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Que falta nos faz o Cacá

Rodrigo Fonseca, Crítico de Cinema

Estávamos encantados com a Berlinale de 2025 quando Carlos Diegues (1940-2025), o Cacá, virou estrela. A sua morte foi anunciada a 14 de fevereiro do ano passado e ele nos deixou um mimo. E existe um canto do cisne da parte dele, a longa-metragem de tom fabular «Deus Ainda É Brasileiro», que continua inédita. Foi rodada em 2022, a meio do Campeonato do Mundo de Futebol. Também não estreou o documentário feito em sua honra por Karen Harley e Lírio Ferreira: «Para Vigo Me Voy!». Esse documentário foi apresentado na seção Classics do Festival de Cannes, em maio de 2025, e exibido em Gramado, em agosto. 

Há vários recortes do legado de Cacá em «Para Vigo Me Voy!», incluindo uma entrevista inflamada realizada no lançamento de «Quilombo», na França, em meados dos anos 1980. Há imagens dos sucessos que fizeram dele um artesão das narrativas cinematográficas, imortalizado com a sua inclusão na Academia Brasileira de Letras (ABL), justificada pela sua devoção à escrita, em crónicas.

Na lógica de Cacá, o ponto focal de um filme sempre é vetorizado pela vivência e pela urgência do seu povo. O «Deus Ainda É Brasileiro», que segue em pós-produção, traduz na sua montagem o “perspectivismo de ação” sobre o qual o realizador escreveu muitas vezes na sua coluna no jornal O Globo. Ou seja, o personagem central parece, para alguns, ser o Altíssimo (vivido pelo ator Antonio Fagundes), e, para outros, as mulheres que lhe ensinam o que é resiliência na Terra. Cabe à plateia se agarrar à SUA verdade. Por isso, num reflexo desse instinto (ou saber) do Senhor, o delicado documentário «Para Vigo Me Voy!» abrace muitos Cacás e nos deixe livre para acompanhar aquele que escolhermos.

Em meio à Retomada, «Deus É Brasileiro» vendeu 1,6 milhões de ingressos em 2003 e voltou a incluir Cacá entre os criadores de blockbusters do Brasil, posto que ocupou em 1976, quando «Xica da Silva» levou 3.183.582 pagantes às salas de exibição, e em 1980, quando «Bye Bye Brasil» vendeu 1.488.812 entradas, apoiado numa indicação à Palma de Ouro de Cannes. 

Ele faz-nos muita falta…

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