Sabemos que o filme «Wicked», 2024, realizado por Jon M. Chu (que estreia este ano a primeira das duas partes previstas) se inspirou no musical homónimo e mega-sucesso da Broadway, por sua vez adaptado com alguma liberdade do romance de Gregory McMaguire Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West (1995). Como outras produções nas mais diversas vertentes do entretenimento, o argumento incorpora personagens idealizadas pelo escritor americano L. Frank Baum (1856-1919). Dito isto, durante o visionamento da mais recente “versão”, por muitas voltas que observemos na actualização da história, não deixamos de nos lembrar do clássico dos clássicos da fantasia e deslumbramento que ficou conhecido por «The Wizard of Oz» («O Feiticeiro de Oz»), produzido num ano mítico da História de Hollywood, 1939. Filme dirigido para a MGM por Victor Fleming, que o assinou, mas em que participaram igualmente Norman Taurog, Richard Thorpe, Mervyn LeRoy, George Cukor e sobretudo King Vidor.

Mas a memória e evocação da que, na minha opinião, continua a ser a mais fascinante das obras concebidas a partir da mesma matriz, faz-se por comparação subjectiva e objectiva entre o papel relativo que algumas personagens então ocupavam e o papel que lhes foi confiado agora em «Wicked», com especial destaque para as protagonistas Elphaba e Gelinda, respectivamente interpretadas por Cynthia Erivo e Ariana Grande. Elphaba distingue-se das restantes figuras que dão corpo ao elenco pela acentuada diferença de cor da sua pele. Esta “colorida” marca, consequência inesperada de uma relação entre um branco e uma negra, constitui o pecado original de um acto de miscigenação que gera, quer queira quer não, uma óbvia subversão de valores existenciais que irá prevalecer ao longo da narrativa. Por outras palavras, não bastava que fosse mestiça, precisava ainda de carregar em si e num contexto pouco dado a conciliações étnicas o incómodo estigma do verde cobalto. Transgressão ficcional ainda mais acentuada se pensarmos que a irmã que ela apoia se safou dessa pigmentação com um arzinho de inocente, ligeiramente crioulo, que a faz passar por alguém mais apta a integrar a boa sociedade e os corredores de uma universidade marcadamente elitista e, já agora, racista e arrogante, onde desponta a figura pedante de uma flausina que sabemos desde o início ser a famosa Glinda, a fada boazinha (uma mulher adulta, e que mulher!) que tanto no filme de 1939 como no de 2024 aparece a pairar no meio de uma bolha para saudar e ser saudada pelos habitantes da Terra do Oz, os Munchkins. Desta vez estes pequenos seres não são liliputianos, mas sim uns rapazolas e moçoilas com idade para se candidatarem ao casting de uma qualquer série juvenil, com ou sem açúcar. Gelinda, que mais para a frente se vai auto-rebaptizar de Glinda em homenagem a um professor expulso da Universidade de Shiz por ser um bode velho, sim, um animal que fala e que aparenta mais sabedoria, dignidade e integridade intelectual do que a maioria dos alunos (e não estou a ser irónico), será por muitos e bons minutos a rival número um de Elphaba, nada mais, nada menos, a futura Wicked Witch of the West (Bruxa Má do Oeste). Sabendo que a irmã desta, a Wicked Witch of the East, morre no «Feiticeiro de Oz» de 1939 e os seus cobiçados sapatinhos de rubis vermelhos vão parar aos pés de Dorothy (Judy Garland), estou muito curioso para saber como vão os produtores, realizador e argumentistas descalçar a bota do lugar que ela merece no segundo volume desta mini-saga, que fez da irmã sobreviva nesta primeira abordagem, na minha opinião e na de qualquer espectador exigente, a verdadeira protagonista. Diga-se, só esse facto merece as estrelas que dei no quadro reservado para as ditas nesta revista. Nem sequer me atrevo a pensar que a dupla personalidade de Elphaba/Wicked Witch of the West vai igualmente morrer por acção da água que a derrete fazendo-a desaparecer. Bom, já me atrevi!

Mesmo considerando a competência das actrizes para comporem os seus papéis, há uma coisa que sobressai sem apelo nem agravo. Ariana Grande enquanto Gelinda/Glinda nunca consegue, ou muito raramente consegue, sair do registo de garota do shopping armada em grã-fina e rosto de quem não sabe onde se encontra o “Ulisses” de James Joyce e pergunta a seguir se não será antes o James Joyce do Ulisses de que “viu” um exemplar na estante das biografias. Já Cynthia Erivo enquanto Elphaba consegue, debaixo de uma maquilhagem que lhe podia dificultar a expressão das mais íntimas emoções, dar boa conta das mil e uma nuances inerentes a alguém que será sucessivamente rejeitada, humilhada, colocada perante desafios maiores do que a vida e que só por obra e graça de forças invisíveis, que simulam ser muito queridas mas no fundo a manipulam, atinge o lugar supremo que se irá revelar a maior das ilusões. E fá-lo aqui e além com humor, subtileza e precisão, mas igualmente com vigor e com uma continuidade de registo dramático perfeitamente exemplar. Na verdade, ao alcançar as portas da Emerald City (Cidade Esmeralda) para onde o Feiticeiro de Oz a convidou, não pelos seus lindos olhos (e são mesmo muito bonitos) mas porque precisava dela para planos inconfessáveis, Elphaba percebe que o Paraíso não existe e que o seu destino irá sofrer uma volta de cento e oitenta graus. Próxima paragem, 2025, e logo veremos no que vai dar…! Mesmo quando uma improvável reconciliação se desenha entre Elphaba e Glinda, cada uma na sua paleta de cores situada entre o verde com uma pitada de negro e o corriqueiro cor-de-rosa, o prato da balança ficcional pende sempre para a mágica presença da bruxa que vai ser ou devia ser no futuro próximo a má da fita. E se não for assim, glória, aleluia e abram alas para uma nova ficção onde a memória histórica se encerra para dar lugar a um novo ciclo oziano (se não existe esta palavra, passa a existir). Será melhor? Pior? Para já, no campo do espectáculo cinematográfico puro e duro, este «Wicked» cumpre a função e posiciona-se como uma das boas prendas cinéfilas nesta quadra festiva para segmentos muito diversificados do chamado grande público. Não me faz esquecer outros filmes que vão igualmente estrear e que me seduzem com maior intensidade, mas funciona e alimenta-nos a expectactiva para a anunciada continuação.   

Por fim, gostava de referir a importância da articulação entre o CGI e os elementos praticáveis da cenografia e adereços que conferem uma autenticidade aos ambientes onde as personagens se movimentam. Sente-se que os actores estão confortáveis no seu desempenho porque não estão a olhar para referentes e rodeados de ecrãs azuis. Durante a rodagem, olham-se olhos nos olhos. Dançam em espaços que podem fisicamente atravessar. Há um comboio meio barroco, meio futurista que foi construído numa escala “humana” para a viagem entre a Terra do Oz e a Cidade Esmeralda. Essa sequência não dura mais do que uns dez minutos num filme de duas horas e quarenta, mas fica na memória. No início damos conta de um imenso campo de flores plantadas especialmente para o filme. E pelo meio, numa sequência similar, vemos de relance Dorothy, o Leão Cobarde, o Espantalho e o Homem de Lata. Por outro lado, há momentos em que a parafernália digital ao dispor proporciona sequências de grande invenção visual, como as que se desenrolam na biblioteca da Universidade Shiz. Mesmo os efeitos especiais mais previsíveis, porque necessários ao progresso da ficção, justificam a sua exuberância. Por exemplo, a mutação dos macacos que guardavam o Feiticeiro de Oz em seres alados, os futuros Flying Monkeys (Macacos Voadores) que irão seguramente acompanhar a Bruxa Má do Oeste e que no livro “The Wonderful Wizard of Oz”, publicado em 1901, acabavam controlados pela jovem e inocente Dorothy. No plano musical, uma das observações dignas de nota será a constatação de que só esta primeira parte da versão cinematográfica de «Wicked» dura mais do que o musical estreado na Broadway. De facto, isso significa em grande medida que o “peso” das canções e das respectivas orquestrações não se faz sentir de forma negativa por excesso e, mesmo quando o gosto de cada um possa estar noutros géneros, há uma partitura que no geral preenche os requisitos mínimos subjacentes a um melodrama maduro, nada verde, apesar da cor dominante da figura com maior protagonismo.

Título original: Wicked Realização: Jon M. Chu Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Ethan Slater, Jonathan Bailey, Marissa Bode, Peter Dinklage Duração: 160 min. EUA/Canadá/Islândia/Reino Unido, 2024

  • Premiado nos Globos de Ouro 2025 nas categoria de MELHOR FILME POR MÉRITO CINEMATOGRÁFICO E COMERCIAL

Fotos: Universal Studios. All Rights Reserved.

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