De 30 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2026 realiza-se mais uma edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand (França), o mais importante do mundo na componente dedicada ao mercado e um dos mais completos na componente da programação dividida por diversas áreas (Nacional, Internacional, Labo, XR-Réalités Immersives), sem esquecer o contexto de retrospectivas e programas especiais, como o sempre urgente e incisivo Regards D’Afrique.
Este ano estarão presentes na Competição Internacional duas curtas de animação portuguesas (representadas pela Agência da Curta-Metragem), a saber, «Cão Sozinho», 2025 (Portugal-França), de Marta Reis Andrade, e «Porque Hoje É Sábado», 2025 (Portugal-França-Espanha), de Alice Eça Guimarães.
Numa outra vertente da competição, outra animação, «Percebes», 2024, de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves, irá disputar o Prix du Public Européens que consiste basicamente na votação realizada pelos espectadores das sessões EU 1 e 2 que incide em filmes anteriormente premiados pelo público nos seus respectivos países e nos festivais inscritos no European Short Film Audience Awards. Em boa verdade, a dupla de realizadoras já demonstrou cabalmente a sua competência no campo da animação, o filme possui méritos que justificam a sua impressionante carreira, e de entre as curtas que provavelmente lhe podem fazer sombra nesta corrida a mais um prémio está um dos nomeados para o Óscar da Curta-Metragem, o live-action «Deux Personnes Échangeant de La Salive», 2024 (França-EUA), de Alexandre Singh e Natalie Musteata.

Entretanto, salientemos o melhor das mais recentes apostas e comecemos pela primeira a ser exibida, «Cão Sozinho» [foto] (Técnica: animação 2D. Duração: 13m 2s). Nestes casos, nada como dar a palavra aos criadores. E assim falou, ou melhor, escreveu, a realizadora e argumentista na sua breve sinopse: “História real de um cão deixado ao abandono na sua própria casa, no tempo em que o meu avô começou a experienciar a sua viuvez e eu regressava de Londres, lugar onde me senti mais sozinha que nunca”. Da visão do filme fica clara desde cedo a sensação de isolamento que pode invadir o quotidiano de alguém que, mesmo no frenesim de uma grande cidade, parece fadada a caminhar contra a corrente. Para que não restem dúvidas, a rapariga protagonista logo de início grita alto e bom som “I’m leaving…!” Di-lo para o exterior e debruçada na janela. Pouco depois faz a mala e decide dar corda aos sapatos para voltar ao seu país. Por contraste, o lugar para onde regressou nada se compara aos ambientes urbanos que a angustiavam. Nesse outro espaço relativamente acolhedor, rural e sobretudo familiar, vai concentrar uma atenção particular na figura do avô. Ele, homem sereno, mas a quem se adivinha uma vida interior assombrada por alguma inquietação, reside de corpo e alma no meio dos outros, parecendo ocupar um lugar central mas algo distante do principal eixo da acção. Pelo menos, até um determinado momento. Essa noção de presença/ausência será combinada com os diálogos circunstanciais que as restantes personagens expressam, palavras soltas mas com inegável sentido, que provavelmente foram registadas de forma mais ou menos livre, mesmo que alguma orientação ao nível da direcção de vozes se possa subentender, e montadas antes de avançar para o exercício de animação propriamente dito. Será que me engano? E, de repente, um uivo ao longe. Dizem ser o de um cão, e aqui começa uma aventura de experimentação fílmica que nos faz acompanhar a protagonista ao encontro do desconhecido, esse cão que algures vive sozinho e que por si só constitui uma nova visão da realidade que já não se compadece com o naturalismo dos diálogos nem com a linearidade de uma relação familiar e humana. Faz-se neste ponto a entrada para um imaginário zoográfico que irá culminar na união profunda e no abraço consolador entre uma jovem rapariga e um adulto de idade avançada que seguramente no seu luto não mais se vai sentir sozinho. Exemplo maior, para juntar a muitos outros, de que a animação em Portugal constitui uma das vertentes da produção cinematográfica onde encontramos sinais concretos de grande relevância criativa e um olhar muito especial sobre a condição humana.

De certo modo, podemos falar de uma outra forma de estar sozinha a propósito da personagem protagonista de «Porque Hoje É Sábado» (Técnica: Animação 2D. Duração: 12m 24s), já que descobrimos no percurso de uma mulher casada similar noção de isolamento, neste caso face a um quotidiano de rotinas domésticas que a esmagam na sua liberdade e na expressão da sua individualidade. De forma intermitente e quando uma pausa se afigura, deixa seguir o seu desejo em modo de sonho para um limbo onde experimenta breves minutos, ou mesmo segundos, de fulgor e satisfação pessoal. Para isso saboreia (não se pode dizer que o saiba usar ou controlar) um expediente de evasão que na prática significa o desdobramento do seu corpo físico num outro corpo etéreo e espiritual. Essa dupla de si mesma sai do seu interior e desaparece mal um contratempo se interpõe, e serão muitas as interrupções deste fugaz idílio existencial. Tudo se passa no interior da casa onde habita com a família, dois filhos e um marido pouco ou nada cooperantes. E o filme nem sequer precisa de diálogos para nos dar o retrato negro de uma certa condição feminina, sejamos francos, aquela que vive subjacente e consubstanciada por mulheres que não podem ou não se sabem impor fazendo valer os seus mais elementares direitos de igualdade e, já agora, de independência identitária.
Chegado aqui dou a palavra a quem concebeu este interessantíssimo projecto de animação: “Porque Hoje É Sábado” é uma frase roubada de um poema de Vinicius de Moraes, “Dia da Criação”. Evoca a ideia de um dia reservado ao descanso, à celebração e à liberdade. (…) Os papéis que as mulheres representam, filha, mulher, mãe, estão vinculados a um conjunto de definições comportamentais, informais, empíricas e invisíveis que são transmitidas de geração em geração, que as implicam nos deveres familiares, e que se expressam pelo sentimento de culpa ou de ineficácia associado por exemplo, à limpeza da casa, à alimentação ou à educação dos filhos, e que os homens, em geral, parecem não sentir com a mesma intensidade. Sujeita à eterna repetição dos seus dias, a mulher, inconscientemente, vai perdendo o prazer de viver. Somos aquilo que nos permitem ser, e aquilo que nos permitimos ser. Palavras de quem sabe do que fala. Senão vejamos o que Alice Eça Guimarães acrescenta na sua Nota Biográfica: “Como mulher e mãe, especialmente quando os meus filhos eram pequenos, assumi apenas como minhas responsabilidades que devia ter partilhado com o meu companheiro. Na altura, não tive tempo para pensar sobre as minhas ações. (…) Mesmo agora, tenho uma grande dificuldade em partilhar equitativamente as responsabilidades familiares. Na verdade, a solução que arranjamos para colmatar estes problemas domésticos foi sempre através da ajuda de outras mulheres da família ou a ajuda persistente e profissional de uma mulher-a-dias. Sinto-me muito privilegiada por ter estas mulheres na minha vida, que me possibilitaram uma espécie de equilíbrio instável que me permite ter o “quarto” mental tão necessário para seguir uma carreira artística como realizadora. Mas tenho consciência de que muitas mulheres não têm a mesma sorte. A protagonista deste filme é uma delas”.

Na verdade, se o filme nos seus pressupostos ficcionais baseados numa realidade concreta se resumisse a um ensaio sobre uma mulher entre mulheres em busca de um escape sem nunca o conseguir saborear plenamente, a sua missão ficaria reduzida a um panfleto. No máximo, a um grito insuficiente de revolta. Felizmente, há uma dose generosa de poesia visual que atravessa o desenho contaminado, no melhor sentido da palavra, pela simbiose de cores e contrastes de um espaço que se quer vivido sem ser necessariamente exemplar (o que, aliás, era também um dos pilares mais sólidos de «Cão Sozinho»). Há uma segura fluidez estética que reforça os movimentos e metamorfoses de um quotidiano que se desdobra implacável entre roupa, refeições e uma irritante indiferença perante o esforço exercido. Podemos assim, porque não somos empurrados para o óbvio, viajar com muito agrado através das fissuras de luz e sombra de uma ficção animada que nos agarra desde o primeiro plano, nos faz acreditar aqui e além na possibilidade da diferença, e mesmo quando ela não se materializa, nos interroga sobre o modo de ser da protagonista até ao final da derradeira sequência onde algo semelhante a uma morte silenciosa pelo desespero e impotência se concretiza diante dos nossos olhos. Belíssima selecção para a Competição Internacional do 48e Festival International du Court Métrage de Clermont-Ferrand.

Mas a presença portuguesa faz-se sentir igualmente na Competição Nacional (destinada a produções maioritariamente produzidas em França). Neste contexto, destaque para «Fille de L’Eau», 2025 (França–Holanda–Portugal), de Sandra Desmazières, mais uma animação, desta vez sobre uma mergulhadora de apneia e as metamorfoses provocadas em si e no seu espaço vital. Está nomeada para um César na respectiva categoria. Finalmente, na programação do Regards D’Afrique, uma ficção com actores de carne e osso, «A Última Colheita», 2025 (Cabo-Verde-Portugal), de Nuno Boaventura Miranda, que a produção assinala, e bem, como uma viagem poética de autodescoberta. Retrato intergeracional da diáspora cabo-verdiana em Lisboa.

