista disse isto, se o primo disse aquilo. É uma espécie de reality show involuntário onde os protagonistas não pediram para participar.

E o mais curioso é que Zendaya lida com isto com uma elegância que roça o milagre. Não rejeita o interesse, antes percebe-o. Mas também não se entrega completamente a ele. Estabelece limites. Diz: “Sim, compreendo, mas isto é meu.” E, num mundo onde toda a gente partilha tudo, este gesto é quase revolucionário.

Aliás, há uma frase dela que devia ser estudada em cursos de comunicação contemporânea: a ideia de que gosta de “preservar a alegria” dentro do espaço privado. Isto, hoje, é quase uma raridade. Porque vivemos numa cultura que transforma tudo em conteúdos, até a felicidade.

Mas voltemos ao essencial: Zendaya quer desaparecer. E nós não queremos que ela desapareça.

 

https://www.youtube.com/watch?v=3_9vCamtuPY

 

Não queremos porque ela representa qualquer coisa rara. Uma estrela que não parece cansada de ser pessoa. Uma atriz que consegue navegar entre o cinema de autor desconfortável e o blockbuster global sem perder identidade. Uma figura pública que entende o jogo mediático, mas recusa ser engolida por ele.

E, sobretudo, não queremos que desapareça… ainda menos por causa do Tom Holland.

Não por nada contra ele — pelo contrário, é simpático, talentoso, tem aquele ar de rapaz que ajuda a mãe a levar as compras — mas porque há sempre um risco subtil na cultura pop: o de reduzir mulheres extraordinárias às suas relações. De transformar carreiras em rodapés de histórias românticas. De fazer de alguém que domina Hollywood uma personagem secundária na narrativa de um casal.

E Zendaya não é isso. Nunca foi.

Ela própria explica que a relação se construiu com calma, sem nervosismo, com uma tranquilidade rara. E isso é bonito. Mas também é precisamente o tipo de coisa que não precisa de ser transformado em espectáculo contínuo. Talvez seja isso que ela está a tentar proteger quando fala em desaparecer. Não a carreira. Não o sucesso. Mas a possibilidade de continuar a existir fora do ruído. E, honestamente, talvez devêssemos deixar. Mas com uma condição: que volte.

 

https://www.youtube.com/watch?v=VobTTbg-te0

 

Porque há desaparecimentos que fazem falta. E há outros que deixam um vazio demasiado grande. Zendaya pertence claramente à segunda categoria. É daquelas presenças que, quando saem de cena, nos fazem perceber que afinal aquilo não era apenas entretenimento, era um certo equilíbrio raro entre talento, inteligência e consciência do mundo em que vive. Por isso, sim, vai lá esconder-te um bocadinho. Descansa. Desliga. Desaparece. Mas não demores muito.

Porque, no meio deste circo global de egos inflacionados, escândalos reciclados e filmes que parecem trailers de si próprios, precisamos de alguém que ainda saiba exactamente quando entrar em cena e, mais importante, quando sair dela. E tu, Zendaya, sabes isso melhor do que ninguém.

Artigos Relacionados