Relato de audácia de um agente da CIA (Tony Mendez), que, em 1980, preparou e executou o resgate de seis americanos que conseguiram fugir da embaixada americana em Teerão quando a mesma foi invadida por estudantes islâmicos a 4 de Novembro de 1979, Argo é uma das melhores produções americanas de 2012.

Aquando da invasão, 52 diplomatas norte-americanos não conseguiram escapar e ficaram em cativeiro durante 444 dias. Eram dias conturbados no Irão, após a deposição do Shah e o fim da monarquia, e o início da revolução islâmica liderada pelo clérigo radical Ayotola Komeny. O filme começa justamente com uma contextualização dos eventos que levaram à tomada da embaixada, relatando-se as clivagens políticas e os abusos do regime. Esse trecho deixa bem claras as intenções do cineasta em almejar um retrato imparcial num filme que não é um documentário e contém obviamente sequências ficcionadas. Na sua terceira obra como realizador, após «Vista Pela Última Vez…» (2007) e «A Cidade» (2010), Ben Affleck está perfeito dos dois lados da câmara, conseguindo dar a grandiosidade merecida a uma história secreta baseada em factos verídicos que tem na base trechos de The Master of Disguise, o livro de Tony Mendez, e um artigo na revista Wired.

Argo desenrola-se em quatro palcos: Teerão, com os seis americanos refugiados na casa do embaixador canadiano; Washington, equilíbrio da diplomacia internacional; Langley, o centro de operações da CIA; e Hollywood, onde se estabeleceu a fachada para o improvável álibi que possibilitaria a saída dos americanos do Irão. Nestes vários pontos de interesse, mais uma vez, a credibilidade e a classe dos actores envolvidos elevam a tensão na descrição os acontecimentos, sendo que na perspectiva desenrolada em Hollywood incute-se o humor e as reminiscências da atmosfera da época na “Tinseltown”, ainda sob a influência do fenómeno Star Wars.

O argumento ficou a cargo de Chris Terrio e num filme à prova de bala, os detalhes dos valores de produção foram muito bem estudados e passados para o ecrã. Houve um enorme esforço para tentar fundir realidade com ficção e um exemplo deste facto é a incrível cena de abertura da tomada da embaixada americana (não existiam imagens de vídeo, apenas fotografias), onde Ben Affleck mesclou imagens de Super 8 com os 35 mm, dando uma aura de cruzamento entre o documental e o ficcional.

A extensão deste modelo faz-se no guarda-roupa, nos carros e na preparação das localizações (imagens dos noticiários da época, a música e até os jornais). Nas mãos certas, Argo ganhou o tratamento de um thriller dramático com contornos internacionais que nunca abandona o pulso da realidade.

Título original: Argo Realização: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Victor Garber, Kyle Chandler. Duração: 120 min EUA, 2012

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº9, Maio 2013]


https://www.youtube.com/watch?v=T29kIOXpj6o
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