Na sua primeira longa-metragem, «Mamlaket Al-Qasab» («O Bolo do Presidente»), 2025, o realizador e argumentista Hasan Hadi, nascido no Iraque, para além de um apurado conhecimento da linguagem cinematográfica demonstrou ser capaz de condensar, com sinceridade e sem recurso a demagogias de pacotilha, a cruel realidade vivida pelo seu país no início dos devastadores anos noventa do século XX. E isso deve-se seguramente ao facto de saber muitíssimo bem do que estava a falar. Mais, não só sabia, como não abandonou a coragem de nos contar a vida verdadeira de um povo martirizado. Através de uma ficção, que se apresenta do início ao fim, como um dos possíveis retratos do multifacetado e por vezes nada abonatório real comportamento dos seus compatriotas. Estes, na época, viviam sob pressão e no limite dos limites do que se pode ou não aceitar no quadro da condição humana.

Para que fique claro, o filme concentra a acção nas regiões pantanosas e nos meandros labirínticos de uma cidade, ambas as localizações situadas no Sul do Iraque. Tempo histórico, Primeira Guerra do Golfo (2 de Agosto de 1990 – 28 de Fevereiro de 1991).

Para dar credibilidade ao quadro geral da narrativa, muito importante será dizer que a rodagem aconteceu no Iraque e nos locais a que ela se refere. Da realidade política sobressai a então presença do regime liderado por Hassan Hussein, reforçado e disseminado pelos seus partidários nos mais diversos escalões da sociedade. Da realidade social sobressaem as dificuldades de um povo ao qual o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs sanções desumanas, sim, porque essas medidas repressivas acabam sempre por atingir não a elite mas os que se encontram e sempre se encontraram mais desprotegidos, os que já eram pobres, os que já circulavam no outro lado da barricada social. Por essa razão, sanções como as que foram impostas, para além de serem ineficazes, acabaram por gerar conflitos entre aqueles que para sobreviver passaram a servir-se de expedientes canalhas, manhas, vigarices, prepotências, e não raro, da mais reles chantagem para obter favores inomináveis.

Mas Hasan Hadi não quis fazer uma obra sobre o que era óbvio, sobre a miséria e o desespero que corrompe a alma. Não quis reunir nem coleccionar um conjunto de cromos de monstros no lugar das pessoas de carne e osso e alma destroçada, porque monstruosa era a guerra que assolava o Iraque. Monstruosa fora a guerra que ocorrera pouco antes, a Guerra Irão-Iraque (22 de Setembro de 1980 – 20 de Agosto de 1988). Não obstante as datas oficiais de início e fecho, as consequências dos conflitos prolongam-se por décadas e já presenciei in loco como a memória destes deixa marcas profundas, mesmo entre os que não combateram mas sofreram o lancinante ardor das feridas não saradas e o abismo de vidas e famílias destruídas.

Porque queriam um filme redentor, a produção e a realização investiram na história de uma menina, Lamia (admiravelmente interpretada por Baneen Ahmed Nayyef) que no pântano vive com a avó, Bibi (outra grande presença de Waheeda Thabet Khreiba). Na escola, para onde se desloca de canoa, a jovem estudante não consegue fugir ao sorteio que um autoritário professor cumpre com o zelo dos funcionários que não ousam levantar a voz contra quem quer que seja que coloque em causa os que lhe pagam o salário. Rifa atrás de rifa, na aula que em circunstâncias normais deveria resplandecer de orgulho e festa, cai um manto funesto de impotência e perplexidade, ou seja, Lamia fica encarregada de entregar um bolo para ser consumido no dia do aniversário do Presidente Hassan Hussein. Para quem vivia nas margens da sociedade e com dificuldades económicas, habituada a parca alimentação, a mera ideia de confeccionar um simples bolo era um autêntico pesadelo. Onde ir comprar os ovos, a farinha, o açúcar, o fermento, e pior, onde adquirir esses produtos na altura escassos e caros, e finalmente com que dinheiro? Será a experiente Bibi a elaborar uma solução, que não esconde a raiva manifestada através de um silêncio surdo, protesto interior de quem não quer comprometer o futuro da neta nem a quer ver castigada. E será assim que ambas partem rumo aos caminhos cruzados da cidade mais próxima.

Pelo caminho e ainda nos canais que atravessam a sua aldeia lacustre, Bibi recorda a Lamia uma passagem de “A Epopeia de Gilgamesh”, a mais antiga obra literária da Humanidade, originária da antiga Mesopotâmia, que narra a história de Gilgamesh, Rei de Uruk, monarca implacável que se torna amigo do homem selvagem Enkidu, e após a morte deste, embarca numa jornada angustiante pela imortalidade. Na boca de Bibi, mais palavra menos palavra, ouvimos que no poema épico está escrito que aos seres de coração puro foi prometido que podiam ver a imagem dos que amavam reflectida nas águas. Parece um apontamento sem grande importância, pelo menos, no decorrer dos primeiros minutos de «O Bolo do Presidente», mas o ecoar do seu mais profundo significado irá perdurar sobre a relativa perenidade da mitologia citada e será revelado no final de forma clara, impactante, todavia subtil. Quem se der ao cuidado de aprofundar o estudo da mitologia irá desencantar outros e mais fascinantes fios condutores que muito provavelmente serviram de base para delinear a estrutura final do argumento e guião. Trata-se no fundo de acompanhar a odisseia, ou calvário, de uma avó, de uma neta, e ainda as peripécias de um rapaz com presença intermitente, Saaed (Sajad Mohamad Qasem), filho de um marginal, que por motivos inconfessáveis mas expectáveis se mostra amigo dos bens alheios.

Para além deste núcleo central não podemos esquecer a outra grande personagem que serve aqui de literal mensageiro das boas e más notícias, a figura do carteiro interpretada por Rahim AlHaj, (será ele que de algum modo substitui Bibi na função de proteger a mais inocente das figuras “peregrinas” num mundo rodeado de perigos e armadilhas a cada esquina). Fora ele, aliás, quem dera a boleia necessária para que Bibi e Lamia chegassem ao seu almejado destino pelas já citadas e amargas razões. Será ele que personifica a bondade num labirinto de vileza. (Na vida real, Rahim AlHaj é um consagrado músico e mestre do oud). E seria imperdoável ignorar no contexto emocional o apego de Lamia a um galo, a quem chama Hindi, que carrega aos ombros num saco. Este invulgar bicho de estimação vai igualmente desencadear uma das mais angustiantes demandas da jovem dona que o perdera de vista quando se ausentara para rezar na mesquita.

Não obstante a falta de complacência com que pinta uma realidade onde prevalece o “cada um por si”, Hasan Hadi soube pintar as cores de um quotidiano nada simpático sem atirar para cima de ninguém o negro da culpa. Como se disse, não estamos no domínio da narrativa simplificada para consumo imediato. Sequência após sequência, assistimos ao desenrolar de vários dramas que se confundem num só, sem que para isso sejamos forçados a interpretar ou acreditar no que vemos pela imposição de estratégias redutoras de manipulação. E sem papas na língua, independentemente das motivações de materializar uma história adulta sobre pessoas comuns numa situação extraordinária e difícil, o realizador não hesitou em sublinhar as suas preocupações relativamente ao resultado das sanções cuja memória influenciou o clima geral do seu filme:Foram mais devastadoras do que a invasão americana. Sanções são a ferramenta mais violenta imposta a cidadãos comuns”. (…) Quando os pais já não podem sustentar os filhos, quando somos forçados a fazer coisas que não queremos, algo dentro de nós muda para sempre”. (…) “Sanções são uma forma de terrorismo. São cortes na comida, nos remédios e nos meios de sobrevivência”. (…)“O Iraque sobreviveu à guerra com o Irão. Entretanto, a economia seguiu forte e a educação era excelente”. (…) “Mas olhem para o Iraque após as sanções. Olhem para a Síria e o Irão depois das sanções. Sanções nunca removem ditadores, pelo contrário, dão-lhes mais força, porque ao limitar os recursos disponíveis para o povo, eles serão concentrados nas mãos dos mais poderosos. Saddam Hussein ficou muito mais forte depois das sanções”.

Mas há mais por relatar, e aqui fica um dado que importa reter: «O Bolo do Presidente» não esconde ser igualmente uma homenagem aos que nos pântanos resistiram a várias ofensivas, a das forças ocidentais e as do exército iraquiano fiel ao poder que acabou por não ser derrubado. Demos a palavra de novo ao realizador: “Em 1991, houve uma revolta contra Saddam. O então presidente dos EUA, George H. Bush (pai de George W. Bush), incentivou os iraquianos a derrubá-lo. Quase todas as cidades caíram nas mãos dos rebeldes. Washington deparou-se entretanto com receios de que o país se tornasse num outro Irão e decidiu fornecer caças e helicópteros a Saddam, que por fim esmagou a rebelião”. Esta operação foi acompanhada por uma “Campanha da Fé”, que introduziu o wahhabismo no país, corrente ultraconservadora do Islão. E acrescenta Hasan Hadi: “Em 1998, Saddam achou que os novos fiéis estavam a ir longe demais e decidiu matar muitos deles. Foi perturbador! Mas foi assim que o Iraque se tornou religiosamente conservador, junto com a ascensão dos partidos islâmicos em 2003”.

Em suma, neste princípio de 2026 e nas salas de cinema nacionais, “O Bolo do Presidente” constitui a primeira grande estreia e uma oportunidade soberana para reflectirmos sobre a pulhice humana que grassa no pântano dos nossos dias, mas onde, haja esperança, pode florescer uma alma pura capaz de ver o rosto dos seus amados, nem que seja nas águas gélidas do cálculo egoísta, e já agora, a visão de um futuro radioso e distante do aparente beco sem saída a que a cobiça e ganância imperialistas nos estão a conduzir.

Beneficiando de apoios que de certo modo sustentaram e promoveram o projecto fílmico de Hasan Hadi até um patamar mais alto, para além de capital iraquiano “O Bolo do Presidente” recebeu financiamentos do Qatar e dos EUA. Na altura em que escrevo esta crítica o filme encontra-se na short list dos Óscares na categoria de International Feature Film. Representa o Iraque. No próximo dia 22 de Janeiro de 2026 logo veremos se conseguiu integrar ou não a lista das nomeações finais. Tem concorrência de peso e, apesar de merecer, não vai ser fácil…!  

Seja como for, para além de inúmeros prémios a nível internacional, no Festival de Cannes de 2025 recebeu um mais do que justo galardão, o Caméra D’Or.

Título original: Mamlaket Al-Qasab Título internacional: The President’s Cake Realização: Hasan Hadi Elenco: Baneen Ahmad Nayyef, Waheed Thabet Khreibat, Sajad Mohamad Qasem Duração: 105 min. Iraque/EUA/ Catar, 2025

ARTIGOS RELACIONADOS
SIRÂT – estreia Filmin

No filme de Oliver Laxe, “Sirât”, 2025 (Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2025), sobressai uma enigmática palavra Ler +

A Voz de Hind Rajab – A Terrível Chamada Que Desmascarou a Ordem Mundial

Uma criança ao telefone, 355 tiros num carro o que nenhum prémio de festival ou da indústria consegue calar: como Ler +

A Voz de Hind Rajab

Ninguém ignora, ou ninguém devia ignorar, que num conflito de grande intensidade a possibilidade de ser racional esbarra com o Ler +

A Voz de Hind Rajab – trailer

29 de janeiro de 2024. Voluntários do Crescente Vermelho recebem uma chamada de emergência. Uma menina de 6 anos está Ler +

Sirât – Oliver Laxe em entrevista

«Sirât» é um dos melhores filmes de 2025, ninguém sai indiferente desta alucinante experiência cinematográfica. É um espectáculo transe que Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.