Ninguém ignora, ou ninguém devia ignorar, que num conflito de grande intensidade a possibilidade de ser racional esbarra com o mais elementar instinto de sobrevivência, a maior parte das vezes resumido ao corolário da equação “matar ou ser morto”.
Falei com muitos combatentes que participaram na linha da frente da Guerra Colonial quando avancei para o argumento e realização do documentário «Ultramar, Angola 1961-1963» (1999), e nenhum contrariou a ideia de que numa guerra o que mais se acumulam são actos de selvajaria. Todavia, o que se passa na Palestina e na Faixa de Gaza (e ainda se vai passar por muitos anos apesar dos sinais de abrandamento da violência e destruição) não se pode confundir com uma guerra convencional, já que a esmagadora maioria das vítimas nem sequer estavam armadas, não faziam parte de nenhum exército estruturado, nem sequer de uma milícia ou guerrilha, eram simplesmente civis em fuga dos locais cercados e fustigados, dia após dia, noite após noite pelas ditas Forças de Defesa de Israel (IDF, Israel Defense Forces).
No caso que ocupa o lugar central do filme «A Voz de Hind Rajab», 2025, foram soldados integrados nessas forças os responsáveis pela morte de uma menina de cinco anos, precisamente a palestiniana Hind Rajab, juntamente com outros seis membros da sua família. Todos eles se encontravam dentro de um carro que acabou metralhado junto de uma bomba de gasolina no Norte de Gaza.

Durante horas, escondida no interior do veículo, num espaço partilhado com os cadáveres ensanguentados dos seus familiares, Hind Rajab apelou com audível desespero a um grupo de funcionários e voluntários da Palestine Red Crescent Society (PRCS) que a salvassem. Implorava para que a fossem buscar, que a socorressem, e no eco da sua voz sentimos o peso de uma vida que expirava lenta e inexoravelmente no meio do caos. Tudo começou quando na citada organização foi recebida uma chamada de um familiar que a partir da Alemanha procurava mobilizar os recursos possíveis e necessários para resgatar a sobrinha. Estava a ligar para o lugar adequado, já que a Sociedade do Crescente Vermelho da Palestina constitui uma instituição independente, faz parte da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho a nível internacional, e o seu papel vem sendo reconhecido como exemplar no campo do apoio humanitário, quer na Palestina quer na diáspora.
No centro de operações do PRCS, foi Omar Alqam (Motaz Malhees) quem primeiro se inteirou da dramática situação. Será ele quem irá estabelecer a ligação com Hind Rajab e será ele quem mais adiante irá pressionar os seus colegas e superiores mais próximos a agirem. E aqui surgem as naturais contradições entre acção e emoção.
Deve ser dito que a realizadora, a tunisina Kaouther Ben Hania, não escamoteia as discussões sobre o que fazer numa situação como a que se perfila, nem procura fazer dos homens e mulheres do PRCS heróis de uma causa infalível, por muito nobre que seja. Todos eles, uns mais do que outros, mesmo os mais preparados para enfrentar crises de grande amplitude, reagem como seres humanos, no fundo como qualquer um de nós. Também nos actores se sente essa pressão (o facto de representarem não limpou da sua memória os factos reportados) e será justo salientar a coragem e prestação segura (para além do nome já citado) de Saja Kilani, Amer Hlehel e Clara Khoury.

Mas o dilema, e sobretudo o impasse que na verdade se coloca a qualquer equipa de resgate, nomeadamente aos voluntários da ambulância que estariam a meros oito minutos de distância do local onde o crime de guerra ocorrera, passava por avançarem só quando fosse estabelecida uma via segura, seja lá o que isso for num cenário volátil onde o dito pode ser facilmente substituído pelo não dito. Para além do mais, seria necessário atravessar uma zona onde o grau de destruição e a falta de actualização relativa ao mapeamento das estradas e demais eixos de comunicação poderia gerar novos e inesperados obstáculos, assim como desvios de consequências devastadoras. Na prática, quando a partir do PRCS situado na Cisjordânia se fala de oito minutos, serão mesmo esses os minutos que contam e fazem a diferença entre a vida e a morte?
Seja como for, para que o projecto fílmico fosse consistente e a sua força e impacto polarizados para além da mera noção do que ocorreu (desgraçadamente, um entre milhares de casos similares) a realização e a produção introduziram no desenvolvimento e consolidação do principal conflito dramático a componente de verdade que faz a diferença: a gravação da voz de Hind Rajab, as palavras verdadeiras que ficaram para sempre num ficheiro áudio e que irá servir de fantasmático contraponto aos diálogos ficcionados mas obtidos maioritariamente dos registos pessoais que se fizeram das conversações que os voluntários do Crescente Vermelho mantiveram entre si e com Hind Rajab, prolongando até ao limite alguma esperança no resgate de uma menina que no dia 29 de Janeiro de 2024 estava de pleno direito no seu país, mas no sítio errado e na hora errada de acordo com os ocupantes israelitas. Diz ela a certa altura: “Dentro em breve será noite. Tenho medo.” Dos muitos apelos que ouvimos, na sua inocente exclamação, este faz-nos lembrar como o significado profundo do que se diz muda conforme as circunstâncias em que nos encontramos.
Refiro isto porque me parece fundamental sublinhar a importância de ouvirmos e até sentirmos o pulsar vital de Hind Rajab na visualização do espectro áudio digital da sua voz que de forma intermitente será inserida nos planos e sequências de maior conflito emocional. Mas não escamoteio as questões levantadas a propósito da utilização desses mesmos materiais sonoros. Sabemos que a voz pertence a alguém que já partiu, e que a mãe de Hind Rajab (que sobreviveu porque não se encontrava no carro) deu autorização para a sua utilização. Mas isso são pormenores (não negligenciáveis) de produção.

De facto, a questão vai mais longe, e na minha opinião enquadra-se no julgamento que devemos fazer dos processos de construção narrativos que procuram através da realidade concreta estabelecer e validar uma base credível para uma ficção, ou seja, no filme em causa aquilo que sustenta a dinâmica do que se passa entre os voluntários do PRCS e o que se descreve como avanços e recuos no seu esforço de resgate, com especial incidência na subordinação da sua actividade a protocolos pré-determinados. Na prática, o que impede a sua eficácia e, por seu lado, os socorristas na Faixa de Gaza de responderem com inequívoca e real brevidade a uma óbvia situação de emergência. Neste contexto preciso, podia ser dispensada a voz verdadeira de uma vítima para nos concentrarmos num ou mais episódios pessoais de pura ficção, mesmo que o argumento fosse escrito com base em provas irrefutáveis do que aconteceu, a caução da verdade documentada? Penso que não. Por muito controverso que possa parecer o uso da voz de Hind Rajab, essa opção corresponde a uma espécie de grito lançado para o seio de uma atmosfera de assombro que pretende despertar os milhares de outras vozes que desde há muitos anos, e não apenas após a recente ocupação da Faixa de Gaza, foram silenciadas na Palestina. Para que não fiquem esquecidas e para nos lembrarmos não só dos que sucumbiram desde o 7 de Outubro de 2023 mas dos muitos que ficaram pelo caminho na luta por um direito que lhes assiste, ou seja, serem donos dos seus destinos, do seu património histórico e dos seus valores identitários.
Finalmente, mesmo com filtros que impedem o filme de cair no modelo voyeurista e doentio de algumas redes sociais, «A Voz de Hind Rajab» presta clara homenagem aos voluntários que na ambulância de socorro e depois de receberem luz verde para avançar acabaram abatidos e destroçados pelas IDF. São imagens duras, mas indispensáveis. Também os dois mártires farão assim parte desta narrativa proposta por Kaouther Ben Hania e produzida com o concurso de nomes da indústria cinematográfica como Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Jonathan Glazer, Rooney Mara, Joaquin Phoenix, Alfonso Cuarón, entre muitos outros.
Recordemos Hind Rajab e as outras vítimas da(s) guerra(s) e do(s) genocídio(s) não como meras notícias de um Telejornal, não como meras estatísticas de uma contabilidade macabra, mas sim como pessoas de carne e osso que merecem aqui, agora, e sempre, que se façam ouvir. Sem dúvida, apoiar e ver «A Voz de Hind Rajab» faz parte desse desígnio solidário.
Em 2025, recebeu no Festival de Veneza o Prémio do Júri e um prémio especial de ovação do público com um aplauso de pé que durou para além dos vinte minutos.
Encontra-se nomeado para os Óscares de 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional em representação da Tunísia, aliás, proeza digna de registo para o currículo da realizadora que já fora anteriormente nomeada pelo documentário «Banat Olfa» («Quatro Filhas»), 2023.
Título original: Sawt Hind Rajab Título internacional: The Voice of Hind Rajab Realização: Kaouther Ben Hania Elenco: Kaouther Ben Hania, Motaz Malhees, Amer Hlehel Duração: 89 min. Tunísia/França/EUA, 2025

