O Rei Henrique VIII (Jude Law) ausenta-se numa campanha militar no estrangeiro e deixa a sua sexta mulher, Katherine Parr (Alicia Vikander), no lugar de regente. Quando regressa, consumido pela doença e pela paranoia, ela fica em risco de ter o mesmo destino das suas anteriores mulheres, quando se torna suspeita de simpatias religiosas radicais, ao impulsionar o restabelecimento da bíblia inglesa (recusando o uso do latim) e devido à sua amizade com uma pregadora protestante, Anne Askew (Erin Doherty). Mas, agora, é a vez de ser a Rainha a jogar.

O realizador brasileiro Karim Aïnouz já tinha dado a conhecer a sua habilidade em contar histórias de forma intimista, como no sensível «A Vida Invisível». Na sua primeira longa-metragem em língua inglesa, o cineasta assina mais uma obra em que a delicadeza e subtileza são a chave, mas nunca sem esquecer a intensidade e, neste caso, uma tensão permanente. No caso, adapta, para o grande ecrã, o romance “Queen’s Gambit”, de Elizabeth Fremantle.

Katherine Parr foi a primeira rainha inglesa a publicar um livro original com o seu nome e o filme exalta o legado que terá deixado a uma das filhas do Rei, que viria a ser a Rainha Isabel I, uma das principais referências da monarquia britânica – também ela muito retratada no Cinema, como em «Elizabeth» (1998) e «Maria, Rainha dos Escoceses». A visão feminista é, sem dúvida, a principal tónica do filme, dissecando-se as feridas provocadas por uma relação abusiva e tóxica, enquanto se aborda o medo intrínseco da corte que procura, a todo o custo, estar ao ritmo dos humores do Rei (que, por seu lado, estão sempre a mudar).

Alicia Vikander agarra o espectador, mas a sua interpretação acaba por sair um pouco ofuscada. Na verdade, quem rouba a cena é Jude Law, num dos seus melhores trabalhos dos últimos anos, apresentando uma interpretação poderosa, exuberante, imprevisível, e, muitas vezes, assustadora. A sua interpretação é um dos trunfos da obra, bem como os momentos com Vikander, em que se consegue explorar, com maior amplitude, a enorme tensão na relação. Erin Doherty dá também nas vistas com uma personagem que expõe a luta interna da Rainha, entre a forma fervorosa como Anne defende as suas ideias e a maneira bem mais discreta como a Rainha tem de o fazer.

«O Jogo da Rainha» tem alguns desvios históricos em termos factuais, mas destaca-se pela sua produção cénica e pelo cuidado guarda-roupa. Não abandona também o seu foco na luta do poder, mas, sobretudo, pelo impacto da misoginia e da toxicidade, bem como pelo papel da mulher, a sua capacidade de sobrevivência e empoderamento. Mesmo quando o jogo não está, de todo, a seu favor.

Título: O Jogo da Rainha Título original: Firebrand Realização: Karim Aïnouz Elenco: Alicia Vikander, Jude Law, Junia Rees Duração: 121 min. Reino-Unido/EUA, 2023

ARTIGOS RELACIONADOS
Hot Milk

«Hot Milk» é aquele tipo de filme que parece começar como férias baratas no sul de Espanha… e acaba como Ler +

Pillion – trailer

Colin (Harry Melling), um jovem tímido e reservado, leva uma existência monótona até conhecer o irresistivelmente atraente Ray (Alexander Skarsgård), Ler +

“Hamnet”: o romance sobre filho esquecido de Shakespeare e a ferida que deu origem à arte

Maggie O’Farrell, o luto, a pandemia e a estranha sensação de ler este romance no momento errado ou talvez no Ler +

Shelby Oaks – trailer

SHELBY OAKS chega às salas de cinema portuguesas a 12 de fevereiro, num filme de terror que parte de uma Ler +

Hamnet

Disclaimer: Sente-se confortavelmente, sintonize a música: “On the Nature of Daylight”, da banda sonora de «Hamnet», por Max Richter e, Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.