Eis uma certeza destes tempos de muitas atribulações na difusão de imagens e sons: deixou de ser possível pensar o cinema sem evocarmos e, num certo sentido, invocarmos a Inteligência Artificial (IA). Com uma nuance que importa ter em conta: não se trata de tentar entender os contornos e formas do cinema do futuro, mas de reconhecer que a IA é já um dado incontornável do seu presente.
Na reunião em que fez o balanço da Disney em 2025, o seu CEO, Bob Iger, não poderia ter sido mais explícito. Não só a Disney+ ocupou uma parte fundamental da sua exposição, como essa exposição foi essencialmente dedicada àquilo que a IA faz, vai fazer ou pode fazer no interior daquela que é uma das mais rentáveis plataformas de streaming (com um aumento de 3,8 milhões de assinantes, perfazendo, em outubro, um total de 131,6 milhões).
Que vai, então, acontecer com a IA e através da IA? A Disney+ propõe-se incluir diversos jogos ou, nas palavras de Iger, “conteúdos em forma de jogos”. O utilizador terá mesmo à sua disposição elementos de IA para gerar os seus próprios conteúdos, “sobretudo de curta duração”, partilhando-os com os outros utilizadores. Tudo isto enquanto a Disney continua a desenvolver conversas com companhias de IA (não identificadas por Iger) para promover e ampliar tais transformações.
Será preciso não cair na dicotomia simplista dos “bons” ou “maus” conteúdos. O certo é que a concretização destas medidas, ou outras com implicações semelhantes, já pouco ou nada terá que ver com a ideia segundo a qual o consumidor de “streaming” existe (ainda) como um espectador de cinema. Bem pelo contrário: esse consumidor passará a ser convocado como um “manipulador” de conteúdos, a meio caminho entre os videojogos e o TikTok. Consequência prática e, no limite, conceptual: será um consumidor cada vez mais distante da definição muito básica do filme como esse objecto singular que possui uma identidade própria de tempo e espaço (na clássica sala de cinema ou nos ecrãs que cada um possa possuir).
Reconhecer este estado de coisas não é uma censura moral nem um mero desabafo nostálgico. Trata-se apenas de não desistir de perguntar como vão viver os filmes — e a própria ideia de cinema — num mundo cuja inteligência já não pertence ao mundo da cinefilia.




