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Silicon Valley Comprou Hollywood E Agora Quer Comprar a Nossa Atenção

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

Do estúdio ao servidor, do realizador ao algoritmo: parece que o cinema vai deixar de ser uma arte para virar produto optimizado pela IA. Verdade ou ficção científica num futuro muito próximo?

Durante décadas, Hollywood vendeu-nos um mito lindo e quase mágico: homens e mulheres talentosos, meio loucos, meio geniais, fechados em salas esfumaçadas a inventar histórias que depois iluminavam salas escuras por todo o mundo. Havia dinheiro, claro. Havia interesses. Havia tubarões. Mas ainda havia a ilusão de que o cinema era, antes de mais, uma aventura artística: a Sétima Arte. Agora essa ilusão parece estar em saldo. Com formatação e desconto na subscrição ou assinatura mensal.

O novo estúdio chama-se servidor. O novo produtor chama-se algoritmo. E o novo patrão atende pelo nome de Netflix, acompanhado pelos seus primos ricos: Amazon e Apple. Hollywood, como a conhecíamos, não foi derrotada numa batalha épica. Foi sendo comprada a prestações.

Enquanto os velhos estúdios viviam do risco — acertar ou falhar na bilheteira — as big techs vivem da estatística. Sabem o que vemos, quando paramos, quando desistimos, quando bocejamos e quando carregamos em “próximo episódio”, como ratos bem treinados. A partir daí, fazem filmes e séries como quem faz detergente: fórmula testada, cheiro aprovado, embalagem adaptada ao perfil do cliente. O realizador já não pergunta: “O que quero contar?” Pergunta: “Qual é o formato que retém mais minutos os espectadores?” É aqui que o cinema começa a parecer uma folha de Excel com actores.

A possível compra da Warner Bros. Discovery pela Netflix é o símbolo máximo desta mutação: não basta distribuir, é preciso controlar. Produção, catálogo, memória cultural, tudo num pacote só. Como se a Biblioteca de Alexandria fosse comprada por uma empresa de entregas ao domicílio. E depois vem a inteligência artificial, esse novo estagiário que nunca se cansa, nunca faz greve e nunca pede direitos. Já escreve, edita, dobra, corrige, faz legendas, simula vozes, recria rostos. O próximo passo é simples: filmes sem pessoas. Histórias sem vivência. Emoção sem experiência. Um cinema feito por padrões, ao nível dos reels do Instagram.

Hollywood sempre foi uma grande indústria. Mas ainda tinha ego, vaidade, loucura, falhas. No Vale do Silício, o erro é um bug a corrigir. A imperfeição é um problema técnico. E as salas de cinema? Estão a tornar-se quase museus. Lugares onde vamos, de vez em quando, rever o que era “ir ao cinema”. Como quem vai a um teatro romano ou ver uma locomotiva a vapor. Bonito. Nostálgico. Irrelevante para o sistema. O público, claro, já se adaptou. Espera 30 dias. Espera 20. Espera 15. “Depois vejo em casa.” E vê, interrompido por notificações, mensagens, memes e vídeos de gatos. O filme já não é um acontecimento. É mais um separador aberto na vida digital.

E há uma ironia deliciosa nisto tudo: a Netflix começou quase como uma piada: envio de DVDs pelo correio. Quase foi vendida à Blockbuster por trocos. Hoje manda mais em Hollywood do que qualquer produtor lendário dos anos dourados. Moral da história: quem controla a tecnologia controla o imaginário. E então, o cinema vai acabar? Não. Vai encolher. Vai especializar-se. Vai resistir em nichos, em festivais, em salas independentes, em cineclubes teimosos, em realizadores que ainda preferem errar a obedecer. Mas o centro de poder mudou. Saiu das colinas de Los Angeles, onde há dias Sydney Sweeney pendurou a sua marca de lingerie, e foi parar aos data centers da Califórnia. Agora, as histórias não nascem da urgência humana. Nascem da leitura fria de milhões de cliques. O Vale do Silício não quer apenas filmes. Quer o nosso tempo, a nossa atenção, os nossos hábitos, os nossos desejos. E está a consegui-lo. A grande questão já não é se o cinema sobreviverá. É outra, bem mais desconfortável:

Quando tudo for optimizado, calibrado e previsto… ainda haverá espaço para o imprevisto? Para o risco? Para o erro bonito? Para o filme que ninguém pediu — ou que não esperávamos ver — e que depois nos muda a vida? Se a resposta for não, então não foi Hollywood que morreu. Fomos nós que desligámos a luz da sala.

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