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Mais Forte do Que Eu

Com melhores ou piores intenções, há muitos filmes que falham por transformar o sofrimento em espectáculo. «Mais Forte do Que Eu», de Kirk Jones, faz o contrário: aproxima-se de um tema bastante difícil — a síndrome de Tourette e a violência social que a acompanha — sem nunca se deixar cair nem no miserabilismo emocional nem na versão higienizada e inspiracional tão comum neste tipo de dramas biográficos.

Baseado na história real de John Davidson, diagnosticado com Tourette numa época em que a condição era largamente incompreendida, o filme aborda décadas de humilhação, isolamento e incompreensão, mas sobretudo a lenta construção de uma identidade e de uma capacidade de resistência extraordinárias. O facto de assentar num exemplo da vida real é absolutamente estruturante para a sensação de verdade que atravessa o filme. E Robert Aramayo, que interpreta John na fase adulta, tem aqui um papel particularmente exigente, não apenas pela componente física dos tiques e vocalizações, mas porque evita transformá-lo numa personagem definida exclusivamente pela sua condição. Há humor, embaraço, raiva, ironia e até um certo charme desalinhado na forma como o interpreta. E é precisamente esse equilíbrio que o filme consegue atingir de forma surpreendente: nunca banaliza a violência emocional e física que John sofre, mas também nunca deixa que o espectador fique reduzido à compaixão passiva.

Kirk Jones filma alguns momentos realmente difíceis — a exclusão familiar, a crueldade na escola, a incompreensão institucional — com frontalidade suficiente para serem incómodos, mas sem carregar artificialmente no drama. O filme percebe que a violência quotidiana não precisa de música manipuladora ou grandes discursos para doer. Basta mostrar o silêncio, o constrangimento, os corpos a afastarem-se. E, talvez por isso, os momentos de humanidade acabam por surgir com uma força inesperada.

Existe também uma inteligência importante na forma como «Mais Forte do Que Eu» recusa transformar John num “herói inspirador” no sentido fácil da expressão. O filme não romantiza a superação. Mostra antes alguém obrigado a viver constantemente em confronto com o olhar dos outros — e que, apesar disso, encontra formas de existir com dignidade e até humor.

No final, o que fica não é apenas a história de uma condição neurológica ou de um activista importante, mas o retrato de uma pessoa concreta, contraditória, vulnerável, humana. E talvez seja precisamente essa recusa em simplificar o sofrimento que torna «Mais Forte do Que Eu» tão convincente.


Título Original: I Swear
Realização: Kirk Jones
Actores: Robert Aramayo, Maxine Peake, Somerled Campbell
Duração: 120’
Ano: 2025
Origem: Reino Unido

Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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