Em 2025, podemos afirmar que não há muitos realizadores a filmarem como Joseph Kosinski. Depois de «Top Gun: Maverick», onde ele voava bem alto, Kosinski continua a voar, agora, a poucos centímetros do chão. Ele continua a toda a velocidade, deixando a sua mestria técnica realizar uma proeza visual.
O centro narrativo de «F1» pertence a Brad Pitt no papel de um “gunslinger” das quatro rodas que persegue a paixão e a emoção das corridas de prego a fundo. Brad Pitt é um show!

O drama de «F1» cruza-se em cenas de pura adrenalina nas pistas e no drama fora delas. Além da idade de Sonny Hayes, a relação com o jovem e promissor piloto Joshua Pearce (Damson Idris) alimenta a trama do filme no choque de egos. É sobretudo a experiência de alguém que viveu (e correu) versus um jovem arrogante que é influenciado pelas redes sociais e o mediatismo do desporto, perdendo o foco do que realmente interessa: competir com e para a equipa em vez de pensar em si mesmo. É curioso este processo de crescimento de Pearce que se faz ao longo da narrativa, que contrasta com o processo de envelhecimento e a experiência de Hayes. Ele procura algo que não se traduz por palavras, fama ou dinheiro, mas na emoção do momento que dá lugar à melhor sequência do filme na recta final (e algumas curvas) desta épica obra. Há ainda mais duas subtramas, uma relação romântica com Kate, a engenheira da equipa que está bem interpretada com qualidade, e a gema irlandesa de Kerry Condon que formou uma bela parelha com Pitt numa relação natural e sem perder a identidade da personagem. E ainda existe a subtrama dos bastidores do controlo da equipa de Fórmula 1 liderada por Ruben, que está dividido entre a aposta que fez com o seu velho amigo Sonny Hayes e a responsabilidade perante o conselho de administração. O actor Tobias Menzies é o antagonista na história num papel demasiado type casting e sem surpresas. Há papéis menores, mas são muito estereotipados, veja-se o chefe da equipa (Kim Bodnia) e a mãe de Pearce, interpretada por Sarah Niles, que mesmo assim, dá o ar da sua graça.
O filme também tem uma luta interna em ser realmente um filme no ponto de vista narrativo e um postal ilustrado da F1. A interação com os astros do circuito F1 é apenas um cameo, os melhores momentos ficam sempre para os carros em pista. O filme também peca demasiadamente na locução das duas estrelas do comentário F1, Martin Brundle e David Croft. Eles são os comentadores oficiais do circuito, além da Sky Sports (em Inglaterra), eles fornecem o comentário em língua inglesa para muitos países do mundo. Eles são os melhores e imbatíveis na sua profissão, por exemplo, o comentário da ESPN/ABC (nos EUA) é deles. Brundle e Croft também são as estrelas deste filme, são narradores da acção dentro de pista, o que retira aquele lado cinematográfico onde as cenas podiam – e deviam – respirar livremente e apetece mesmo “desligar” os seus comentários de narradores activos.

Retirando esse handicap, «F1» vai ser um êxito estrondoso, pelo menos deixa essa sensação de emoção imediata quando vemos o filme que é bem mais emocionante do que a actual Fórmula 1. Um circo que funciona como um Golias do marketing e do festival global nos vários continentes por onde passa, mas em termos desportivos é uma procissão que dura hora e meia e onde duas ou três equipas lutam pela vitória. Actualmente as corridas de F1 – salvo raras excepções – são um soporífero e o filme de Joseph Kosinski é o inverso, é ritmo, é adrenalina, um olhar dos bastidores, das lutas internas na pista e o lado corporativo. É um trajeto de alguém rotulado como um “acabado” que prova que a experiência da vida vale ouro. A genética do protagonista é muito idêntica ao modelo do herói de «Top Gun: Maverick» interpretado por Tom Cruise.
«F1» é um filme marcante graças à visão de Joseph Kosinski e a um Brad Pitt em ponto rebuçado, é igualmente um triunfo para o espectador – o principal vencedor deste filme – a audiência é colocada no centro da acção e está dentro do cockpit de um grande espectáculo.
Título original: F1: The Movie Realização: Joseph Kosinski Elenco: Brad Pitt, Kerry Condon, Javier Bardem, Damson Idris, Tobias Menzies Duração: 155 min. EUA, 2025
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