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O Barqueiro – Simão Cayatte

Depois da estreia nas longas-metragens com «Vadio» (2022), Simão Cayatte regressa com «O Barqueiro» (2026), depois dum convite do produtor Paulo Branco. É a história de Joaquim, ex-recluso, nos dias seguintes à saída da prisão, que procura cumprir um objetivo determinante: juntar dinheiro para comprar um piano para a sua filha adolescente. Para isso, o protagonista vai trabalhar como barqueiro no rio, transportando mariscadores de origem tailandesa para os locais da apanha. A estreia do filme nas salas nacionais, que ocorre em simultâneo com a apresentação em festivais, foi a oportunidade ideal para conversar com o realizador, no cinema Nimas, sobre questões suscitadas ao longo do projeto, como a reabilitação prisional, as relações de paternidade e a questão da imigração em Portugal, relativa aos mariscadores de origem estrangeira. Simão revelou-nos como trabalha com os atores, em plateau e como foi escolhido o elenco de luxo que protagoniza a ação –o protagonista Romeu Runa e Miguel Borges, Jani Zhao, Isabel Zuáa ou Sandra Faleiro, entre outros; a composição dos belíssimos planos do filme foi ainda outro aspeto revelado pelo realizador, que teve a colaboração preciosa do diretor de fotografia polaco Bartosz Swiniarski, com quem já trabalhara nos projetos anteriores.  

Vamos começar pela origem do filme. Qual a génese deste projeto?

Simão Cayatte : O Paulo Branco (produtor) veio ter comigo depois de estrear o «Vadio» (2022) e desafiou-me a fazer um filme em conjunto. Ele tinha encomendado um guião à Filipa Martins e ao Vasco Gato, mostrou-me o guião e a partir daí, trabalhámos em conjunto, os três, a história. A intriga foi crescendo, organicamente. Essa foi a génese do projeto.

O argumento já estava escrito? Participaste também na escrita do argumento, na construção?

Simão Cayatte: Sim, havia uma primeira versão sobre o Joaquim (protagonista), este ex-recluso que saía da cadeia e tratava a sua reintegração, o contato ao longe com a família, a comunidade dos tailandeses, a forma como o Fernando lhe dá emprego. Mas, depois, os três, eu, a Filipa e o Vasco, decidimos levar a história para um lugar que tinha mais a ver com esta ideia do fantasma! E se o Joaquim não saísse da prisão? E ficasse nas sombras? Isso intrigou-me bastante, essa possibilidade de poder colocar este personagem entre dois mundos.

Fizeste pesquisa para este trabalho em concreto sobre a reabilitação prisional?

Simão Cayatte: Quando surge o convite de falar sobre um homem que passa quinze anos na prisão, acho que é preciso aqui algum nível de humildade: não conheço essa realidade nem pretendi fazer um filme verité sobre esse assunto. Interessava-me muito mais a ideia de regresso, a ideia de família e a ideia de pertença. Por isso, esse foi o nosso ângulo: falar da história dum marido e dum Pai e como é que ele consegue regressar a um lugar que já perdeu, a uma cidade que já perdeu e a uma família que já perdeu. Dito isso, naturalmente que o filme trata de alguém em concreto, que é um ex-presidiário. Por isso, sim, fiz essa pesquisa e foi muito útil e impactante falar com uma proximidade e em detalhe com ex-presidiários, ter as suas reações em relação ao momento em que saíram da prisão e o que é que é que era estar longe!  

E a pesquisa sobre os mariscadores de origem estrangeira?

Simão Cayatte: Em relação à apanha e à questão dos mariscadores: há aqui, a certa altura do processo de construção da narrativa, faço a proposta ao Paulo (Branco) que o filme se passe em Setúbal e concretamente ligado à apanha da ameijoa – assunto que já há cerca de dez anos ando a investigar e a estudar numa pesquisa bastante alargada. Falei com vários jornalistas, fui aos locais porque sempre me interessou esta questão da escravidão moderna, deste batalhão de fantasmas que nós temos a servir a sociedade e que ficam escondidos nas sombras. Comecei por investigar essa questão ligado à apanha de fruta no Alentejo, mas percebi que não me interessava contar a história nem do ponto de vista da vítima, nem do ponto de vista do abusador. Por isso quando surge a personagem do Joaquim, inserido num universo duma comunidade tailandesa (de mariscadores) fez-se luz! E percebi que era a altura ideal para conseguir explorar mais a fundo este tema: porque o Joaquim era alguém que existe entre dois mundos: entre o Nós e o Eles! Mesmo entre duas margens, ligado a essa simbologia, um pouco mais poética, ligado à figura do Caronte, figura mitológica que levava as almas mortas duma margem à outra, a troco de dinheiro. O Joaquim é responsável pelas vidas deles, pode deixá-los no banco de areia: estes barqueiros têm, nas suas mãos, a vida destas pessoas. Porque largam-nos em bancos de areia e quando a maré sobe, se ele não volta, eles ficam por lá! Interessou-me também o lado simbólico, mais do que o lado concreto, em relação a esta figura do barqueiro.

A Palavra Tempo parece ser uma palavra-chave ao longo do filme: é repetida várias vezes nos diálogos; é o Tempo que o Joaquim cumpriu na cadeia; o Tempo que tem para, ao sair da prisão, encontrar uma morada, trabalho e dinheiro; o Tempo que tem disponível quando sai e, finalmente, há o tempo do próprio filme, que têm um ritmo muito próprio.

Simão Cayatte: Sim, é interessante esse ângulo! Não tinha pensado nisso dessa forma. Há de fato a questão do tempo como fator porque o Joaquim viveu uma realidade que nos é desconhecida e que o tempo passou de uma forma diferente para ele. E agora que saiu e esconde isso da família, não é por mais quinze dias ou um mês que a vida dele vai mudar e o Joaquim tenta ganhar esse tempo para fazer a “coisa” certa, que é comprar um piano para a filha adolescente, antes de voltar para casa. Por isso é que ele arranja o trabalho como barqueiro. Em relação ao tempo do filme (ritmo), interessava-me não “decoupar” (cortar mais os planos) o filme excessivamente, tive muitas situações onde tinha planos e campos/contra-campos que escolhi, propositadamente não usar. Gosto muito desta ideia de que um plano ou uma imagem se aguentar, não há razão para cortar! Ou seja, a ideia de cortar, mudando a perspetiva apenas porque sim, no caso deste filme, não me interessava. E porque há um lado intemporal, simbólico, fora do naturalismo que queria trazer para o filme. Se calhar, algo mais onírico, mais ligado à própria ondulação e ao rio.

 A questão da reabilitação prisional: há um filme do ano passado – «Misericórdia» (2024) de Alain Giraudie – que coloca uma questão central: será que a prisão é uma saída para aqueles que cometem crimes? Será que as cadeias ainda fazem sentido? Se a reabilitação funciona realmente?

Simão Cayatte: Vi o filme! No sentido social, acho que é toda uma conversa a ter! Fiz alguma investigação também ligada a essa questão. É bastante escandaloso e triste como não existe a reabilitação que, por um lado deveria existir! Falei com muitas casas de acolhimento que ao nível do voluntariado fazem um papel que o Estado, muitas vezes, devia fazer. Uma pessoa sai da prisão e, muitas vezes, sente-se abandonada e ao “Deus dará”! Por outro lado, e mais uma vez, voltando ao simbólico e porque este filme não é um documentário:  interessava-me, também, a prisão interior do Joaquim! Portanto, quando surge a ideia dum ex-recluso que volta à sociedade, é também um caminho para falar sobre a prisão interior: acho que a grande prisão do Joaquim não é aquela prisão física onde esteve aquele tempo todo. É a culpa! Essa culpa é em relação ao seu passado, àquilo que ele fez, à tragédia do crime que cometeu, que está sempre latente, ele poderá voltar a fazer – porque nesta noção de tragédia também existe a culpa. Era disto que me interessava falar. No que diz respeito, sobretudo à hipótese de redenção e o que é que é essa redenção, pois voltar para casa pode não ser a melhor redenção, a solução para ele!

A temática da imigração e a questão dos mariscadores tailandeses. Há esta relação entre o “Nós” e o “Eles”, mas esta relação também depende da perspetiva em que se está a falar em determinadas partes do filme. Para os tailandeses, o “Nós” são eles e para o gang do Fernando passa-se o mesmo, o “Nós” são os portugueses e o “Eles” são os imigrantes de origem tailandesa.

Simão Cayatte: Acho que o filme é também sobre isso. A questão é sobre deixar de usar estes termos: o “Nós” e o “Eles”! Porque se “nós” somos a sociedade que existe numa força de trabalho à superfície e “Eles” são quem está, debaixo da ponte, às sombras, então vai sempre haver uma separação. Se nós somos aqueles que nunca estiveram presos e olham para um ex-recluso como um marginal, então isso também vai aumentar esse precipício. Interessava-me estar com o Joaquim, através dos olhos dele, porque acho que o cinema tem essa capacidade. A certa altura, espero eu, ele deixa de ser alguém distante. Ele está perto de nós e, se tudo correr bem, acontece uma identificação com a personagem, é isso que acontece, também, com esse universo do grupo de tailandeses que o Joaquim acha, ingenuamente, poder conhecer e passar por eles, rapidamente. Porém, percebe que está ali uma família mais presente do que aquela que ele tem! Portugal, nos dias de hoje, é uma sociedade onde, cada vez mais, este discurso entre o Nós e o Eles só cria mais abismos e o filme aborda também isso.

O protagonista está no centro desta relação entre o “Nós” e o “Eles”: Os mariscadores estrangeiros e o gang do Fernando. O Joaquim parece que está lá, e ao mesmo tempo parece que não está! Está à margem e quer-se colocar à margem dessa dicotomia.

Simão Cayatte: Acho que o Joaquim é como se fosse uma espécie de pião, que está a rodopiar e vai cair para um dos lados. É inevitável! Dum lado tem uma força que é o Fernando, que é alguém que representa um certo lado com o qual o próprio Joaquim se pode identificar com algumas coisas, nem que seja o tom de pele, o lugar de origem e a própria língua. Por outro lado, existem pessoas que são inteiramente diferentes do Joaquim, na língua, na forma de estar, na cultura, mas se calhar como “marginais” (embora não goste de usar esse termo) estão muito mais próximos dele! O que eu sempre achei interessante no Joaquim foi, precisamente, colocar alguém que está no centro, no meio destes dois mundos. Portanto, o Barqueiro é como alguém que está entre estas duas margens, como observador: nunca quis contar uma história moralista, nem do ponto de vista da vítima, nem do ponto de vista do opressor, mas explorar estas duas realidades através do Joaquim que no final chega a uma conclusão.

Agora, outra questão central em «O Barqueiro»: a Paternidade! Está muito presente ao longo da ação do filme, a relação entre o Joaquim e a filha adolescente está muito bem trabalhada, o Joaquim é uma espécie de fantasma na vida da sua filha – está sempre presente, mas nunca lhe aparece, não está visível aos olhos da filha. Esta temática já tina sido abordada em «Vadio» (2022), a longa anterior. Esta é uma preocupação decisiva, para ti?

Simão Cayatte: Não sei se é uma preocupação consciente, mas a ideia de família e da paternidade e a importância que é, agora que sou Pai também. É uma responsabilidade enorme criar alguém e ser uma figura paternal para alguém. Da mesma forma que é uma grande responsabilidade ser filho. Neste encontro entre pessoas há a distância: o Joaquim é Pai, mas não lhe foi dada a oportunidade de ser Pai, porém existem nele todos esses instintos e ele precisa de um lugar para os pôr! Portanto, sim, a questão da família e da distância e da importância destas relações é um tema recorrente, pelo menos nos dois últimos filmes, porque, no fundo, é nesses temas que existe a delicadeza e o amor em contraponto à violência. O filme orbita entre essas ideias de delicadeza, através da filha e da música clássica e do piano que é algo que o transporta para um lugar bonito, o aspeto da filha tocar piano e ter como preocupação fundamental passar na audição final. Aquilo que o Joaquim mais quer é estar presente nesse momento da filha e vai vestir um fato para o fazer. Ele não sabe é que vai acabar, num barco a motor, no meio do tejo, vestido com esse mesmo fato – essa imagem, a mim, sempre me assombrou: o contraste entre esses dois mundos, a delicadeza e a violência, para mim estava contido nessa imagem dum homem vestido de fato, mas num barco a motor, debaixo da ponte!    

O protagonista Joaquim é corporizado pelo ator Romeu Runa: carrega o filme às costas, julgo que entra em quase todas as cenas do filme, é quase um filme do ponto de vista do protagonista. A narrativa acompanha percurso deste ex-recluso desde a manhã da saída da prisão até ao desenlace do filme. Queres falar sobre esta opção narrativa e da escolha do ator para este papel?

Simão Cayatte: É um filme que tem o Joaquim ao centro, porque é ele que carrega esta ambiguidade e esta dicotomia entre estas ideias de violência e delicadeza. Por isso, interessava-me contá-lo através da sua perspetiva. O trabalho com o Romeu Runa foi muito bonito e muito importante porque acho que ambos, na altura do casting, sentimos que batia certo! Para mim, batia certo a energia do Romeu, o fato dele conseguir transportar toda a sua experiência como bailarino e o seu trabalho de corpo para uma certa fisicalidade que para mim encaixava naquele papel. Sinto que ele se reviu em muitos aspetos com a personagem do Joaquim. Portanto, foi um trabalho em uníssono, no qual conseguimos mergulhar bastante fundo, julgo eu. Penso que ele faz um trabalho enorme neste papel: é uma personagem quebrada e em certa medida uma personagem que requer uma grande vulnerabilidade porque a vergonha e a culpa do crime são visíveis na pele dele. Porém, tal como eu lhe disse, em plateau, é uma personagem que tem dignidade! É esta imagem mitológica do barqueiro ou, se nós quisermos, do “cowboy”, de alguém que tem de fazer o trabalho nas sombras que outras pessoas se recusariam a fazer, mas fá-lo, silenciosamente e sem se queixar e, se quiseres, depois leva essa culpa consigo como um fardo, mas libertando outros. É algo que era importante e que o Romeu compreendeu, até a nível físico. Mas esta ideia de dignidade era muito importante!

No restante elenco, que é de altíssimo nível: o Miguel Borges num papel incrível, a Jani Zhao, a Sandra Faleiro no seu registo, a Isabel Zuáa num pequeno papel, a Mafalda Jara, a mulher do Joaquim, que é uma atriz incrível, a Madalena Aragão no papel de filha. Este elenco foi escolhido por casting? Por convite direto?

Simão Cayatte: Alguns foram escolhidos por casting, outros foram escolhidos por convite. Mas, na sua maioria, foi por casting! São todos atores que eu respeito: desde a Isabel Zuáa com quem já tinha trabalhado, à Sandra Faleiro e ao Miguel Borges com quem sempre quis trabalhar; mesmo o Hugo Bentes (é o Ruivo no filme) com um papel pequeno de ajudante da personagem do Miguel Borges tem um papel fenomenal (foi o protagonista do filme «Raiva» (2018) do Sérgio Tréfaut); a Mafalda Jara, com todo o seu trabalho em teatro e com a Monica Calle (coreógrafa), agora tem aqui um papel muito conseguido e em poucas cenas consegue carregar aquela ideia da mãe e da mulher que ficou para trás, mas que ao mesmo tempo teve de avançar na vida; e, finalmente, a Madalena Aragão que não foi uma surpresa, pois já era fã, mas é uma atriz incrível e o que realmente me surpreendeu foi o conseguir dedicar-se ao piano e aprender um segmento dum segundo andamento dum concerto para piano de Beethoven nunca tendo tido aulas de piano – arranjou dois professores e passou um verão inteiro a estudar, porque como nós vemos no filme, ela toca mesmo esse trecho. Não é falseado, nem há nenhum duplo.  Achei isso fenomenal, ao nível de disciplina, dedicação e esforço!

Como é o teu trabalho de direção de atores, no plateau? Ensaiam muito antes de filmar? Dás espaço aos atores para darem sugestões? Como é o processo de trabalho?

Simão Cayatte: Como já trabalhei muito como ator, gosto muito de trabalhar com os atores e julgo que conseguimos comunicar bem. Desde curtas que fiz, como o «Miami» (2014) no qual trabalhei com a Alba Baptista, naquele que foi o seu primeiro papel, ou o «Vadio» (2022) com o Ruben Simões, atores que eram adolescentes e que se calhar precisavam de mais apoio. Nessas situações é preciso estar mais presente! No caso de «O Barqueiro» estou a trabalhar com atores que, em alguns casos, têm muita experiência, portanto, é deixá-los cumprir o seu papel, pois são atores com grandes instintos. Mas, em plateau, gosto muito do diálogo com os atores e duma descoberta conjunta, apesar de eu ter uma noção do todo e direcioná-los num certo sentido. Por exemplo, quis uma certa suavidade e elegância: no caso do Miguel Borges, algo que eu queria era uma certa suavidade e leveza na personagem do Fernando, queria que ele se tornasse, no fundo, num “mafioso” encantador, alguém sedutor, isso era importante para mim. O lado maternal da Sandra Faleiro também é muito importante. Mas isto são tudo ideias que trago comigo e que são refinadas, obviamente, com os atores, porque doutra forma não teria piada nenhuma!

Em relação à composição dos planos: o filme tem planos belíssimos, como os planos do rio, noturnos ou quase noturnos, o plano da despedida do Joaquim (Romeu Runa) e da (Jani Zhao) com aquela luz, está muito bonito. Como é que trabalhas a composição de cada plano e os enquadramentos? Está tudo escrito no guião? Ou é fruto do momento ou dia a dia, consoante as condições de luz ou atmosféricas?

Simão Cayatte: Há um trabalho prévio: faço a minha découpage, ou seja, a escolha dos planos a filmar. Mas gosto muito de trabalhar com o Bartosz Swiniarski, que é o meu diretor de fotografia, foi no «Vadio» (2022), neste «O Barqueiro» (2026) e numa série que fiz «Vanda» (2022). Gosto muito do seu olhar, ele tem a escola polaca, temos uma sensibilidade muito comum, uma filmografia em comum, gostamos das mesmas coisas no cinema e na imagem, temos referências muito parecidas. Háuma grande sintonia e até é mais fácil preparar o filme e, para um polaco vir filmar a Portugal não é fácil pois a luz é diferente. Mas, para ele, Lisboa já é uma espécie de segunda casa – já é a terceira ou quarta vez que ele vem cá., por isso para além de conhecer a equipa e os ambientes acho que ele entende a luz. Filma com muito pouco! Atualmente, há uma tendência de iluminar a mais e resolver em pós-produção e perdeu-se esta ideia, mais ligada a filmar em película de trancar: aquilo que nós chamamos de trancar os níveis no próprio dia da rodagem. Nessa forma de filmar há um lado de risco que para mim é muito bom: aquilo que tu apanhas em plateau, no momento, é aquilo que fica. É uma luz que tem muito mais a ver com retirar luz e conjugar com a sombra, mais do que iluminar a mais. A mesma coisa se passa nos planos: nós temos cenas decisivas neste filme, como por exemplo no final, que são filmadas num plano, portanto ou funciona ou não funciona, não há uma rede de segurança. Esse lado, ligado ao momento e à vertigem de conseguir fazer algo ali e daquela forma, está ligado ao teatro e à performance que é donde eu venho. É algo que gosto muito e que para mim é importante. Por exemplo, a cena final do barco, só fizemos num take!

A rodagem deve ter sido desafiante: no rio, com muitos exteriores… Como é que correu? Foi no Verão, não foi?

Simão Cayatte: Foi no Verão, pois no Inverno ainda teria sido mais duro do que já foi. Com as temperaturas dentro de água, à noite. No verão, um dos maiores desafios foram as marés, apesar de minimamente previsíveis, pregam-nos sempre partidas! Conseguir ter a luz que queremos, ao nascer do sol, enquanto a maré está baixa e colocar a figuração num rio cheio de lama não é fácil! Porque o orçamento também não é infinito. O meu diretor de fotografia quando lhe falei do projeto e leu disse-me que queria muito vir filmar no rio, que sempre sonhara filmar no rio. Porém quando, três meses depois, nos encontramos num barco a motor, a ser agitado violentamente, dum lado e do outro, ele vira-se para mim e diz-me: “Devias ter-me avisado que vínhamos para mar alto!” E nós chamamos a este rio, mar da palha! Se eu lhe tivesse dito toda a verdade ele não teria vindo. Portanto, foi desafiante, mas tivemos uma equipa que foi incrível.

Estrear um filme português, nos dias de hoje, é uma aposta de risco, embora a estreia em sala seja apenas o início da carreira dum filme, pois ela prolonga-se, depois, no tempo. Quais são as expetativas em relação a este filme?

Simão Cayatte: Nós decidimos que iríamos estrear em sala, e ao mesmo tempo vamos enviar o filme para festivais, portanto vai acontecer em simultâneo, pela pertinência do tema. Espero ainda viajar com o filme e espero que os espetadores portugueses se dirijam mais às salas. Quero acreditar que as pessoas começam a ficar cansadas de consumir conteúdos sozinhas e nem tem tanto a ver com o tamanho do écran. Acho que a solidão, sobretudo desde a pandemia, atacou-nos duma forma violenta, mas acredito que a experiência comunitária, social, de vir ao cinema e de poder experienciar um filme em conjunto continua a ser imbatível. Existem algumas iniciativas que espero que produzam efeitos como a sala da NOS dedicada ao cinema português e desafio as pessoas a virem ver o filme porque acho que é um filme com muita emoção e coração, mas que também têm elementos de suspense e thriller que espero as deixem agarradas ao écran até ao final!            

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