François Ozon adaptou Albert Camus e desafiou os fantasmas coloniais. “O Estrangeiro” é um daqueles livros que já pertencem ao imaginário colectivo e universal. Quase toda a gente o leu no liceu, na adolescência — ou pelo menos os da minha geração, em que se lia bastante —, sublinhou frases existencialistas, discutiu o absurdo à mesa do café. Mexer ali é como entrar numa igreja com botas enlameadas. Pois foi exactamente isso que François Ozon decidiu fazer ao levar a sua nova adaptação de Albert Camus à competição do Festival de Cinema de Veneza 2025. Cinquenta e oito anos depois da versão de Luchino Visconti — com Marcello Mastroianni de cigarro na boca e ar blasé —, Meursault regressou primeiro ao Lido de Veneza e finalmente chega às salas de cinema nacionais. E regressa com vontade de provocar. Benjamin Voisin interpreta o funcionário apático que enterra a mãe sem lágrimas e dispara cinco tiros na praia argelina, sob um sol que queima mais do que ilumina. Mas Ozon percebeu aquilo que, em 1967, era ponto cego: em 2025 já não se pode filmar “um árabe” sem nome.
Rodado a preto e branco, com uma elegância quase clássica, Ozon constrói um filme atmosférico, pesado, mas nunca museológico. Não há aqui reverência de estátua ou memória. Há inquietação e modernidade. O realizador abre com imagens de arquivo da Argélia colonial, idealizada pela metrópole, e deixa que o racismo estrutural atravesse o julgamento de Meursault como um fantasma que nunca saiu da sala. “Não é por matar um árabe que será condenado”, diz o advogado. E a frase cai como uma pedra.
A grande ousadia desta versão de Ozon está em dar rosto e voz à vítima, algo que não acontece no livro. Djemila, irmã do homem morto, ganha presença e nome. No romance, o silêncio era regra; no filme, o silêncio torna-se acusação. Ozon puxa um fio que Camus deixou solto e expõe a fractura: dois mundos que coexistiam sem se ver. Não é uma reescrita militante, mas também não é uma neutralidade confortável.
Claro que a polémica não tardou. Há quem aplauda a fidelidade ao absurdo camusiano; outros acusam Ozon de politicamente correcto, de comentar mais do que adaptar. A própria filha do escritor manifestou reservas quanto ao novo epílogo. E é aqui que o filme ganha espessura: o romance nunca foi consensual; a adaptação também não tinha, obviamente, de o ser. Ozon reduz a narração ao mínimo, ampliando as imagens e a acção. O mutismo de Meursault domina. Não há uma psicologização fácil da personagem. Há corpos, luz, mar, suor. A cena do crime, montada em sucessivos close-ups, tem uma fisicalidade quase perturbadora. “O Estrangeiro” não é um filme de tese; é um filme de tensão. Entre o homem e o mundo, como escreveu Camus, nasce o absurdo. Entre o texto e a câmara, nasce aqui outra coisa que vai para além da obra literária datada: um desconforto contemporâneo, que não cai na tentação de fazer uma reparação histórica ou pedir desculpas.
Mais do que sobre um “homem absurdo”, o filme parece falar de um país — a França, claro — que ainda não resolveu a sua memória colonial. Camus, prémio Nobel de 1957, filho da Argélia francesa, escrevia, na altura, a partir dessa ambiguidade. Porém, Ozon filma-a sem pedidos de desculpa formais, mas também sem fingir que nada aconteceu. No final, quando ecoa o tema “Killing an Arab”, dos The Cure, percebe-se a armadilha. Não é apenas uma provocação gratuita: é a música a redimensionar um espelho da realidade. Em 1942, Meursault era estranho ao mundo. Em 2025, talvez estranho seja, por vezes, o nosso silêncio em relação à discriminação e ao racismo estruturais.
Título Original: L’Étranger Realização: François Ozon Com: Benjamin Voisin, Rebecca Marder Origem: França Duração: 135 min. (aprox.) Ano: 2025 França
Fotos: Carole-Bethuel-c-Foz-Gaumont-France-2-Cinema




