Benny Safdie levou para Veneza um murro no estômago. Não foi um nocaute, mas também não foi uma amena simulação de luta: «The Smashing Machine – Coração de Lutador» é um daqueles filmes que nos deixa zonzos, como quem apanha um direto no queixo sem aviso. Dwayne “The Rock” Johnson veste a pele (e os ossos partidos) de Mark Kerr, um verdadeiro campeão de MMA que descobriu, da pior maneira, que até os homens-montanha podem ruir como castelos de cartas.

Safdie já tinha mostrado talento para filmar o caos em “Good Time” (LEEFEST 2025) e “Uncut Gems” (Netflix 2020), mas aqui troca a vertigem urbana pela claustrofobia do ringue. É um filme sobre a masculinidade em colapso, sobre o vazio que sobra quando o corpo falha e a plateia já não grita o nosso nome. Mark Kerr perde, e essa derrota é mais devastadora do que qualquer fractura exposta: perde o mito, a aura, o lugar no altar dos invencíveis.

Johnson, normalmente refém da sua persona de super-herói musculado, surpreende. Esconde-se atrás de próteses, cabelo encrespado e uma aura de fragilidade que ninguém lhe reconhecia. Por momentos, parece menos uma estrela de Hollywood e mais um tipo à deriva, perdido entre opiáceos, crises de raiva e um romance que ameaça implodir. Emily Blunt, como Dawn, a namorada que aguenta a tempestade, oferece a única âncora emocional da história. Pena que o filme não lhe dê mais espaço: tal como no mundo do UFC, aqui também os homens ocupam todo o ringue.

O problema é que Safdie fica dividido entre duas vontades: a de filmar a queda de um homem e a de agradar à plateia de fãs do MMA. O drama íntimo nunca chega a superar o peso da pancadaria, e o clímax no combate contra o amigo-rival Mark Coleman fica aquém da tragédia anunciada. Não há aqui a loucura operática de «Foxcatcher» nem a intensidade sufocante de «The Iron Claw». O que existe é um retrato cru, por vezes comovente, de um gigante que chora sozinho no balneário, enquanto um funcionário do catering hesita em partilhar o elevador com ele.


Safdie ganhou o Leão de Prata de Melhor Realização, e percebe-se porquê: filma os corpos como se fossem paisagens em ruínas, a dor como se fosse um close-up inevitável. Mas falta-lhe a coragem de levar o drama até ao limite. Ficamos a meio caminho entre o documentário ficcional e a tragédia grega, com um pé na luta e outro na novela conjugal.

No fim, «The Smashing Machine-Coração de Lutador» não é o murro no estômago que poderia ter sido, mas ainda assim deixa marca. E prova uma coisa rara: Dwayne Johnson consegue, finalmente, ser mais do que músculo e carisma. Consegue ser humano e isso, convenhamos, dói mais do que qualquer golpe no ringue.

Título Original: The Smashing Machine Realização: Benny Safdie Com: Dwayne Johnson, Emily Blunt, Ryan Bader Origem: EUA, Japão, Canadá Duração: 123 minutos Ano: 2025

fotos: @2025 A24

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