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Entre o Sofá e o Ecrã, Quem Salva as Salas de Cinema?

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

Enquanto o Governo promete “grupos de trabalho” e os multiplexes se transformam em hamburguerias, o verdadeiro inimigo do cinema não é o sofá,  é a falta de imaginação de quem devia mantê-lo vivo.

Há algo de melancólico — e de ridiculamente simbólico — numa sala de cinema vazia. É o retrato de um país que trocou o ecrã gigante pela televisão, o bilhete pelo login e o encontro pela solidão confortável do sofá. Desde o início do ano, desapareceram 37 ecrãs e outros nove estão por um fio. Cidades inteiras ficaram sem cinema e com menos vida.

Perante o desastre, o Governo reagiu com o seu gesto favorito: criou um “grupo de trabalho”. Traduzindo: formou um grupo para estudar o que toda a gente já sabe. A ministra Margarida Balseiro Lopes diz que “a desafetação de salas é uma prioridade”. Em Portugal, esta frase costuma significar que o assunto foi arquivado com selo oficial.

Entretanto, as grandes cadeias de exibição recuam das cidades médias e dos centros comerciais, que deixaram de ser o “templo pop” do fim de semana para se tornarem parques de consumo genéricos. A equação “cinema + pipocas + shopping” perdeu o charme. O streaming tomou conta do trono e o público habituou-se à frase mais sinistra da Netflix: “Ainda está aí?”. Está — e raramente se levanta.

Mas quando o espectador se atreve a sair, quer mais. Quer ver bem, ouvir bem e não sentir que está a financiar baldes de pipocas. Exige cadeiras limpas, som nítido, projeção cuidada e filmes escolhidos com critério. Quer sentir que está num templo, não num refeitório de super-heróis reciclados.

E é aqui que a exibição cinematográfica nacional se perde no discurso da “experiência cinematográfica”. Experiência não é encher a sessão com trailers durante vinte minutos. É curadoria, é identidade, é coerência. Cada cidade devia ter o seu próprio olhar, mas o país inteiro parece governado pelo mesmo pensamento: os mesmos filmes, à mesma hora, no mesmo shopping.

O problema não é a ausência de salas é a ausência de boas salas: espaços pequenos, bem geridos, com programação pensada e uma relação genuína com o público. O que mata o cinema não é o streaming, é a mediocridade. E a mediocridade alastra quando os exibidores tratam o espectador como um cliente de fast food.

O público, não é ingénuo. Sabe quando é maltratado. Paga caro, leva com som baço, imagem suja e publicidade interminável. E quando percebe que é um figurante, desliga. Fica em casa, pois o sofá não fala alto, não mastiga pipocas e não interrompe o filme para atender o telemóvel.

Do outro lado, o Estado observa em modo premium, poltrona reclinável. O ICA fala em “estratégias”, mas há mais de 170 concelhos sem uma única sessão regular. Chama-se a isso desertificação cultural, mas soa cada vez mais a desistência coletiva. Há autarquias que esbanjam dinheiro em rotundas luminosas e pavilhões vazios e não investem em projetores digitais nem em técnicos que saibam operá-los. Querem é fazer festivais.

Mesmo assim, há quem resista. Cineclubes, auditórios e pequenas salas municipais continuam a projetar o que importa, muitas vezes à custa própria. A sua luta não é ideológica é prática: manter o projector ligado enquanto o resto do país apaga as luzes.

O cinema não morre por falta de público, morre por falta de vontade. Morre quando a ida à sala deixa de ser um acontecimento e passa a ser uma rotina sem alma. Portugal não precisa de mais ecrãs, precisa de espaços que tratem o cinema como um acto cultural, não como um produto em saldo. Até lá, o sofá continuará a vencer, não por ser mais forte, mas por ser mais atencioso. E quando a última sala fechar, o país talvez perceba que perdeu mais do que um passatempo. Perdeu o lugar onde, por duas horas, ainda acreditava ver o mundo inteiro a acontecer em frente aos seus olhos.

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