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Crítica CÃO PRETO – estreia TVCine

No plano inicial de «Guo Zheng» («Cão Preto»), 2024, de Guan Hu, uma panorâmica da esquerda para a direita revela-nos um espaço natural de vegetação rarefeita, atravessado por rajadas de vento, onde o mundo visível parece ser a consequência de uma herança milenar. Trata-se de uma visão majestosa e monocromática de uma realidade geográfica em que aparentemente pouco ou nada se passa. De súbito, numa correria desenfreada, uma matilha de cães invade o ecrã e espalha-se pelos quatro cantos da paisagem. De onde vieram? Para onde vão? Perguntas legítimas, cujas respostas serão dadas por quem os quer capturar poucos minutos depois. Todavia, antes de sabermos que aqueles canídeos são uma ameaça para a saúde pública, assistimos a um acidente rodoviário. Um autocarro despista-se, precisamente por causa dos animais em fuga, vira-se de lado, e os seus passageiros passam um mau bocado. No rescaldo, seremos introduzidos ao nosso protagonista humano, o circunspecto e reservado Lang (Eddie Peng), que procura manter uma relativa distância face aos homens, mulheres e crianças que com ele viajavam. Saberemos mais adiante que esteve preso, encontrando-se agora em liberdade condicional.

Para os devidos efeitos, a acção decorre na República Popular da China nas vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão, realizados no ano de 2008. Tempos de inequívoca afirmação do poder social, económico, desportivo e cultural de um país que hoje se perfila como uma das potências de maior peso e influência, sobretudo na vastidão estrategicamente relevante da Ásia-Pacífico. Não obstante, a cidade para onde o realizador nos irá convocar a atenção está longe de ser exemplar. Pelo contrário, metade dos prédios estão ao abandono e os poucos habitantes que ficaram moram em casas antigas, mais ou menos degradadas. Por sua vez, as ruas já não são o resultado de um anterior e porventura meticuloso planeamento urbanístico. Numa palavra, esta antiga cidade industrial vive os seus derradeiros dias e está prestes a ser demolida para ali se erguer a nova e cosmopolita morada dos que irão usufruir de um futuro seguramente radioso, de acordo com as promessas oficiais ou, pelo menos, melhor do que o passado que os seus pais conheceram. Este conceito de progresso material será igualmente aplicado a uns cachorrinhos filhos do protagonista animal, nem mais nem menos, o cão de quem se fala. E fala-se dele porquê? Porque no mundo dos cães há sempre uns que são mais cães do que os outros e, neste caso, calhou a sorte a uma espécie de galgo de cor preta alcançar o lugar de coprotagonista. Parece ser um whippet, mais esguio do que magro, muito ágil e elegante. Mas este cão de raça revela sintomas de estar infectado com o vírus da raiva. Logo, precisa de ser capturado. Por mero acaso, Lang vai descobrir o seu paradeiro e repara que o dito alça a perna no mesmíssimo local onde ele antes urinara, ou seja, a parede de um prédio devoluto onde o animal se escondera. Lang vai então usar diversos expedientes para o agarrar e após algumas peripécias acaba por levá-lo para casa. Não sem antes sofrer umas mordidelas, nada meigas. E, por isso mesmo, ficam ambos de quarentena. Entretanto, Lang participa na batida aos restantes cães vadios, mas há qualquer coisa que o distingue dos outros cidadãos contratados para o efeito. Nota-se que não gosta de ver o chamado melhor amigo do homem encarcerado em jaulas, parecendo sentir na agitação dos cães capturados a imagem fantasmática e angustiante das agruras de estar preso. Na verdade, condição que ele experimentara por um crime que nunca será completamente esclarecido, mesmo pela família da vítima que o persegue e ameaça num processo de “natural” vingança. Estes serão os dados primordiais lançados pelo realizador e coargumentista como matéria para o evoluir dos principais conflitos dramáticos de «Cão Preto». Precisamos apenas de acrescentar que Lang, uma vez na cidade, vai ao encontro do pai, que gere um jardim zoológico sui generis com os parcos recursos que possui e que, antes do incidente que o empurrou para a prisão, fora motociclista acrobático e músico. Pelo que se ouve, com algum sucesso e fama. Pelo meio, assistimos a um gradual reforço da relação homem/animal e ainda a um sismo, a um eclipse solar e ao relativo “furor” que a passagem de uma companhia de circo provoca naquele autêntico fim do mundo, circo no seio do qual Lang encontra motivos para iniciar um frágil romance com uma mulher casada, ou melhor, mal casada.

Do ponto de vista estrutural, uma das marcas salientes desta produção pode ser encontrada na seguríssima Direcção de Fotografia de Gao Weizhe. Há aqui um domínio rigoroso das coordenadas entre os espaços exteriores naturais e os interiores que restam da malha urbana da que fora outrora uma cidade com alguma dimensão e importância. Precisão visual que nos permite seguir os passos de Lang e do cão preto nas “paisagens” perdidas de arquitecturas passadas e decadentes e nas que perduram e florescem desde há séculos nas regiões circundantes do Deserto de Gobi, Noroeste da China, cuja horizontalidade irá influenciar a composição da maioria dos planos e consolidar a unidade das sequências onde os mesmos se inserem. Num exercício de complementaridade exemplar, deu-se igualmente a devida atenção aos pormenores da cenografia correspondentes aos ambientes privados e públicos, que aqui obedecem a uma paleta de luz e cor onde predominam matizes cromáticas similares ao lado orgânico da Natureza, no caso, as cores do deserto. Finalmente, não podemos esquecer o modo como neste filme o reino animal se impõe como espelho e reflexo da condição humana. Noção que sobressai do que faz e não faz o cão preto (mais do que um animal de estimação, o verdadeiro e leal companheiro de Lang) e da mestria com que foram ensaiados e articulados os percursos dos restantes cães, assim como de outras surpreendentes alimárias que pela cidade e arredores serão vistas a vaguear. Perto do fim, há um momento fabuloso de artifício ficcional onde a verdade material das coisas se conjuga com a perfeita manipulação da fantasia cinematográfica: Lang atravessa em silêncio, mota desligada, um grupo de cães selvagens que o rodeia e com o qual se cruza nos caminhos de fuga do deserto e, acreditem, nem Walt Disney e o seu habitual e recorrente antropomorfismo conseguiria dar igual personalidade e espessura psicológica a bichos que em «Cão Preto» não são meros simulacros deles mesmos, nem precisam de vocalizar o que quer que seja para “falarem” connosco. Para dar espessura dramática a esta sequência, e não apenas um breve e fugaz valor simbólico, ou até surreal, foi vital dominar a coreografia dos movimentos caninos e obter o pleno controlo dos seus comportamentos. Tensão primeiro e depois um intrigante repouso. Forças, geradas numa espécie de rota de colisão existencial, que se anulam como se fossem duas faces da mesma moeda que por fim se combinam num quadro de fuga e redenção. Lang, o ser racional que deseja um novo rumo, não esmaga nem se sobrepõe ao irracional, o mundo dos cães vadios e sem dono. Será esta porventura a melhor chave para interpretar a história da singular relação de um homem, que quer ser livre, e do seu cão preto (cujo legado irá perdurar num outro, e mais não digo para salvaguardar a derradeira surpresa). Narrativa imaginada por um realizador já experimentado no cinema de grande aparato financeiro e logístico, que nesta obra quis seguir caminhos mais pessoais, entrelaçados numa sólida filigrana de acções e emoções. Projecto fílmico digno do melhor cinema de autor.

No Festival de Cannes de 2024 recebeu o Prémio de Melhor Filme da secção Un Certain Regard. No mesmo ano, e no LEFFEST, recebeu o Prémio do Júri.    

Título original: Gouzhen Título internacional: Black Dog Realização: Guan Hu Elenco: Eddie Peng, Liya Tong, Jia Zhang-ke Duração: 116 min. China, 2024

FESTIVAIS: VENEZA VS. CANNES
7 de setembro | TVCine Edition

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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