Primeira longa-metragem do romeno Bogdan Muresanu, «O Ano Novo Que Não Aconteceu» («Anul Nou Care n-a Fost»), 2024, concentra a acção em dois dias decisivos na História da Roménia, a saber, os dias 20 e 21 de Dezembro de 1989. Neste último, na sequência de uma manifestação de apoio ao poder e ao Presidente Nicolau Ceausescu, uma série de confrontos de cariz insurreccional foram gerados a partir da multidão que ao início o aplaudira. Tiveram origem em protestos (primeiro dissimulados, depois mais abertos e sobretudo audíveis) num grupo de manifestantes que havia como os demais sido impelido a reunir-se para os devidos efeitos políticos numa grande praça da capital, Bucareste. Deste modo e de forma mais ou menos organizada, alguns opositores do regime respondiam de forma activa, pouco depois violenta, contra os graves e sangrentos incidentes que haviam ocorrido antes na cidade de Timisoara. Na verdade, foi nesta última que a chamada Revolução Romena deu os primeiros passos para a mudança radical que se viria a operar. Tudo começou com a contestação ao afastamento de uma figura carismática do clero, a que se seguiu uma repressão militar que resultou num número muito significativo de baixas civis. Factos condenados na altura por muitos países, entre os quais os EUA e a então União Soviética. Será importante acrescentar que o regime romeno, dito socialista, na prática seguia uma linha programática e ideológica que o afastou da maioria dos países que na época se perfilavam na esfera de influência soviética, privilegiando um nacionalismo populista que replicava algumas idiossincracias autoritárias, que de socialistas só ostentavam o nome, para efeitos de marketing político. Enfim, de forma muito sucinta fica aqui o essencial do que precisamos saber para melhor apreciar e compreender as circunvoluções propostas no guião e os diferentes percursos pessoais, com reverberação colectiva, sobre os quais o realizador e argumentista incidiu a atenção na sua primeira obra de fôlego. Filme cuja designação «O Ano Novo Que Não Aconteceu» abre uma boa dose de interrogações, especialmente quando nos lembramos da recente viragem política da Roménia a favor da extrema-direita, no dia em que escrevo estas linhas consubstanciada nas urnas e numa expressiva votação que favorece um candidato presidencial pouco recomendável.

Senti necessidade de fazer esta breve introdução porque as linhas gerais do argumento parecem ser as de quem partiu do princípio que a maioria dos espectadores sabe o que se passou e sabe separar a verdade da ficção num inevitável exercício de contextualização. Lamento, mas até na Roménia muitos dos que hoje votam e não viveram aqueles dias e anos de brasa provavelmente o que conhecem são relatos filtrados por quem ocupou posteriormente o poder. Mais, são homens e mulheres acossados e desiludidos com sucessivas crises políticas e económicas, novos e velhos que ignoram o passado na sua obsessiva e por vezes frustrante procura de soluções para um futuro melhor, perspectiva que será sempre frágil se evitarem analisar com frieza e ponderação quer as glórias passadas quer os erros cometidos.
De entre os diferentes episódios, que apesar de manterem uma certa autonomia ao longo da narrativa convergem para uma resolução comum, um sobressai dos restantes: a história da actriz que, contra a sua vontade e posicionamento ideológico, será convocada para substituir o rosto de uma outra que acabara de ser identificada como dissidente. Nada de novo ou de muito especial no mundo da propaganda, não se desse o caso de a assumida opositora ao regime ser o rosto inicialmente escolhido para papaguear em grande plano e no pequeno ecrã uma saudação de ano novo a Nicolau Ceausescu. Mensagem dita no melhor (pior) estilo associado ao culto da personalidade. Palavras que soam a falso e cuja formulação, mesmo numa vertente mais séria e oficial, só nos provocam um largo e sarcástico sorriso. Enfim, podemos dizer que a ideia do autor era boa, ou seja, gerar com este imbróglio uma inesperada perplexidade nos representantes do poder. Mas fica uma pergunta no ar. Perante os que insistem em aproveitar o plano geral já gravado, onde a actriz persona non grata se encontra rodeada por um grupo de cidadãos (logo, embrulhada no colectivo), propondo apenas a sua substituição por uma actriz fisicamente similar no grande plano a gravar com a declaração patriótica, pergunto se não seria mais fácil descartar os dois planos e voltar a refazer o frete audiovisual com outro grupo e essa nova actriz? Já agora, não abandonem a sala logo que surja o genérico final, porque uma derradeira surpresa relacionada com este episódio está guardada para o pós-genérico. E mais não digo!

Das restantes histórias, salientam-se as hesitações e peripécias geradas durante a fuga de dois jovens estudantes (um deles filho do realizador de TV encarregado de salvar a referida saudação de ano novo) que procuram alcançar a fronteira e as margens do rio Danúbio. Passagem arriscada para uma vida supostamente não condicionada, mas num outro país. Episódio onde com perfeita acuidade não se esconde a natureza canalha daqueles a quem os jovens pagaram para dar o salto a nado para o outro lado. Mais densa e complexa podemos considerar a história da relação entre mãe e filho, ele um agente da polícia secreta, a Securitate, ela uma antiga militante comunista desiludida com a realidade presente que já não correspondia aos ideais de outras eras. Ele procura convencer a mãe a abandonar uma casa antiga que vai ser demolida, moradia relativamente ampla mas sobretudo povoada de memórias que correspondiam ao mais profundo do seu património identitário e familiar, algo que dificilmente se encontraria nas instalações de um “anónimo” apartamento moderno. Na mudança para a nova casa iremos conhecer um operário que será mais adiante protagonista de um dos episódios mais amargos, mas polvilhado de humor, digamos, negro (aqui a cor do desespero e do medo).

Bogdan Muresanu, antes de se aventurar na longa-metragem, conheceu o sucesso no domínio das curtas-metragens. Em declarações que fez a propósito da génese de «O Ano Novo Que Não Aconteceu» confessou que uma dessas curtas, «O Presente de Natal» («Cadoul de Craciun»), 2018, foi a que espoletou a ideia para uma mais vasta abordagem da matéria ficcional que lhe interessava desenvolver. De um modo geral, quadros da vida de um grupo de pessoas confrontadas com os seus receios e, porque não dizê-lo, com os seus limites e contradições existenciais. De facto, um dos expedientes dramáticos que dão corpo e alma ao exercício de composição dos actores ”protagonistas” foi usado pelo realizador com grande eficácia e num pressuposto que se pode descrever como o acto de colocar as personagens perante situações que pareciam impossíveis de ultrapassar ou, pelo menos, muito difíceis de superar. Todavia, os seus destinos, que pareciam caminhar para o abismo, irão sofrer uma guinada revolucionária e redentora, acabando a realização por os retratar no campo ilusório e simbólico onde se incluem as chamadas figuras heróicas. No fundo, são os heróis contra os vilões, conforme os lados da barricada em que se encontram. Dito isto, a história do pai-operário da curta «Presente de Natal», que no presente filme foi recuperada, mais do que recriada, ganha um peso brutal porque nela descobrimos que o filho escreveu uma carta ao Pai Natal (ou seja, a uma instituição oficial encarregada de gerar essa fantasia e onde essas missivas seriam quase de certeza lidas) afirmando, preto no branco, que o progenitor desejava como presente natalício a morte do ”Tio Nic”, leia-se, a morte de Nicolau Ceausescu. Não será difícil imaginar o pavor gerado por esta inconfidência ingénua e infantil. Perante o espectro de ser preso, o pai procura com a mulher desesperadas soluções para destruir a carta já enviada. Sem dúvida, a realização atinge aqui o seu ponto vital, aquele que descreve sem demagogias o sentimento de impotência do cidadão comum, a incapacidade daqueles pais inventarem uma escapatória de dissimulação que salvasse a família, mantendo na sombra as suas opiniões contrárias ao regime. Pessoas sinceras mas, por outro lado, castradas na sua dor e sem vontade de dar a cara pela resistência. Na prática, vítimas de uma desorientação de classe feita com base numa certa má-consciência do proletariado que sustentava, com alguns sectores da pequena-burguesia, voluntária ou involuntariamente, a burocracia estatal e o regime do faz de conta. De forma compreensível, sim, mas nem sempre de forma corajosa ou solidária com aqueles que haviam assumido ou iriam assumir um decisivo e frontal protagonismo revolucionário. Recordemos que a narrativa proposta decorre numa Roménia onde numa outra cidade, que não a capital, a revolução já estava na rua.

Destaque para a Direcção Artística (Victor Fulicea e Iulia Negoescu), pela excelente reconstituição histórica, e para a Direcção de Fotografia (Boróka Biró e Tudor Platon), que assume a proporção 4:3 até ao momento de viragem final que abre “revolucionariamente” para 16:9, prenunciando o fim do regime. Tudo, imaginem, ao som do Bolero de Ravel. Fica-se então a derradeira sequência pelas imagens da manifestação interrompida e pelas imagens de perplexidade dos representantes do poder, pelas fugazes imagens da repressão e ainda pelas da posterior mudança de atitude de alguns sectores militares a favor dos revolucionários. Mas evita-se qualquer comentário sobre o que aconteceu a seguir. Percebe-se, porque alguns acontecimentos não foram nada bonitos de se ver. Trata-se de uma opção que favorece, parafraseando declarações do realizador, a filosofia de “feel good movie”, que muito sinceramente desvirtua as melhores intenções de um projecto que, mesmo assim, vale a pena visionar.
Em 2024, recebeu no Festival de Veneza, na secção Orizzonti, o prémio para Melhor Filme. Recebeu ainda o Prémio da FIPRESCI (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica).
Título original: Anul Nou care n-a fost Título internacional: The New Year That Never Came Realização: Bogdan Muresanu Elenco: Adrian Vancica, Nicoleta Hâncu, Emilia Dobrin Duração: 138 min. Roménia, 2024
FESTIVAIS: VENEZA VS. CANNES
7 de setembro | TVCine Edition

