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Star Wars: The Mandalorian e Grogu – Jon Favreau

Era um dos filmes mais aguardados do ano. Ou dos últimos sete anos, desde que o derradeiro título das trilogias imaginadas por George Lucas chegara às salas de cinema. Entretanto, «The Mandalorian» transportava o espírito da saga “Star Wars” para os ecrãs de televisão. Jon Favreau, criador da série, assina agora também «Star Wars: The Mandalorian e Grogu», onde Pedro Pascal retoma a sua personagem de caçador de recompensas, acompanhado pelo jovem aprendiz, Grogu. Sigourney Weaver é a novidade do filme, que também tem uma personagem com a voz de Martin Scorsese.

Quando é que «Star Wars: The Mandalorian e Grogu» começou a ser pensado como filme?

Jon Favreau: Tivemos uma pausa no trabalho devido aos confinamentos e, mais tarde, houve uma greve em Hollywood. Quando saímos desse período, apercebemo-nos de que já tinham passado, ou estariam prestes a passar, quase sete anos entre filmes de “Star Wars”. A Disney e a Lucasfilm abordaram-me então com a possibilidade de levar estas personagens ao grande ecrã. Diria que começámos este processo há cerca de três anos.

Como é que entendeu o convite? Como uma forma de fazer coisas que não podia fazer na série?

Jon Favreau: Antes de mais, queria certificar-me de que daria um bom filme. Na televisão, estamos a prolongar uma história. Mas quando se traz “Star Wars” de volta às salas de cinema pela primeira vez em muito tempo, existe a expectativa de que se esteja a convidar novos espectadores. E, embora as pessoas já conhecessem estas personagens, não sabiam necessariamente mais do que isso. Portanto, tivemos de começar com uma aventura completamente nova, um novo argumento.

Trabalhar no formato IMAX também deve ter sido fascinante…

Jon Favreau: Sempre associei “Star Wars” a multidões, salas de cinema, grande ecrã. Tive a minha primeira experiência com “Star Wars” aos dez anos, quando vi o filme original. Por isso, quis garantir que tirávamos o máximo partido do que um lançamento cinematográfico nos podia oferecer. Uma das vantagens era termos mais tempo e mais recursos. E, claro, uma tela muito maior onde trabalhar. Fizemos parceria com a IMAX logo desde o início e certificámo-nos de que aproveitávamos ao máximo o formato de imagem.

Desde esse último filme, há sete anos, a tecnologia evoluiu bastante.

Jon Favreau: Pudemos incluir personagens criadas com CGI de última geração, como o Rotta the Hutt, a personagem do Martin Scorsese. Temos o Zeb, que é um favorito dos fãs. Portanto, estamos a introduzir todas estas novas personagens, ou personagens novas em live action,  a novos públicos. E ter personagens totalmente animadas, realizadas pela ILM, era uma proposta muito interessante e certamente algo que nunca teríamos conseguido fazer antes.

Como é que foi para si dirigir o Martin Scorsese?

Jon Favreau: Ele é um dos meus heróis. Cresci a ver os filmes dele. Fui claramente influenciado, especialmente na fase dos meus filmes independentes, pelo que ele fez. Tive a sorte de trabalhar com ele como ator em “O Lobo def Wall Street”, embora não tivéssemos uma relação próxima ao ponto de nos considerarmos amigos. Mas conhecia-o minimamente e ele não podia ter sido mais simpático e cordial.

Como é que ele se portou, enquanto ator, mesmo se “apenas” tenha dado a voz à personagem?

Jon Favreau: Foi uma sessão relativamente curta para gravar a voz, mas também filmámos tudo para servir de referência aos animadores. E ele improvisou. Ficou muito à vontade para ser livre e brincalhão enquanto intérprete. Por muito intimidado que eu estivesse, ele deixou-me completamente à vontade. Acabámos a improvisar um com o outro e depois pegámos nessa interpretação e editámo-la até obtermos a performance que serviu de base à animação. É isso que se vê no filme.

O que mudou na sua abordagem enquanto realizador por filmar para o IMAX?

Jon Favreau: O IMAX influencia tudo. Embora muitas pessoas acabem por ver filmes em casa, num ecrã do tamanho que cabe na sala de estar, o IMAX cria uma experiência imersiva. Não é apenas o tamanho da imagem. Os realizadores que admiro e que já usaram este formato apostaram muito nessa qualidade imersiva. Ocupa toda a visão periférica. É um ecrã gigantesco, do tamanho de uma parede. E, em “Star Wars”, isso é crucial.

Ao longo da sua carreira, explorou a paternidade de diferentes formas. E essa temática volta a estar presente neste filme.

Jon Favreau: Nem sempre temos consciência do que estamos a fazer. Mas quando olho para trás e vejo os trabalhos que fiz, começo a notar certos padrões. E acho que a relação pai-filho é uma parte importante do meu universo. Imagino que seja porque fui criado pelo meu pai. Perdi a minha mãe ainda muito novo. E depois também me tornei pai na vida adulta. Ter filhos redefine-nos completamente. A geração que cresceu a ver “Star Wars” pela primeira vez nas salas de cinema, como eu, é agora uma geração de pais.

Como surgiu a ideia de trazer Sigourney Weaver para a série?

Jon Favreau: Os filmes beneficiam sempre da presença de estrelas. E a Sigourney Weaver não é apenas uma estrela adorada por todos. Dentro dos filmes de género, ela ocupa um lugar muito especial. Interpretou inúmeras personagens icónicas em franquias muito populares. Claro que toda a gente pensa logo em “Alien”, mas eu penso também em “Ghostbusters” e sobretudo em “Galaxy Quest”. Há muito tempo que é uma favorita dos fãs.

Como é que se recompensa os fãs de longa data e, ao mesmo tempo, se acolhem novos espectadores?

Jon Favreau: Enfrentámos um desafio semelhante logo no primeiro episódio da primeira temporada da série televisiva. Queríamos trazer um novo público para dentro deste universo, por isso procurámos pistas na forma como George Lucas fez isso originalmente. O George Lucas planeou inicialmente “A New Hope” que, quando eu o vi, era apenas “Star Wars”, sem subtítulo, inspirado nos seriais de sábado à tarde que via no cinema quando era criança, como “Flash Gordon”.

De que forma recuperou essa forma de pensar do George Lucas?

Jon Favreau: Ele dizia em entrevistas que havia algo de muito inteligente na ideia de entrar numa história já a meio de uma aventura. O texto inicial do filme contextualizava tudo. Temos um caçador de recompensas a perseguir maus da fita em nome dos bons. E aqui está o seu protegido, companheiro e aprendiz: Grogu. Felizmente, ambas as personagens já são muito conhecidas no imaginário popular, sobretudo graças às redes sociais. Desde que se percebesse quem eram estes dois, podíamos lançar o público numa nova aventura.

E como é que se recompensa os que são fãs desde a primeira hora?

Jon Favreau: Os fãs de “Star Wars” são incrivelmente atentos. Falam entre si, criam teorias e basta dar-lhes pequenas pistas para conseguirem montar o puzzle muito rapidamente. Portanto, convém deixar algumas coisas em aberto. Mas eles sabem que gostamos de recuperar elementos mais obscuros do universo que ainda não foram explorados, bem como mostrar desfechos inesperados para personagens que conheceram há anos noutras histórias.

A que se deve a longevidade do universo “Star Wars”?

Jon Favreau: Acho que aquilo que “Star Wars” consegue captar é que as vidas destas personagens são moldadas pelas escolhas que fazem ao longo do caminho. O que torna “Star Wars” duradouro, e explica porque continua relevante há quase cinquenta anos, não são apenas os sabres de luz ou os efeitos visuais. São também as histórias míticas que estão no centro de tudo, aquilo que George Lucas colocou nas suas narrativas.

Que memórias guarda de quando viu os primeiros filmes?

Jon Favreau: O truque em “Star Wars” foi sempre pegar em algo aparentemente absurdo e tratá-lo com sinceridade. Era assim que Harrison Ford e Luke Skywalker eram interpretados. Eles não piscavam o olho ao público. A Carrie Fisher levava tudo muito a sério. E eu, enquanto jovem espectador, apreciava isso porque via aquelas histórias como algo sincero. Claro que a geração dos nossos pais via aquilo como um conto de fadas divertido. Mas, para nós, era tudo. E é por isso que tentamos contar estas histórias de forma honesta e sentida.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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