«John Wick: Capítulo 4» é um caso paradigmático onde as imagens valem mil palavras. A magnum opus do realizador Chad Stahelski, de mãos dadas com uma interpretação superlativa Keanu Reeves, permite afirmar sem espinhas que «John Wick: Capítulo 4» é um dos grandes filmes de acção de 2023. Neste género específico parece-nos imbatível. É um filme pensado em prol da experiência do espectador. Num ano de super-pesados o registo distingue-se por ser um festival de tiros e pancadaria ultra estilizado e inventivo do ponto de vista criativo e visual. E quando achamos que se atinge um ponto inultrapassável, em vários momentos da obra, Chad Stahelski e companhia sobem a parada. O filme é todo neste ritmo galopante até um desfecho em polaridade inversa, sendo mais pausado, mais sóbrio, solene e igualmente magnífico.

A narrativa assume contornos singelos e clássicos de um ronin (John Wick) obrigado a enfrentar o seu passado e focado em limpar o seu nome almejando ser reintegrado no panteão dos indiscutíveis assassinos natos que vivem e morrem pela sua honra. A acção assume-se rainha nos quatro cantos deste filme, nos interlúdios deste show define-se o enredo e as regras de jogo da mitologia Wick. Nesses momentos, interpretações do recém-falecido Lance Reddick, um actor magnífico (lembro-me do tremor de o ver pela primeira vez na clássica série de «The Wire» ou a presença inabalável no culto «Fringe»), e Ian McShane, que está sinuoso (como sempre), comprovando aquela ideia de que o Diabo se move, mesmo, de formas misteriosas. Ambos dão o mote daquilo que está em jogo: a procura da redenção versus a aniquilação de um homem sem palavra. O antagonista do filme é o Marquês (Bill Skarsgård), um petulante e presunçoso cobarde que se esconde atrás de armas, dinheiro e poder para lançar os cães de guerra e tentar vergar o ímpeto de John Wick. Temos outros personagens secundários com apontamentos interessantes, como o caso de Laurence Fishburne e Hiroyuki Sanada. Há igualmente um personagem enigmático: Tracker (Shamier Anderson) e a sua cadela, que são um artigo indefinido em relação a John Wick, e proporcionam boas sequências de interação com o nosso herói, especialmente o animal de quatro patas. Mas a figura de destaque desta obra é a presença da super-estrela asiática Donnie Yen que se deu muito mal nas produções de Hollywood no passado. Chad Stahelski abre o cardápio e deixa Donnie Yen fazer aquilo que melhor sabe afinal: partir a louça toda. Ele continua a ser um dos melhores artesões do género de artes marciais no grande ecrã. Donnie Yen interpreta o papel de Caine e as sequências deste samurai cego são bailados mortíferos com uma elegância arrepiante. Ah, e leram bem, o personagem é mesmo cego, tal qual a nossa paixão por este filme.

«John Wick: Capítulo 4» foi rodado em cinco países e isso nota-se na matriz desta obra. Os créditos iniciais referem o colectivo de stunts 87eleven, sobretudo na participação de 50 duplos numa sequência assombrosa no Osaka Continental. A saga continua a mesclar géneros de luta e inova aliando o Gun-Fu (as armas e artes marciais) ao Car-Fu (não confundam com o Hipermercado), que é como quem diz: artes marciais, armas e veículos em vertiginoso movimento – não estávamos mesmo à espera deste coelho saído da cartola. Neste último aspecto, resulta uma sequência gloriosa na rotunda do Arco do Triunfo. Há sequência de rave e pancadaria de meia-noite no clube nocturno em Berlim deixando a sala de cinema num estado de puro transe. A terminar, num dos momentos mais mirabolantes deste filme, está uma colossal batalha num edifício abandonado, onde um plano picado nos mostra os personagens como cobaias à solta num labirinto onde a presa se torna um predador implacável. É nestes momentos que perguntamos a nós mesmos o porquê destes incríveis feitos técnicos e o bailado de violência ultra coreografada, num processo meticuloso, não merecer toda a aclamação e os méritos da indústria. O filme puxa multidões e não desilude num esforço colectivo de fazer mais e melhor. «John Wick: Capítulo 4» é um soberbo espectáculo visual que nos deixa extasiados durante duas horas e 38 minutos (sem contar com os créditos). Visto em IMAX, o filme impõe respeito. É uma justa despedida de uma saga absolutamente memorável que termina nos píncaros do entretenimento.

Título original: John Wick: Chapter 4 Realização: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Lance Reddick, Ian McShane, Bill Skarsgård, Donnie Yen, Clancy Brown Duração: 169 min. EUA/Alemanha, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº93, Maio 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=oa50LTsyCdY
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