No prestigiado Les Rencontres de Arles, Sam Stourdzé organizou um festival sob o título “My Body is a Weapon.” onde reuniu um grupo de fotógrafos dos anos 80 que tinham sido negligenciados ou esquecidos pelo mundo da Arte e que, a um tempo, usaram a fotografia como forma de resistência e resiliência a sistemas políticos opressivos. Dos vários nomes incluía-se Libuše Jarcovjáková que vê, finalmente, o seu nome catapultado para o panorama internacional.  A televisão checa lança o desafio a Klára Tasovská para um tele-filme sobre a agora reconhecida fotógrafa, mas o projecto consegue apoios que lhe permitem uma maior escala desembocando no actual “I’m Not Everything I Want to Be”, o primeiro filme a solo da realizadora. A artista checa começou a fotografar aos 16 e conta hoje já com 67 anos sempre com um percurso monoliticamente semelhante a si mesmo. No início do documentário, Jarcovjáková – aqui também narradora – começa por nos confessar que esperou cinquenta anos por este reconhecimento que, curiosamente, veio a coincidir com a quinquagésima edição do festival.

Se bem que a exposição nos tenha dado a conhecer o seu período dos anos 80 onde se focou sobretudo no tema queer – avant-la-lettre – documentando as formas de ser e viver de uma boémia contra-regime que se reunia num espaço noturno underground, o T-Club de Praga; a sua obra é, sobretudo, o relato de si mesma; como que um diário íntimo e intimista que testemunha, sem peias, a sua vida pessoal, profissional, amorosa e sexual. Um conto de alguém que se sentia sem propósito e fora do seu tempo e lugar. Começamos por conhecer a artista enquanto jovem, em plena ditadura comunista, onde parece ter uma única certeza: quer ser fotógrafa. Mas a sua personalidade tímida fá-la recear os retratos frontais recorrendo à captação dos seus modelos de costas. De forma mais ou menos consciente a sua obra entra, neste ciclo, no domínio do que em História da Arte se designa por rückenfigur: uma figura humana vista por trás a servir de ilustração a emoções como a vergonha, a tristeza ou a introspecção. Se bem que se encontrem muitos exemplos anteriores o topos terá sido estabelecido, durante o período do Romantismo Alemão, com a célebre pintura de  Caspar David Friedrich, «Der Wanderer über dem Nebelmeer» (1818). Posteriormente é recorrente em vários momentos, tanto na pintura como na fotografia e até no cinema como no incontornável «Vivre sa Vie» (1962)de Jean-Luc Godard que Jarcovjáková certamente conhecia. É atribuída a esta obra-prima da Nouvelle Vague a capacidade de ter construido uma estética da fragmentação e do desconforto, imbuída de um sentimento de alienação, que são também marca e firmamento da obra da fotógrafa.

O resto do seu trabalho, por entre viagens ao Japão e à Alemanha Ocidental e uns breves testemunhos dos modos de vida do povo Roma, centra-se numa obsessão por si própria, sob o peso de uma depressão que a persegue e corrói transmitida de forma dolorosamente crua. Os romances tentados e falhados, o desbragamento sexual, os abortos, os auto-retratos cruelmente capturados em ângulos e luz que a disformam, são a fonte da sua desesperada e desencantada imagénita. O abandono do Mundo e de si mesma é-nos relatado, durante 90 minutos, numa sucessão de slides de fotos tiradas de forma consecutiva apresentada, no documentário, como um ensaio fotográfico em formato de filme.  Todavia, a realizadora consegue acrescentar um dinamismo e intensidade visual que criam um ritmo e pathos que ultrapassa a mera projecção de slides. Este ritmo e pathos são, em grande medida, resultado de um sábio uso da banda sonora composta pelos sons electrónicos e minimalistas de Oliver Torr, Prokop Korb e Adam Matej. A passagem de batidas lentas e hipnóticas para sons frenéticos cria modelações a reflectir os estados de alma da fotógrafa. No restante tempo o vazio silencioso das imagens é preenchido, ora pelo relato murmurado da narradora, ora por sons que ilustram o que se observa: sejam eles os sons metálicos e mecânicos da gráfica onde trabalhou ou o burburinho de uma sala cheia ou a cacofonia do trânsito e dos transeuntes que passam.

Para o público nacional, este documentário mostra uma realidade muito semelhante à da nossa História mas num polo oposto e com uma década de distância: se por cá se viveu a opressão de um regime corporativista de Direita que amputou e cingiu o trabalho e criatividade dos artistas nacionais; por lá, o mesmo acontece com um regime comunista-soviético. Em Portugal, a luta e resistência levaram à Revolução dos Cravos; na Chéquia, conquistaram a Revolução de Veludo, catorze anos depois. Jarcovjáková viu, por duas vezes, a sua entrada negada na Universidade por não representar os ideais socialistas e por pertencer a uma «família não confiável», teve o seu primeiro contacto com a polícia secreta (Veřejná bezpečnost ) por ter recorrido a uma curadora opositora do regime, algo que tantas vezes aconteceu também em terras Lusas sob o jugo do Salazarismo e da infame PIDE. A acção da fotógrafa checa pode não ter sido de combate político, de uma manifestação contra o regime, mas constituiu-se outrossim por uma negação de fazer parte dos ideais e valores impostos: um resistência passiva, de abandono que se reflecte na sua obra. Por tudo isto, este documentário impõe-se como um  documento histórico necessário e fundamental. Diria mais, surge contra uma certa narrativa vigente, ou pelo menos mais dominante, de tantos outros documentários semelhantes de luta contra regimes opressivos de Direita fascista ou fascizante. Aqui vemos como os regimes comunistas totalitaristas foram apenas a outra face de uma mesma moeda. Mas para lá do campo político, “I’m Not Everything I Want to Be” é um hino aos artistas que, mesmo com as suas fraquezas, se mantêm sãos quando o resto do Mundo enlouquece.

Título original: Jeste nejsem, kým chci být Título internacional: I’m Not Everything I Want to Be Realização: Klára Tasovská Documentário 90 min. República Checa/Eslováquia/Áustria, 2024

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