Nem os homens se medem aos palmos, nem os realizadores pela duração dos seus filmes. Na verdade, Quentin Tarantino sempre nos habituou a versões mais ou menos longas das suas obsessões cinematográficas que, segundo rezam as lendas da História do Cinema com H e C grandes, ou as histórias com h pequeno que servem para embrulhar as estratégias de marketing, adquiriu nos anos de juventude durante os quais consumiu uma série infindável de exploitation movies. Entre eles, alguns estão na base da saga de vingança sanguinária associada a essa palavra de ordem que ressoa no ar, “Kill Bill”, missão destinada a obliterar um dos maus da fita, o “Snake Charmer”, que veremos rodeado e coadjuvado por um grupo de vilões, qualquer deles gente do piorio.
Tudo começou em 2003 com «Kill Bill: Volume 1» e depois em 2004 com «Kill Bill: Volume 2». Não obstante esta separação, o realizador e argumentista sempre considerou estas duas partes, divididas por questões comerciais, como um só filme. E foi assim que em 2006 decidiu reunir as duas faces da mesma moeda numa única aventura. Entretanto, para além de alguns visionamentos relativamente circunstanciais em sala, incluindo uma apresentação no Festival de Cannes, essa versão agregada nunca foi lançada oficialmente, nem no mercado de home-video. Teimoso e seguramente consciente de que passadas mais de duas décadas passou a existir um público novo disposto a apreciar um projecto com as características desde sempre enunciadas, público jovem que o pudesse encarar na sua verdadeira e sonhada dimensão (perfeitamente integrada nos dias de hoje), e alertado para o facto de outro(s) segmento(s) veteranos do público estarem interessados em verificar as potencialidades da anunciada junção, Quentin Tarantino e os seus conselheiros financeiros decidiram lançar em 2026 a abordagem única, talvez definitiva, mas nunca se sabe, intitulada «Kill Bill: The Whole Bloody Affair» (Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta).
Matéria revista, aqui e além ligeiramente depurada, brevemente ampliada com materiais pré-existentes e com outros mais recentes e produzidos de propósito para se combinarem as referências mais antigas com as modernas, incursões ficcionais como aquela inspirada num jogo para PC, iPhone, iPAd e Android, produzida em 2025 e inserida no capítulo apelidado “lost chapter” que se segue ao genérico final. Diga-se a este respeito que os espectadores que quiserem aguentar os 255 minutos da saga (mais quinze minutos de intervalo) não se devem levantar ao primeiro sinal de passagem dos créditos, porque o referido capítulo, baseado no jogo electrónico Fortnite,vem após o desfiar de nomes e nos últimos dez minutos antes do THE END. Em suma, na prática Quentin Tarantino fez deste autêntico novo filme (prefiro vê-lo como uma nova obra e não como a simples reciclagem e remontagem do que já existia) um activo capaz de multiplicar os lucros do pretérito investimento e abrir as portas, quem sabe, a novas experiências no mesmo campo e a partir do património acumulado, não apenas associado ao seu métier de realizador, mas igualmente ao de produtor.
Dito isto, falemos agora das muitas histórias de cabidela, prato principal do menu de «Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta», iguaria que se podia obter em doses generosas devido aos litros de sangue jorrados a cada combate mortal, onde o paroxismo dos movimentos acrobáticos e completamente irreais das artes e manhas do kung-fu se mistura com mitologias muito diversas, desde a dos westerns até aos eternos clichés do Extremo-Oriente onde supostamente vivem monges e filósofos guerreiros.
Da saga vingadora sobressai a figura de Beatrix Kiddo, a noiva grávida (Uma Thurman), que nas vésperas de um casamento de conveniência será vítima da brutalidade do seu antigo amante (David Carradine, o Bill de quem se fala) e dos seus quatro magníficos canalhas, ou seja, os patifes do Deadly Viper Assassination Squad, gente pouco recomendável que acompanha Bill no massacre hediondo que irá decorrer numa capela perdida de El Paso, no Texas. Escusado será dizer que a noiva irá sobreviver, não obstante os quatro anos de coma, e será ela quem vai escrever num caderninho a “death list five” correspondente aos cinco nomes a riscar de entre aqueles que a quiseram ver morta e enterrada (num dos capítulos em que o filme se divide, literalmente enterrada viva). Escusado será também dizer que aqui, como na vida do cidadão comum, há hierarquias a cumprir (mesmo para quem não se quer submeter a elas ou não pode subverter a situação de imediato a seu favor) e com a minuciosa metodologia adequada aos grandes projectos, a limpeza do sebo de cada um dos malfeitores, seus antigos parceiros do crime, vai levar a noiva renascida a diferentes locais deste planeta. Entretanto, com aguçado engenho e muita espadeirada made in Japan, lá vamos assistindo a sucessivas vagas de represália e desforra, com requintes de malvadez.
De entre as sequências de «Kill Bill: Volume 1 e 2» que ficaram na memória e que fizeram as delícias dos apreciadores dos géneros a que elas melhor se associam, nomeadamente as que usavam e abusavam dos parâmetros do cinema de artes marciais, destaca-se uma cascata de frenética pancadaria na chamada “House of Blue Leaves”, espaço cosmopolita liderado pela infame O-Ren Ishii “Cottonmouth” (Lucy Liu), casa protegida por uma quantidade de yakuza, reunidos sob a designação Crazy 88, vestidinhos a rigor e com máscaras que fazem lembrar de propósito a de Bruce Lee no papel de Kato da série “The Green Hornet”.
Desta vez, ao contrário das anteriores versões, prevalece a presença da cor e não há um só plano a preto e branco, o que vinca ainda mais a sensação cromática da hemoglobina e glóbulos vermelhos que a cada minuto, que digo eu, a cada meia dúzia de segundos, explodem em repuxos pelo ar e se espalham pelo “campo de batalha”. E a vida, ou melhor, a morte, continua. Pouco a pouco, os antigos colegas de Beatrix Kiddo (Vernita Green “Copperhead” (Vivica A. Fox), Elle Driver “California Moutain Snake” (Daryl Hannah), Budd “Sidewinder” (Michael Madsen), com nomes de guerra escolhidos a dedo) vão sendo arrumados de vez.
Perto do derradeiro confronto, na nova proposta de montagem (que para manter algum suspense retirou alguma informação que nas versões anteriores surgia mais cedo) a noiva irá confrontar o ex-patrão e pai da sua filha e conhecer o ainda inocente fruto da sua relação com Bill, uma menina com quatro anos de idade, apelidada de BB. Numa palavra, no meio do perigo iminente, Beatrix Kiddo vai descobrir o sabor da maternidade. Mas será aqui, quando entramos no refúgio mexicano de Bill, que o vértice do jogo fatal se perfila mais complexo do ponto de vista psicológico. Trata-se de um momento definido por verdadeiras e falsas confissões, caminhos cruzados de contradições, onde se alterna o pulsar dos sentimentos com a gradual implosão de violência, neste caso não necessariamente a explosão, mas sim o contrário, ou seja, o colapso interior e físico das personagens. Num dos lados da barricada, Bill recebe com surpresa um golpe mortal que ele pensava não ser do conhecimento de Beatrix, o misterioso “Five Point Palm Exploding Heart Technique”, seja lá o que isso for.No outro, encontramos Beatrix e a muito jovem BB naquele que corresponde ao limbo de uma noiva cada vez mais próxima de ser mãe e no processo de aparente pacificação com a sua existência anterior, viúva de um passado de que se quis libertar e, de certo modo, se foi libertando com a preciosa ajuda da nossa indulgência de espectadores e das virtudes de uma espada samurai da autoria de um armeiro, retirado na Ilha de Okinaka mas sempre pronto a contribuir para causas nobres, o mestre japonês Hattori Hanzo (Shin’ichi Chiba).
E das duas uma, ou acreditamos nas alegadas virtudes da espada e na razão de ser das personagens, que nos pedem plano a plano doses generosas de cumplicidade, ou não podemos ver «Kill Bill: The Whole Bloody Affair» por aquilo que ele quer ser, no fundo sempre quis ser, ou seja, uma pura e dura fantasia escapista. Enfim, sejamos “altruístas” na apreciação, estamos aqui perante um exercício ficcional que de vez em quando faz falta (quando bem estruturado) para suportarmos a desprezível realidade de um mundo cada vez mais difícil de suportar e enquadrar num contexto de alguma racionalidade. Assim sendo, entremos de cabeça nesta aventura ao ritmo do Bang Bang (My Baby Shot Me Down), levados pela voz sedutora da Nancy Sinatra.




