Vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes (e nomeado para a Palma de Ouro) e incluído na shortlist alemã aos Óscares nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Fotografia, «Olhar o Sol» confirma Mascha Schilinski como uma voz do cinema europeu contemporâneo que merece a nossa atenção.
Ao longo de um século, quatro raparigas — Alma, Erika, Angelika e Lenka — crescem na mesma quinta, no norte da Alemanha. O espaço permanece; o tempo transforma-se, mas paredes guardam murmúrios, os gestos repetem-se com pequenas variações, e o passado infiltra-se no presente como humidade antiga. Mais do que uma narrativa linear, Schilinski constrói uma experiência sensorial em que o tempo se dissolve e as gerações parecem coexistir.

O filme leva-nos a várias épocas, ao momento em que diferentes mulheres, de diversas gerações, vivem o seu momento de identidade, de papel no contexto social, de posição hierárquica na família e de reflexo na política actual de cada tempo. A mesma casa, as mesmas paredes, mas vivências muito distintas.
Parecem vidas aparentemente pequenas, mas filmadas com uma densidade que lhes restitui centralidade. A realizadora olha para estas mulheres não como figuras secundárias, mas como epicentros de memória.
Só que existe outra dimensão que atravessa todo o filme: a morte. «Olhar o Sol» funciona como um tratado silencioso sobre a partida deste mundo. Não apenas a morte física, mas as pequenas mortes que pontuam a existência — a infância que se perde, o amor que se desfaz, o corpo que se transforma, a identidade que se fragmenta. Cada geração herda não só a casa, mas também as ausências. A câmara parece consciente da finitude e funciona como o verdadeiro espelho de quem olha directamente para ela. Seremos testemunhas ou a própria “chamada” para o outro mundo?

«Olhar o sol» é um gesto de confronto — com a luz, com a verdade, com o inevitável. Há algo de desafiante e, ao mesmo tempo, de efémero nesse acto. Tal como as protagonistas, que ousam existir num espaço que as limita, mas que também as molda.
Schilinski não tem pressa. Permite que os silêncios respirem e que as imagens se imponham. A fotografia — justamente reconhecida na corrida aos prémios — trabalha a luz natural com um rigor quase pintural, reforçando a ideia de que o tempo não passa: acumula-se. Mas a duração generosa do filme pode exigir entrega e disponibilidade do espectador.
«Olhar o Sol» é um filme contemplativo, por vezes austero e denso, mas envolvente. Parece um fresco íntimo sobre várias fases da vida feminina ao longo dos séculos, onde a casa é corpo e o corpo é morada de memória. No final, fica a sensação de que não assistimos apenas a quatro histórias, mas a um ciclo contínuo — como se aquelas raparigas nunca partissem verdadeiramente, permanecendo inscritas na luz que atravessa a casa, geração após geração.
Título Original: In Die Sonne Schauen Título internacional: Sound of Falling Realização: Mascha Schilinski Elenco: Hanna Heckt, Lena Urzendowsky, Susanne Wuest Duração: 155m País: Alemanha 2025

