«Mundo Jurássico – Renascimento» é puro deslumbramento, consegue ser monumental e simultaneamente um filme nostálgico.
«Mundo Jurássico – Renascimento», faz justiça ao seu nome. Após duas trilogias que arrasaram as bilheteiras mundiais com um total de 6 biliões de dólares, a saga fez um “reset” e começa novamente em grande. Preparem-se para um filme que não é apenas um blockbuster – é um grande blockbuster – parece mesmo uma viagem no tempo, para aqueles dias gloriosos de Verão numa sala de cinema com o público numa hipnótica sintonia com o grande ecrã.
Após o prólogo inicial, explica-se que os dinossauros estão a morrer, o único local onde estes conseguem sobreviver é a região do Equador, onde o clima ainda é semelhante ao de há milhões de anos atrás. Uma empresa farmacêutica deseja criar um medicamento revolucionário para combater as doenças cardíacas. A farmacêutica concluiu que a melhor forma para gerar essa cura é o sangue e os tecidos de três dinossauros gigantes que estão no ar (Quetzalcoatlus), no oceano (Mosasaurus) e em terra (Titanosaurus). Os três possuem corações gigantes que permitiram a longevidade das suas espécies quando dominavam a Terra há milhões de anos atrás.
A missão é impelida por muitos zeros e liderada por uma operativa das forças especiais. Zora Bennett (Scarlett Johansson) está cansada de missões impossíveis e vê o prize money desta missão como o seu bilhete para a reforma. Zora é contratada por Martin Krebs (Rupert Friend), o representante da farmacêutica que não olha a meios para atingir os seus propósitos. Eles são acompanhados na expedição pelo Dr. Henry Loomis (Jonathan Bailey), um perito e ex-aluno do Dr. Alan Grant (Sam Neill), um paleontólogo motivado pela ciência, decide ver pela primeira vez os dinossauros no seu habitat natural. Ainda se juntam mais alguns personagens à expedição, onde se inclui Duncan Kincaid (Mahershala Ali), um caçador de fortunas e ex-colega de Zora.
A grande surpresa da narrativa é adicionar aos caçadores de dinossauros uma família que é abalroada no seu veleiro em alto mar por um gigante Mosasaurus. Eles são salvos por Zora e companhia e acabam por ir parar igualmente à perigosíssima e isolada ilha dos dinossauros na zona do Equador, onde antes esteve um laboratório secreto da InGen. A entidade responsável pela clonagem dos dinossauros e onde decidiram criar aberrações genéticas, é claro que a experiência correu mal…
O elenco rima na perfeição sob a liderança de Scarlett Johansson, uma actriz consolidada que sabe carregar um blockbuster com a sua versatilidade entre a intensidade das cenas de acção mas também o humor. Ela tornou-se um T-Rex que há muito se libertou da imagem de ser apenas uma actriz atraente, demonstrando as suas capacidades dramáticas e a tenacidade nas sequências de acção. Mesmo nos filmes da Marvel, ela era claramente uma actriz que se distinguia entre as demais. Mas Scarlett não está sozinha, contracena com outro dos nossos favoritos, Mahershala Ali, com o seu primeiro grande desempenho num papel de action hero que – tal como Scarlett Johansson – traz algo mais (dramático) ao seu personagem. Manuel Garcia-Rulfo é o patriarca da família Delgado e tenta proteger as suas filhotas dos dinossauros e do namorado da filha que vai contrariar as expectativas.

Um dos aspectos para o sucesso do filme foram os eventos e a aventura filtrada pela família Delgado, momentos ultra emocionantes e bem espelhados nas interpretações do clã, surpreendeu-nos imensamente. Eles separam-se da equipa que está na sua missão secreta, tentam encontrar o laboratório e uma forma de regressar à civilização. Para isso, têm de sobreviver aos perigos do Jurássico.
O espectador tem em simultâneo duas histórias que sobrevivem lado a lado aos perigos da selva e são férteis em momentos icónicos deste filme. As emoções fortes têm muito o espírito dos blockbusters criados por Spielberg, não só o «Parque Jurássico», mas também Indiana Jones e «Tubarão» (1975), num excelente tributo numa sequência marítima a um filme que celebra 50 anos em 2025.
Uma das melhores sequências do filme foi recuperada por David Koepp e Steven Spielberg, envolve um T-Rex a dormir a sesta, após ter devorado a sua presa à beira-rio, uma família, águas rápidas e um bote de borracha… Na altura em que se criou «Parque Jurássico» (1993) não era tecnologicamente exequível a introdução dessa cena criada no livro de Michael Crichton.
O filme está dividido em capítulos marcados pelas três sequências chaves (com os dinossauros acima descritos) e pelo meio a sequência brilhante com o T-Rex e um desfecho explosivo, uma sequência de terror noturno com dino “freak” e mais uns dinossauros esfomeados. Cada um destes momentos do filme é executado na perfeição.

É preciso dar mérito à Universal Pictures e aos produtores onde figura o nome de Steven Spielberg (produtor executivo). A produção é da Amblin – não é acidental – Renascimento tem esse DNA de magia dos clássicos desta mítica companhia. Depois temos um escriba que está no topo do mundo, alguns dos maiores sucessos dos últimos anos têm a assinatura de David Koepp, que assinou os dois primeiros Parque Jurássico e, em 2025, «Black Bag» e «A Presença» de Steven Soderbergh. Ele baseou-se no universo criado pelo falecido Michael Crichton. David Koepp elaborou uma narrativa que explora os sentimentos verossímeis dos personagens (particularmente seus medos) enquanto eles lutam para sobreviver a forças imprevisíveis e titânicas.
O filme foi muitíssimo bem realizado por Gareth Edwards, um realizador pelo qual tenho um carinho especial pelo seu magnífico (e cada vez mais valorizado) «Rogue One: Uma História de Star Wars». E recordo que ele se lançou na ribalta com muito engenho (e meia dúzia de tostões) com «Monsters – Zona Interdita» (2010).
A direção de fotografia é de John Mathieson, um grande trabalho visual, tinha apreciado bastante «Logan» (vejam a edição a P/B) mas aqui ele supera-se nos vários ambientes. A composição sonora pertence a Alexandre Desplat, outro grande compositor que segue a tradição das paisagens sonoras da saga sob a batuta do GOAT John Williams.
O resultado do filme é um mérito conjunto, mas também uma viagem à origem do fenómeno no reencontro da emoção humana para lá dos (extraordinários) artifícios tecnológicos. «Mundo Jurássico – Renascimento» é uma montanha-russa de emoções, mas com muitas raízes clássicas, não há momentos “mortos” ou para encher chouriços, as interpretações são convincentes e o argumento e a realização aliam-se a um aparato técnico e artístico sem paralelo. É imprescindível assistir a este Renascimento numa sala de cinema. Quem disse que os Dinossauros passaram de moda?
Título original: Jurassic World: Rebirth Realização: Gareth Edwards Elenco: Scarlett Johansson, Jonathan Bailey, Mahershala Ali, Manuel Garcia-Rulfo, Luna Blaise Duração: 134 min. EUA, 2025

