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A Grande Eleanor

«A Grande Eleanor» é aquele tipo de filme que nasce com boas intenções, pedigree respeitável e uma ideia potencialmente explosiva e depois faz tudo para não lidar verdadeiramente com nenhuma delas. A estreia da actriz Scarlett Johansson na realização quer ser sensível, humana, delicada, mas acaba refém de um medo permanente de incomodar, de ferir susceptibilidades ou, pior ainda, de pensar até às últimas consequências o tema que escolheu.

O melhor do filme — e isso convém dizê-lo sem rodeios — chama-se June Squibb. Aos 95 anos, Squibb continua a ter mais presença, ritmo e ironia num levantar de sobrancelha do que muitos elencos inteiros. A sua Eleanor Morgenstein é uma viúva judia espirituosa, algo abrasiva, daquelas que não pede licença para dizer o que pensa à vezes até às vezes se tornando um tanto inoportuna. É nela que o filme respira, sorri e até engana o espectador durante algum tempo.

O problema começa quando Eleanor, viúva e solitária, decide infiltrar-se num grupo de sobreviventes do Holocausto, apropriando-se das memórias da amiga falecida para preencher um vazio emocional. Aqui estava matéria para uma comédia negra devastadora ou para um drama moral desconfortável. Johansson escolhe, em vez disso, um tom morno de “filme de domingo à tarde”, onde tudo é suavizado, desculpabilizado e cuidadosamente embrulhado em boas intenções.

Quando a mentira inevitavelmente vem à tona, o filme recua. Não há verdadeiro confronto ético, não há peso histórico, não há consequências reais. A impostura — um tema perigosíssimo num mundo onde o negacionismo do Holocausto cresce — é tratada como um pequeno deslize emocional compreensível. É aqui que «A Grande Eleanor» falha de forma mais grave: confunde empatia com complacência.

O subplot jornalístico, com uma jovem estudante idealista e um pai pivot televisivo (interpretado por Chiwetel Ejiofor, sempre elegante), é particularmente ingénuo. Num filme que envolve identidade, memória e mentira histórica, ninguém parece demasiado preocupado com o impacto público da história. Jornalismo sem perguntas incómodas, ética sem dilemas, tudo muito limpo, tudo muito falso.

Há ainda a questão do lar de idosos, introduzida e resolvida como se fosse um item burocrático da narrativa. Eleanor resiste, depois aceita, e o filme nunca explica verdadeiramente porquê. Porque dá jeito ao argumento, basicamente.

Scarlett Johansson falou da sua herança judaica e do peso pessoal do tema e isso sente-se na intenção. Falta-lhe, porém, distância crítica e, sobretudo, coragem. «A Grande Eleanor» quer ser um filme sobre memória, culpa e solidão, mas tem medo de sujar as mãos. Fica a simpatia, ficam os sorrisos de June Squibb, e fica a sensação de que este filme podia — e devia — ter sido muito mais incómodo.

Título Original: Eleonor the Great Realização: Scarlett Johansson Com: June Squibb, Erin Kellyman, Chiwetel Ejiofor Origem: EUA Duração: 98 minutos Ano: 2025

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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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